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28 de Abril, 2016 - 17:20 ( Brasília )

Fuzileiro indocumentado se torna cidadão nos EUA

Daniel Torres imigrou aos EUA na adolescência e utilizou uma certidão de nascimento falsa para se alistar nas Forças Armadas


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Daniel Torres, que vivia indocumentado nos Estados Unidos quando se alistou na Marinha utilizando uma certidão de nascimento falsa, tornou-se cidadão americano essa semana. Ele, que juntou-se aos fuzileiros navais em 2007 e serviu na guerra no Iraque, qualificou-se para a cidadania devido às diretrizes especiais do Ato de Nacionalidade e Imigração, as quais permitem às pessoas que serviram nas Forças Armadas durante períodos hostís. As leis isentam os requisitos tradicionais para a aquisição da cidadania, como a residência legal permanente e a presença física nos EUA.

Atualmente com 30 anos, Torres mora na cidade mexicana de Tijuana há 5 anos. Ele jurou a cidadania americana durante a cerimônia de 10 minutos ocorrida no centro comercial de San Diego (CA) na quinta-feira (21). Ele servia nas Forças Armadas há mais de 3 anos quando perdeu a carteira e teve que adquirir novos documentos de identidade, quando seus problemas apenas começaram. Após descobrirem o status migratório de Daniel, o Departamento de Veículos Auto Motores o denunciou aos seus superiores, então, ele foi dispensado e recebeu um diploma por ter servido o país com louvor.

“Quando eu me alistei na Marinha, eu tinha conhecimento dos riscos. Era algo que poderia acontecer; era algo que poderia voltar à tona e me prejudicar”, disse ele do lado de fora do prédio do Departamento de Cidadania e Serviços Migratórios (USCIS). “Eu simplesmente esperava que não tivesse que pagar por aquele erro o resto da minha vida. Agora, finalmente sou capaz de voltar para casa e viver a vida que eu acho que devo”.

Depois da dispensa, Torres saiu voluntariamente dos EUA, em 2011. Ele viajou à França na esperança de se alistar na Legião Estrangeira, mas a perda da audição que ele sofreu no Iraque o tornou incapaz, segundo o seu advogado. Então, ele decidiu retornar à cidade mexicana onde nasceu: Tijuana.

Inúmeros veteranos deportados residem agora em Tijuana e outras regiões no norte do México, geralmente com a ajuda da Casa de Apoio aos Veteranos Deportados, também conhecida como “o Bunker”. A organização oferece aos veteranos recursos para que eles se readaptem ao México e atualmente auxilia 25 homens, segundo o fundador Hector Barajas Varela.

Embora Torres não tenha sido deportado, o seu caso ajudou a reavivar o debate sobre a possibilidade de deportar imigrantes que serviram nas Forças Armadas, muitos deles nas guerras no Iraque e Afeganistão. Entetanto, o caso de Daniel é raro, pois ele não possui antecedentes criminais. A maioria dos veteranos deportados eram residentes legais permanentes que foram condenados por cometerem crimes, explicou a advogada de Torres, Jennie Pasquarella, diretora da ACLU da Califórnia.

Bill Rider, fundador da ONG Combatentes Americanos Veteranos de Guerra, com sede em San Diego, disse nunca ter ouvido de casos como o de Daniel, o qual um imigrante que serviu ilegalmente nas Forças Armadas tenha se tornado cidadão americano.

“Eu acho que seja único, simplesmente por isso”, comentou.

Torres foi trazido por seus pais aos EUA ainda na adolescência, depois que seu pai obteve uma permissão de trabalho. Seus pais residem agora em Utah e outros parentes do veterano em San Diego. Para ele, ter se alistado na Marinha foi um objetivo de carreira.

“Sempre houve esse tabu de pessoas entrando nos Estados Unidos, os imigrantes vindo e simplesmente tirando vantagem do sistema”, disse ele. “Eu não quis ser outro mexicano a roubar o trabalho de alguém”.

“Eu quis provar que estava disposto a fazer algo por esse país, que eu merecia o direito de estar nesse país. Nós não escolhemos onde nascemos”, acrescentou.

Depois da dispensa, ele não tinha opções de trabalho nos EUA. “Eu não pude ir a escola. Eu não pude obter empréstimos para cursar a universidade. Eu não podia conseguir um emprego. Isso foi justamente depois de a economia estar em um momento bastante ruim, então não haviam empregos disponíveis”, recordou.

“Eu não podia viver legalmente; não podia viver confortavelmente. Isso foi muito triste para mim”, acrescentou Torres; que aplicou para a cidadania americana no início de 2016.

Daniel, que cursa o último ano de Direito na Universidade Autônoma da Baixa Califórnia, planeja permanecer em Tijuana até dezembro desse ano, até graduar-se. Ele espera se matricular em uma universidade de Direito uma vez que retorne aos EUA.