19 de Novembro, 2013 - 10:43 ( Brasília )

Geopolítica

Os EUA não vão abandonar seu papel na segurança mundial

Apesar de xisto, EUA manterão seu papel militar

Richard McGregor

Os EUA não vão abandonar seu papel na segurança mundial, mesmo com o aumento da produção de combustíveis no país tornando-o independente de produtores estrangeiros, disse o secretário de Energia americano. Ernest Moniz afirmou que a possibilidade de EUA e Canadá logo estarem produzindo tanta energia quanto consomem é "real".

Ele ressaltou, no entanto, que os EUA ainda têm interesses nas regiões produtoras de petróleo, como o Oriente Médio, e na segurança dos fluxos internacionais de fontes de energia. "Isso não quer dizer que, de alguma maneira, vamos ficar atrás das cortinas", disse ao "Financial Times".

Ele também tranquilizou clientes que planejem comprar gás natural liquefeito (GNL) dos EUA, ao considerar altamente improvável que o governo exerça seu poder para cortar esse fornecimento.

A Agência Internacional de Energia (AIE), órgão dos países ricos que monitora o setor, previu na semana passada que os EUA passarão a ser o maior produtor mundial de petróleo em 2015 e que se aproximarão da autossuficiência nos próximos 20 anos. O país já ficou atrás da China no ranking de maiores importadores mundiais de petróleo.

A onda de expansão do setor de energia alimentou as especulações de alguns americanos de que o país possa vir a se desengajar do Oriente Médio, por não ser mais dependente das importações de petróleo da região. Moniz, no entanto, minimizou tais insinuações.

"Estamos numa situação energética muito boa em comparação ao que se previa há dez anos, mas não vamos ficar independentes dos mercados internacionais de energia", afirmou.

Moniz, que falou na véspera de uma visita à Turquia nesta semana para discursar na conferência de energia Atlantic Council, destacou que o petróleo é um mercado internacional e que nenhum país conseguiria ficar imune ao impacto nos preços do produto.

Ele lembrou, por exemplo, que caminhoneiros britânicos protestaram contra o alto custo do combustível em 2000, quando o Reino Unido ainda era exportador líquido de petróleo, disse Moniz.

Além disso, a posição dos aliados dos EUA que ainda dependem de importações de petróleo e gás "também é um tópico para nós".

Os EUA vêm ampliando a presença militar no norte da Ásia, que é crucial para proteger as linhas marítimas usadas por petroleiros que atendem seus aliados carentes em fontes de energia na região, como o Japão e a Coreia do Sul.

Moniz disse ainda que o Oriente Médio continua a ter "enorme significado geopolítico" para o setor de energia e que os EUA têm na região outros interesses estratégicos.

O secretário, ex-professor do Massachusetts Institute of Technology que foi indicado para comandar o Departamento de Energia em maio, destacou as vantagens das exportações de GNL.

Na sexta-feira, seu departamento aprovou um quinto projeto de vendas de GNL para países que não têm acordos comerciais com os EUA, ampliando grandemente suas oportunidades comerciais.

As licenças outorgadas pelo Departamento de Energia permitem ao governo dos EUA proibir as exportações sob "circunstâncias apropriadas" - provisão que gerou certo receio entre possíveis clientes quanto à confiabilidade do fornecimento, no caso de os preços do gás apresentarem forte alta na América do Norte.

Moniz afirmou que as circunstâncias teriam de ser "bastante dramáticas" para que o governo americano exerça esse poder.

"[Seria o caso de] se pensar muito bem quanto a revogar uma licença, se bilhões de dólares em capital tiverem sido investidos com a expectativa de contratos de longo prazo para obter retorno sobre esse capital."

As decisões sobre as exportações de petróleo dos EUA, diferentemente do caso das de gás natural, são tomadas pelo Departamento de Comércio, e não pelo de Energia, de forma que não são de responsabilidade de Moniz.

O secretário, porém, disse que a EIA (a agência de informações sobre energia dos EUA), que faz parte de seu departamento, vem analisando o assunto. Em maio, concluiu que o temor de que a produção de petróleo nos EUA será restringida a menos que seja levantado um veto à exportação do produto foram "provavelmente um exagero da atual situação", porque é possível promover mudanças nos oleodutos e refinarias para tornar mais fácil encontrar clientes para a produção doméstica.