05 de Agosto, 2011 - 09:44 ( Brasília )

Defesa

Defesa - Mudança estratégica


Merval Pereira

Tão importante quanto a demissão do ministro Nelson Jobim foi a escolha de Celso Amorim para substituí-lo no Ministério da Defesa. Jobim já tinha caído na boca do povo brasiliense depois da sucessão de episódios que inviabilizou sua permanência no cargo e estava sendo chamado no PMDB de “o avesso de Neymar”, por ter feito três gols contra seguidos no espaço de poucos dias.

Nessa toada futebolística, dizia-se que o ex-ministro Nelson Jobim era tão cheio de si que se considerava em condições de virar o jogo, mas ficou demonstrado que “não era esse Flamengo todo”, que levou três gols do Santos, mas acabou vencendo por 5 a 4.

Jobim perdeu o jogo do poder imediato, mas pelo menos deixa o governo por divergências e não por incompetência ou corrupção. Ao contrário, fez um grande trabalho à frente do Ministério da Defesa, tendo elaborado um Plano Estratégico de Defesa que deu nova dimensão à ação das Forças Armadas.

Se não tem espaço dentro do PMDB, como, aliás, nunca teve, por sua independência política, que às vezes se confundia com arrogância, Jobim terá ampla acolhida no PSDB, onde sempre teve amigos, se quiser continuar na política partidária.

A decisão de colocar o ex-chanceler Celso Amorim no Ministério da Defesa dá bem a importância do movimento no quadro político.

Ao mesmo tempo em que coloca alguém ligado ao ex-presidente Lula, que fora o avalista de Jobim no Ministério da Defesa, a presidente Dilma dá uma dimensão de grandeza política à substituição que certamente contentará os militares.

Lula fez algo semelhante ao nomear o vice-presidente José Alencar para o mesmo cargo na saída do também diplomata José Viegas, uma saída tumultuada por questões políticas delicadas. Viegas politizou propositalmente sua saída do cargo para mostrar que houvera indisciplina na nota oficial do Exército sobre supostas fotos do jornalista Vladimir Herzog publicadas na imprensa, que virtualmente defendia métodos de órgãos de repressão política da ditadura, inclusive a tortura.

Naquela ocasião, Lula não deu apoio a Viegas e contemporizou com a indisciplina de oficiais superiores. Mais adiante, o ministro da Defesa Waldir Pires contemporizou com a indisciplina de sargentos controladores de voo, no episódio do apagão aéreo, e o presidente Lula desautorizou o comando da Aeronáutica.

As relações entre políticos e militares têm sido delicadas, e fantasmas do passado já repetiram como farsa antigos confrontos. Um convite ao ex-guerrilheiro e deputado José Genoino para falar na ESG provocou reação de militares mais radicais.

Hoje, Genoino é assessor do ministro da Defesa, nomeado por Jobim, e não há indícios de descontentamento.

Há o inconveniente de se colocar um diplomata para chefiar os militares, pois o fato de pertencer a uma carreira de Estado, assim como os militares, incomoda-os.

Parece claro que há uma dificuldade de encarar o reaparelhamento das Forças Armadas como uma necessidade do Estado brasileiro, e não uma militarização do país. Mas o novo ministro tem uma visão internacional da política que pode ser muito útil às necessidades dos militares.

A presença das tropas brasileiras no Haiti, por exemplo, era um ponto importante da política externa brasileira na gestão de Amorim à frente do Itamaraty, para estender a liderança regional do país para a América Central.

Desde que assumiu em 2004 o comando da Força de Paz da ONU no Haiti, a pedido dos Estados Unidos, o governo brasileiro jamais admitiu formalmente, mas vê uma boa oportunidade para reforçar sua pretensão de obter uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU.

A importância estratégica que o Brasil ganhou com a atuação no Haiti o fez ampliar sua reconhecida liderança regional: o que acontece nas Américas tem que ser do nosso interesse, é a definição do Itamaraty.

Há uma concordância entre os estudiosos: os militares, hoje, preocupam-se mais com o seu reaparelhamento, ou com a defasagem salarial, do que com questões políticas.

A possibilidade de ocorrer um apagão aéreo, por exemplo, fora prevista em relatório de 2003 do então ministro José Viegas, que alertou para a falta de investimentos na segurança de voo e a consequente sobrecarga no sistema de controle de tráfego aéreo.

A compra dos caças supersônicos, que está emperrada desde o governo Fernando Henrique Cardoso, é um assunto que Celso Amorim conhece muito bem porque envolve a atuação diplomática dos três países envolvidos nas negociações finais: Estados Unidos, com os Boeings; Suécia, com os Grippen; e a França, com os Rafale.

O ministro Amorim, quando à frente do Itamaraty, cuidou dessas demandas e teve diversas conversas com autoridades estrangeiras sobre o assunto, inclusive a secretária de Estado Hilary Clinton, que enviou uma carta através do Itamaraty garantindo, em nome do governo americano, a transferência de tecnologia para a Aeronáutica.

As demandas militares atingem não apenas a Aeronáutica. A necessidade de renovação de equipamentos existe também na Marinha e no Exército, para o que é classificado por especialistas de “recuperação operacional das Forças Armadas”.

Nós não temos pendências com nossos vizinhos e não sofremos ameaças de invasões externas, mesmo que existam setores que consideram a Amazônia sempre ameaçada. Mas, na avaliação de especialistas, estamos em grande desvantagem com as novas tecnologias e equipamentos mais modernos.

O Ministério da Defesa tem parte importante na preparação para sediar grandes competições esportivas, a Copa do Mundo ou as Olimpíadas, ou grandes eventos internacionais como a Rio + 20, pois é responsável pela aviação civil e pela proteção do território nacional contra eventuais ameaças do terrorismo internacional.