18 de Dezembro, 2013 - 11:30 ( Brasília )

Geopolítica

O retorno do Samurai - Contra China, Japão flerta com nacionalismo


O Japão anunciou nesta terça-feira um plano para aumentar seus gastos com defesa e criar uma nova força de ataque. As medidas são um movimento claro em resposta a ações desafiadoras da China.

Mas muitos membros da oposição dizem acreditar que o premiê Shinzo Abe está usando a ameaça chinesa para perseguir seu sonho nacionalista, segundo o correspondente da BBC em Tóquio, Rupert Wingfield-Hayes.

O plano japonês envolve a compra, ao longo dos próximos cinco anos, de equipamentos antimísseis, submarinos, 52 veículos anfíbios, aviões não tripulados de vigilância e aviões de combate. Abe também estabeleceu um Conselho Nacional de Segurança.

Apesar de sua Constituição (pós-Segunda Guerra Mundial) não prever Exército, Marinha ou Aeronáutica, o Japão tem realizado importantes investimentos em defesa: neste ano, os gastos nessa área chegaram perto de US$ 60 bilhões, quase equivalentes aos da Grã-Bretanha ou da França.

O avanço reflete a preocupação crescente quanto aos gastos chineses e quanto a crescente assertividade de Pequim em suas reivindicações territoriais, em áreas disputadas com o Japão.

Avanço chinês

Tóquio possui uma força militar própria – que, apesar de seu caráter puramente defensivo, é grande e moderna. Mas ela foi idealizada na época da Guerra Fria, para proteger o país de uma invasão da Rússia pelo norte.

Ao mesmo tempo, nos últimos 10 anos, a China tem transformado suas forças militares em um ritmo surpreendente. O orçamento militar de Pequim dobrou, atingindo a marca de US$ 150 bilhões por ano.

A China está construindo navios de guerra mais rapidamente do que qualquer outro país. Além disso, os chineses estão desenvolvendo aviões invisíveis ao radar, aeronaves não tripuladas e já possuem seu porta-aviões.
 

Os maiores gastos militares de 2012

Ranking Países

Gastos em bilhões de dólares

Variação %, 2003-2012

1 EUA 682 32
2

China

166* 175
3 Rússia 90,7* 113
4 Grã-Bretanha 60,8 4,9
5 Japão 59,3 -3,6
6 França 58,9 -3,3
7 Arábia Saudita 56,7 111
8 Índia 46,1 65
9 Alemanha 45,8* -1,5
10 Itália 34* -19

*Estimativas
Fonte: Sipri (Instituto Internacional de Estudos da Paz de Estocolmo)

Desde o ano passado, uma arrastada disputa por um pequeno grupo de ilhas no Mar do Leste da China – Senkaku (ou Diaoyu, como são conhecidas na China), sobre as quais a maioria das pessoas nunca tinha ouvido falar – vem ganhando as manchetes no Japão e na China.

Governos japoneses já vinham há muito tempo expressando vontade de se opôr à China, mas pouco foi feito na prática. Até que, em dezembro do ano passado, o Japão elegeu como premiê o nacionalista Shinzo Abe, que prometeu que o país não seria mais "intimidado" pelo vizinho.

E as ilhas são o principal foco da disputa bilateral.

Lista de compras

O Japão criará uma nova força de ataque anfíbia – algo similar aos marines americanos.

Também há uma grande lista de compras: 28 caças F-35 (invisíveis a radares), 17 aviões de carga Osprey (capazes de decolar como helicópteros), 25 blindados de ataque anfíbio e 99 veículos leves de combate.

O Japão já está construindo dois grandes navios de transporte de helicópteros de assalto que, com os caças, os aviões e os veículos de combate, devem formar o núcleo na nova força anfíbia do país.

Suspeitas

Ao mesmo tempo, oposicionistas se dizem preocupados com as inclinações nacionalistas de direita de Shinzo Abe, que ao longo de sua carreira política chegou a sugerir a derrubada da Constituição pacifista do Japão pós-guerra.

Apesar de definir suas ações como "pacifismo proativo", ele também mostrou alguma ambivalência ao tratar de supostos crimes cometidos contra cidadãos da Coreia e da China durante a Segunda Guerra, questionou se o Japão deveria ser definido como "agressor" e fez campanha pela revisão de livros escolares para dar uma visão mais positiva à participação do país em combates.

Mas a barreira para mudar a Constituição é muito alta. Abe precisaria conseguir dois terços dos votos nas duas casas do Parlamento e ainda vencer um referendo.

Como ninguém acredita que ele conseguirá fazer isso, seus críticos dizem que ele tenta fazer mudanças sem mudar a Constituição.

Na semana passada, Abe centralizou o processo de tomada de decisões militares em um Conselho de Segurança Nacional, seguindo um modelo americano, que está diretamente subordinado ao gabinete do premiê.

Seu partido trabalha ainda por uma nova lei, que permitirá que uma série de assuntos de Estado passem a ser classificados como "secretos". As punições para vazamentos desses assuntos também se tornariam mais severas.

Grupos opositores passaram a semana em frente ao Parlamento para protestar contra a nova legislação. Questionados sobre a motivação das manifestações eles respondiam que "Abe quer nos levar para a guerra".

A lei japonesa pouco difere das que já são adotadas pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha, mas liberais japoneses estão extremamente desconfiados da velha direita do país.

Eles dizem acreditar que Abe quer levar o Japão de volta à era pré-guerra, quando a obediência ao imperador vinha acima de tudo.