COBERTURA ESPECIAL - Fronteiras - Segurança

09 de Novembro, 2013 - 13:00 ( Brasília )

Faroeste Caboclo - Caça ao rebanho perdido

Como é a rotina da patrulha rural que tem a difícil missão de tentar frear o abigeato em região próxima à fronteira

Nota DefesaNet,

O jornalista Carlos Wagner é o único especializado em Fronteiras no Brasil.

Série de matérias publicadas no encarte Rural do jornal Zero Hora, em 08NOV13:

- Faroeste Caboclo - Caça ao Rebanho Perdido Link

- Faroeste Caboclo - Furto de gado desafia repressão Link


O Editor



CARLOS WAGNER
carlos.wagner@zerohora.com.br

 
 
Ocombate ao abigeato na região de fronteira é centenário. Na imensidão das planícies da região, os Abas Largas, unidade da Brigada Militar (BM) especializada na busca de ladrões de gado, travam um jogo de gato e rato com os bandos.

Armas à mão, o grupo formado pelo sargento Dilson Torales da Cruz e pelos soldados Marcus Gilberto Isnardi Devincenzi e Roberto Moura, instala-se a bordo de uma caminhoneta do 6º Regimento de Polícia Montada, com sede em Bagé. Em mais um capítulo desse enfrentamento, a patrulha rural inicia uma jornada de 10 horas de vigilância em uma área de 7,3 mil quilômetros quadrados onde existem 4 mil quilômetros de estradas. A maior parte desses caminhos fica na fronteira seca entre Brasil e Uruguai, local de grande atuação de abigeatários.

– É impossível estarmos em todos os lugares da fronteira. Mas os ladrões sabem que uma patrulha pode surgir do nada na frente deles – afirma o tenente Eduardo Azambuja Martins, coordenador do policiamento rural.

Antes de a patrulha sair do quartel, Martins reúne-se com os policiais e entrega um envelope pardo, com o carimbo de sigiloso. Ali estão informações coletadas pelo serviço de inteligência da BM sobre a atividade de um bando de ladrões de gado na Estrada da Serrilhada, um caminho de chão batido de 60 quilômetros que liga a periferia de Bagé a um vilarejo na linha divisória entre Brasil e Uruguai. A conversa entre o tenente e a patrulha foi objetiva e reservada. Zero Hora acompanhou a equipe durante 10 horas de trabalho, que começaram no início de uma noite de junho e terminaram no final da madrugada do dia seguinte.

Os policiais seguiram em marcha lenta pela Serrilhada. A luz do giroflex fica desligada e os faróis, baixos. Informações do serviço de inteligência apontam que ladrões de gado tinham voltado a atuar na área. A estratégia usada é cortar o arame da cerca e soltar o gado na estrada, conhecida como corredor. Durante a madrugada, grupos de ladrões a cavalo conduzem a tropa no corredor até um caminhão boiadeiro.

– Estamos há duas semanas no encalço deles. No mês passado, soltaram 12 cabeças de gado na estrada – acrescenta o soldado Isnardi, que dirige a caminhoneta enquanto Torales e Moura varrem o acostamento da estrada com luzes de faroletes.

De repente, um deles localiza um novilho preto solto no corredor. O veí- culo para, e os policiais examinam a cerca da fazenda. Não encontram o local onde o arame fora rompido.

Suspendem a busca quando surge a luz de um veículo. Os policiais tomam posição para interceptar o automóvel. O carro para e o motorista se identifica. Era um pecuarista. Com a luz do giroflex, a presença da BM é denunciada, e a chance de chegar aos ladrões diminui. Esse jogo de gato e rato entre abigeatários e polícia vem desde dos tempos em que os Abas Largas faziam as patrulhas a cavalo.
 

Uma noite de empate no combate ao furto de gado


Na medida em que a patrulha se aproxima da Fronteira, o número de cabeças de gado solto na estrada aumenta. Um dos policiais comenta que boa parte desse rebanho era de pequenos fazendeiros, conhecidos como pecuaristas do corredor. São animais facilmente reconhecidos por causa da aparência magra e da indefinição de raça.

No meio deles, estão vários novilhos, esses de raça definida, das fazendas vizinhas. Os policiais acreditam que esses animais tenham sido deixados ali pelos ladrões, que usam o rebanho de corredor como um espécie de camuflagem.

No meio da madrugada, as luzes e o ronco de um motor de caminhão vindos de uma coxilha próxima chamam a atenção da patrulha. O veículo é parado e examinado.

– Faço parte de uma turma de caminhoneiros que está transportando soja para Bagé. Acabei ficando desgarrado – explica o motorista do caminhão, João Candongara.

No final da madrugada, a patrulha retorna a Bagé. Na contabilidade do sargento Torales, foi uma noite de empate. Não houve prisões, mas pelo menos se evitou que os animais encontrados soltos no corredor fossem levados pelos abigeatários.

 
Controle mais rigoroso para o período da Copa


A indústria de abate clandestino envolve cerca de 400 mil cabeças de gado a cada ano, segundo estimativa do Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados do Rio Grande do Sul (Sindicarne). Mas é apenas uma tentativa de dimensionar uma atividade sobre a qual não há controle.

O produto não tem qualquer inspeção sanitária, o que representa perigo para saúde. Uma mobilização conjunta entre indústria e governo conseguiu reduzir esse volume, que já chegou a 600 mil cabeças.

Ainda assim, a oferta de carne proveniente de abigeato pode comprometer um árduo trabalho de uma década contra o abate clandestino e preocupa o presidente do Sindicarne, Ronei Lauxen.

O temor é compartilhado por autoridades sanitárias federais, estaduais e municipais, que estão colocando em prática um projeto-piloto de categorização dos serviços de alimentação para a Copa do Mundo 2014 nas cidades-sede dos jogos. Em Porto Alegre, o projeto é tocado pela Equipe de Vigilância de Alimentação, ligada à Secretaria Municipal da Saúde.

– Em linhas gerais, é um check-list de 120 pontos relacionados com o manuseio e a origem dos alimentos que os restaurantes precisarão responder. E serão classificados pelas suas respostas – informa o veterinário Paulo Antonio da Costa, chefe da Equipe de Vigilância da Capital.

Como a carne é o principal cartão-postal dos gaúchos – e um dos principais produtos brasileiros no Exterior, todas as 82 churrascarias e galeterias existentes na cidade estão incluídas no projeto, avisa Costa.
 

Cerco ao varejo também se fecha


O cerco ao varejo, onde a carne sem procedência é colocada à venda, também começa a se fechar. Ações policiais contra receptadores entraram na agenda da Polícia Civil, a exemplo do que é feito com outros crimes. Só em 2013, foram cinco operações.

Em agosto, em Quaraí, na Fronteira Oeste, a Polícia Civil, a Brigada Militar (BM) e a Vigilância Sanitária Municipal realizaram a segunda fase da Operação Carnificina. O objetivo era frear os abigeatários na cidade. No ano passado foram furtadas 62 cabeças e, neste ano, 41 de janeiro a agosto.

Foram vistoriados 20 locais, onde investigações haviam detectado indícios de envolvimento com receptação de carne de abigeato. Em sete deles foram encontrados 600 quilos de carne sem condições para o consumo.

– Em um dos açougues, havia capim colado na carne, um sinal de que o animal havia sido abatido no campo – explica o escrivão Paulo Roberto Nunes Machado, um dos policiais envolvidos na operação.

A origem da carne segue sendo investigada. A operação de Quaraí foi um recado aos criminosos. Uma ação mais complexa ocorreu no mês passado em oito cidades na região de Bagé.

A área é considerada um “viveiro de abigeatários”. Só em Bagé, no ano passado, foram furtadas 164 cabeças. Nos oito primeiros meses de 2013, foram 108. A Operação Carne Limpa, envolveu policiais, técnicos, fiscais e policiais, e vistoriou 80 estabelecimentos. Em 22 deles foram encontrados 800 quilos de carne sem condições de consumo.

– Pela vivência policial, sabemos que parte dessa carne vem do abigeato. E o fato de ter vários órgãos envolvidos dá uma chance maior de obter provas – avalia Cristiano Riberio Ritta, da Delegacia de Roubos, Furtos, Entorpecentes e Capturas de Bagé.