COBERTURA ESPECIAL - Crise - Pensamento

16 de Outubro, 2016 - 19:00 ( Brasília )

FHC - Entrevista exclusiva ao Correio Braziliense

Em conversa com o Correio, ex-presidente fala sobre os primeiros meses do governo Temer, a Operação Lava-Jato e a vitória do tucano João Doria na disputa pela prefeitura de São Paulo


Link da matéria original http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2016/10/09/internas_polbraeco,552476/entrevista-exclusiva-com-fhc.shtml
 

 

  

Denise Rothenburg ,
Leonardo Cavalcanti - Enviado especial
 

São Paulo —Na parede, o relógio da marca centenária alemã Junghans indica, com som alto e grave, o início da conversa. Às 16h, conforme o combinado, Fernando Henrique Cardoso, 85 anos, começa a responder às perguntas da reportagem do Correio. A pontualidade do ex-presidente combina com a organização da ampla sala, onde nada parece estar fora do lugar, dos papéis às balinhas cuidadosamente colocadas no pequeno pote de vidro. A arrumação da sala e do personagem contrasta com a entrevista que se seguiu sobre o turbilhão da atual política nacional.

“O Brasil passa por uma tremenda crise fiscal. Olha que eu peguei pepinos grandes, mas, desse tamanho, nunca vi. E o governo Temer já tem definido o seu caminho, mas as pessoas não sabem. Tem de explicar, falar”, disse Fernando Henrique, na última terça-feira (4/10), num dos escritórios de um edifício de 110m de altura no Vale do Anhangabaú, no decadente centro da capital paulista. Na quinta-feira à noite, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, fez um pronunciamento em rádio e televisão para defender a proposta que limita os gastos federais, garantindo preservar despesas com saúde e educação.

Ao longo de 90 minutos, ali, na sede do instituto que leva o seu nome e ocupa dois dos 30 andares do prédio modernista dos anos 1940, o sociólogo Fernando Henrique falou sobre a divisão do PSDB, amplificada pela eleição à prefeitura de São Paulo e pela vitória de João Doria, que não era o seu candidato. “As eleições municipais servem de fundamento para eleição no Congresso. A presidencial é uma conversa mais direta, entre candidato e eleitorado”, disse ele, minimizando a pretensa força do governador Geraldo Alckmin para 2018 — ainda falou de Lava-Jato à vida em Brasília. Até que o relógio de parede voltou a tocar, trazendo calmaria ao ambiente.

Há relação entre a saída do PT do poder federal e a eleição municipal do último domingo?

FHC: Quem poderia imaginar há oito meses a catástrofe que houve aqui em São Paulo para o PT? Eu sempre fui cauteloso com o impeachment, até mesmo com o Collor. Àquela época, tínhamos medo da volta ao passado. No início, tira uma pessoa que foi votada e coloca outra, que também foi votada, mas que a população não tem tanta ligação. Não é tão simples. O que aconteceu foi que o governo Dilma parou de governar, assim como o do Collor. Dilma perdeu maioria no Congresso, apoio da população. O impeachment é o resultado, não o ponto de partida, o melhor é que não haja tal resultado. Mas fazer o quê? O governo parou, virou a página e eles não perceberam. Estou com 85 anos, acompanho cenário político por muitos anos. E chega um momento em que é possível que as pessoas não se deem conta, é difícil, se está manejando, perceber o tamanho do estrago. Eu nunca vi uma paralisia econômica por tanto tempo no Brasil, uma falta de esperança tão grande. E isso obviamente produz efeitos, juntando isso com a paralisação das instituições, com a crise moral. Isso quer dizer que você vai ter garantia do que vai acontecer depois? Não. Defino o governo atual como uma pinguela, que é algo precário e pequeno, mas, se ela quebrar, você cai no rio e é melhor ir para o outro lado. O outro lado é a eleição de 2018. E, para chegar lá, é necessário que esse governo avance. Pode avançar? Pode.
Como?
FHC: A população não tem expectativa, só quer que melhorem as coisas. O governo tem condição? Tem. Porque ele é fruto do Congresso. A experiência do Temer é muito grande, ele foi presidente da Câmara três vezes e presidente do PMDB. A minha preocupação maior é: será que o governo vai ter capacidade de definir o caminho da economia? Acredito que eles estão começando a definir caminhos.

O governo Temer começou?

FHC: Acho que sim. O que o Brasil tem de imediato? Uma tremenda crise fiscal, como nunca se viu. Olha que eu peguei pepinos grandes, mas, deste tamanho, eu nunca vi. E o governo Temer já tem definido o seu caminho, mas as pessoas não sabem. Tem de explicar, falar. O endividamento interno é muito grande, mais ou menos, R$ 4,5 trilhões. Está bem, isso é 70% do PIB. Outros países têm muito mais alto, mas a taxa de juros aqui é de 14%. Segundo, como a economia parou de crescer, não tem arrecadação, tem despesas fixas, pessoal, compromissos e isso tudo cria um problema terrível. Acho que o governo está dando algum sinal, mas temos que tomar medidas drásticas e impopulares.
PEC do teto
Como o teto de gastos, por exemplo? Estamos na mesma situação do pré-Real?

FHC: Temos uma diferença do Real. No Real, na URV, o que fizemos? Era DRU, o fundo de saída de emergência. Temos que dar flexibilidade ao gasto público, por isso, teve que parar a obrigatoriedade de certos gastos. Àquela época, o que afligia de forma mais dramática a população era o custo de vida, a inflação. Colocando em ordem o mecanismo fiscal e tendo capacidade de conduzir o processo econômico, barra a inflação. Foi o que fizemos, o bônus é imediato. Agora não, agora você terá que reconstruir penosamente um mecanismo fiscal, não é a inflação que está atormentando as pessoas, é o desemprego. E o desemprego é mais complexo, pois leva mais tempo para recuperar do que uma situação inflacionária. Não bastará segurar o gasto público, que é a PEC do Teto. Vai precisar de investimento. Mas eu acho que vai haver alguma possibilidade para o governo, porque ele percebeu que terá de dar sinais fortes nessas direções. Então vai ter que preparar duas ou três medidas que tenham essa virtude. Primeiro, a PEC do Teto, nem discutirei se é bom ou mau, se tem um sinal que mostra que tem um governo e que ele controla o Congresso. Segundo, vão ter que mexer na Previdência, porque o deficit é gigantesco. Vão ter que mexer pelo lado que começaram a mexer agora, da desigualdade e do privilégio. Se mexer só por causa da austeridade, a população reage mal. Tem que chamar atenção para as desigualdades, e eles estão começando a fazer isso.

 Mas já há a volta da confiança?

FHC: Esse é o ponto. Tem que retomar a confiança, qual é a nossa base? Primeiro, agricultura e minério. Nossa agricultura é boa, competente, de alta produtividade, com capacidade empresarial e tem mercado. Minério também tem mercado. Se tivermos sorte e os preços das commodities não afundarem, incluindo o petróleo e a cana, teremos alívio. Segundo, você tem uma extrema carência na parte de infraestrutura e o governo está desenhando um programa de infraestrutura em parcerias. O que eu acho que precisa mais é falar com as pessoas, mostrar a cada um o que vai ser feito, qual é o horizonte.

Mas a imagem do governo é de que há recuos, não?

FHC: Por isso é importante observar o que vai acontecer agora com as votações dessas questões. Se passar, a PEC do teto vai dar um sinal de que o governo está corrigindo. Mas precisa explicar. Quando fui ministro da Fazenda, eu falava o tempo todo. Todo dia eu dava entrevistas: televisão, rádio e jornal. Ia para o Congresso, falava com as bancadas e os sindicatos.

É o Temer ou o Henrique Meirelles que tem de fazer esse papel?

FHC: Qualquer um dos dois, tanto faz. O Itamar não fazia, alguém tem que fazer. O governo já tem definido o seu caminho, mas as pessoas não sabem. E, em política, você precisa dizer “vem por aqui, vem junto comigo, por aqui vai dar certo”.
A vitória de João Doria e o fortalecimento de Geraldo Alckmin antecipam ainda mais a divisão do PSDB para 2018?
Os políticos sempre antecipam o tempo.

Mas isso não atrapalha o governo? Como o senhor vê esse quadro dentro do PSDB?

FHC: Primeiro, o PSDB teve uma vitória ampla e forte. Não só em São Paulo, mas em São Paulo foi a mais marcante.

Vitória de Doria na disputa pela prefeitura de SP
Em São Paulo, a vitória para parte do PSDB foi constrangida...
FHC: Mas houve uma vitória ampla. É natural que as pessoas comecem a pensar que já ganharam. Eu acho que a relação entre eleição municipal e presidencial é relativa. Ela fortalece politicamente alguns líderes, mas você tem muito tempo. As eleições municipais servem de fundamento para a eleição no Congresso. Prefeitos são grandes eleitores, então, quando você vai bem na eleição municipal, provavelmente você terá uma boa votação no Congresso. No que diz respeito às eleições presidenciais, isso é uma conversa mais direta entre o candidato e o eleitorado.

Não há uma relação com a eleição presidencial?

FHC: Não é automático, primeiro vai ter que ver como vai ser o desempenho do Doria na prefeitura. Ao público, ele disse que era gestor, não é político. Isso é verdade. Tem que saber se isso vai ser concretizado.

Mas isso não deixa de dividir o PSDB...

FHC: Qual é o outro partido que tem três nomes? É difícil ter um nome. Qual o problema do PSDB? Ter três? Podia ter até mais.

Na atual conjuntura quem está mais na frente? Alckmin, Serra ou Aécio?

FHC: Claro que o Geraldo está mais nas manchetes, mas o que vai acontecer com a máquina do partido? Todos os partidos acabam se curvando relativamente à opinião pública. Quem é que vai ter mais chance daqui a dois anos? Sabe Deus quem é que vai ter. Espero que seja alguém do PSDB e espero que aconteça o que sempre tem acontecido. Eu pelo menos atuo dessa maneira. Em um dado momento, você tem que juntar.

Mas o ninho tucano está exposto, com feridas abertas. Tem um certo mal-estar. O senhor se sentiu traído pelo Alckmin quando ele insistiu no Doria?

FHC: O Serra e outros queriam que eu falasse com o Geraldo, e queriam ir junto comigo a ele. O Geraldo é muito atencioso, era só marcar a conversa. Ao final, o Geraldo falou que iria até minha casa. Foi então que disse a ele o seguinte: “Qualquer que seja o candidato eleito, se você for indicado para presidente da República pelo PSDB em São Paulo, ninguém vai ficar contra você, mas acho melhor você não interferir na campanha”. Então, ele me disse que o Doria, o que também é verdade, é persistente, que estava querendo, estava ativo, e que era o Doria, e não ele.

Mas o Alckmin esticou a corda?

FHC: Ele fez o que qualquer político na condição dele faria. Acho que não se pode criticar alguém porque ele estava apoiando um candidato, que obviamente vai fortalecer, é do jogo político. A verdade é a seguinte: a linguagem do Doria na campanha, qual foi? Foi de um gestor, e, neste momento, a opinião pública parece preferir pessoas, não políticos. Então, ele surfou nessa onda.

A disputa antecipada no PSDB não pode criar problemas na relação com o PMDB?

FHC: Poder, sempre pode. Mas o que está em jogo é muito mais do que isso, não é difícil perceber que a fragmentação partidária chegou a tal ponto que é difícil se manter por longo tempo. Qualquer um que seja eleito presidente, que tenha que lidar com 40 partidos, 30 partidos, como vai fazer? Se você somar o PSDB, o PMDB e o PT, dá 180 deputados, como é que faz? Isto aqui está afundando, não foi só a economia que se arrebentou, o sistema político também se arrebentou. É uma falha muito grande dos políticos do Brasil. Esse sistema não funciona mais. O que sobrou da eleição? O PMDB e o PSDB. Então, eu acho que a responsabilidade institucional desses partidos é enorme. Pois, se for por este caminho de divisão e muita briga, pode vir um colapso maior ainda.

Impeachment, Dilma, Lula e PT

Essa tensão do sistema não se intensificou com o impeachment de Dilma, uma presidente eleita?

FHC: Quem sofreu o impeachment foi a esquerda, o PT. Essa que é a diferença, mesmo com a capacidade vocal da esquerda de repercussão mundial. Só que as urnas foram abertas agora e reafirmaram. A população, de certa forma, indiretamente, apoiou, até já apoiava antes. Esse primeiro mal-estar vai diminuir. Mas você vai ter um país mais tenso. O PT ainda está assustado, mas, se enveredar por esse caminho, quem vai ganhar será o PSol. Quem vai ganhar não é o PT, infelizmente o PT se lambuzou.

O senhor acha que tem saída para o PT?

FHC: Dos nossos partidos, o que era mais partido era o PT, mais organizado e tal. Mas, de liderança, o problema do PT é que ele sofreu um baque. O PT volta a ser o que era o PT no começo, quando o Lula não tinha tanta força.

O senhor acha que Lula tem chance de voltar a ser presidente?

FHC: Não, não creio.

 O PT acabou?

FHC: Não. Nem acho bom que acabe. O PT tem um certo enraizamento nos movimentos sociais, mas principalmente na burocracia e professorado. Vai encolher, mas eu não acho bom que acabe. O certo é o partido fazer uma revisão. O maior problema do PT é a ideia de hegemonia, pois torna o partido não democrático. Eles acomodavam os partidos que eram seus aliados ao seu interesse principal, que era mandar. Vejo o que tem acontecido na política brasileira, da década de 1990 em diante. Tivemos só dois partidos que foram capazes de expressar uma visão de Brasil, simbolicamente, o PT e o PSDB, uma capacidade de ressonância nacional.

Até muito parecidos durante determinado momento...

FHC: Eles eram primos. Um outro grande partido é um partido de Estado, o PMDB.

E foi importante lá atrás na redemocratização...

FHC: E continua. Na época do Plano Real, o PMDB ficou na dúvida e eu forcei a entrada. Ou fazia um tripé com o DEM (antigo PFL) e o PMDB, ou não tinha como governar. Como era esse tripé? Um controlava a Câmara, outro o Senado e um, o Executivo. Quando o PSDB, no finalzinho, quis controlar tudo, arrebentou. Isso, no fim do segundo mandato. Quando o PSDB assume a presidência da Câmara, tem uma briga no Senado enorme, entre o PMDB e o PFL. O PFL sai do governo. Mesma coisa agora. O PMDB, o que ele fez? Ele entrou para o PT e deu uma certa estabilidade. Óbvio que não é só isso, depende da economia também, da capacidade de realização, depende de mil coisas. Mas, politicamente, é isso. Esse sistema não tem mais força para sustentar o governo. Os três maiores que brigam não têm voto. Esse é o drama que vai ter que ser resolvido.

De que forma?

FHC: Fazer um semipresidencialismo no futuro. Acho que o presidente Temer deve dar sinais na área política, e está dando porque tem um projeto andando lá, do Ricardo Ferraço, na direção certa. Lei de barreira, acabar com coligações proporcionais e resolver financiamento.

O fim do financiamento privado é um risco?

FHC: A decisão do Supremo deu um baque grande, tem um risco, pode aumentar, com o tempo, o dinheiro do crime organizado. Foi o que aconteceu na Colômbia e no México.

Crime organizado e igreja.

FHC: E a igreja. Então, não resolve completamente, por mais que você tenha um fundo partidário grande, não resolve. Agora, também você não pode deixar como era antes. Se você quiser ter dinheiro privado, eu acho que tem que colocar muitos limites. Primeiro, um teto por conglomerado, “X” milhões. Mas, mais importante do que isso, é se uma empresa dá para um, não dá para outro, escolhe. Aí muita gente não vai escolher, vai ficar com medo de escolher, um vai dar menos, mas, quando der, dá para um lado.

O senhor é a favor do financiamento público?

FHC: Eu sou a favor, mas eu acho que não é o suficiente, nós estamos vendo agora. Se você perguntar ao povo se está disposto a pagar mais impostos para financiar, não vai querer.

O senhor não pensa em voltar a ser candidato?

FHC: Depois que deixei a Presidência, não. É preciso renovar e tem que renovar de geração também. Não é só renovação de alternância de poder e partido, tem que mudar a geração, abrir o caminho.

Lembranças da Presidência
Qual foi o momento mais difícil na Presidência?

FHC: Quando estourou o câmbio, mas sempre é difícil. Ao mesmo tempo, é prazeroso, você faz coisas, senão ninguém vai querer ser presidente.

Quais são os prazeres?

FHC: É quando você consegue fazer alguma coisa que deu certo. Você não é dono do que vai acontecer, às vezes, você está querendo fazer alguma coisa, faz, e aquilo tem um resultado oposto do que tava imaginando. Por exemplo, você resolve fazer uma reforma tributária, em geral, tudo que você manda para o Congresso sai de outra maneira. As forças da sociedade estão lá e vão transformar aquela sua proposta inicial em outra coisa, às vezes, pior do que você não ter mandado. Ou então, fazer a reforma da Previdência, aliás, o Temer foi relator à época. Melhor separar a pública da privada, senão junta todo mundo contra. É muita gente. Se você olhar o INSS, o custo hoje é, mais ou menos, R$ 140 bilhões para pagar 26 milhões de pessoas. E é de R$ 90 bilhões para pagar um milhão de aposentados do setor público. Olha aqui a injustiça: quem se aposenta com 50 anos não é o pobre. O pobre tem muito mais dificuldade, mas o que tem privilégios sempre vai falar em nome do que não tem.

O Estado brasileiro é muito corporativista?

FHC: Totalmente. Quais são os grandes problemas que temos? O corporativismo, o clientelismo e a corrupção. A corrupção organizada é mais recente e é para financiar o poder. O clientelismo é tradicional. É família no meio, os amigos, nepotismo e o toma lá, dá cá. E o corporativismo são os grupos organizados que têm poder junto ao Estado, não só os trabalhadores, os sindicatos patronais têm muito também. A estrutura sindical brasileira é a estrutura italiana. É o sindicato único com base ditatorial, não tem multiplicidade. Aliás, o Lula e o PT eram contra isso, depois ficaram a favor.

A reeleição vale a pena?

FHC: Àquela época, o país todo apoiava a reeleição, pesquisas de opinião, os editoriais todos, o Congresso por enorme maioria, no Senado foi 80%. E por que isso? Quem era contra a reeleição? O Maluf e o Lula, que eram candidatos e, dentro do meu próprio partido, todos que queriam ser candidatos ficavam um pouco assustados. Se você pensar do ponto de vista não da pessoa, mas institucional, você, em quatro anos, dificilmente faz alguma coisa de mais sólida. Pode fazer se você tiver muito poder, mas é muito difícil. Quando houve a revisão constitucional, houve uma mudança porque o mandato era de seis anos, houve encurtamento do mandato para haver reeleição. Mas acabou o prazo que se podia mudar a Constituição e não foi votada a segunda parte, então ficou quatro anos sem reeleição. Nós erramos, sim, basicamente, em não ter imposto as regras para evitar o abuso da máquina. Seis anos é um infinito tempo para um mau presidente. Você viu que, quando a coisa desandou, nem quatro anos deu. Na média, é melhor você deixar um mandato de quatro anos, é quase como um recall a cada quatro anos.

E em relação às denúncias de compra de voto?

FHC: Isso nunca houve. Se você for ver, houve compra de voto não meu, não do governo. Eu não quero ficar acusando quem eu não tenho prova, pega lá, tem os dados. Aconteceu uma questão lá no Acre, eu não precisava de voto, tinha voto em quantidade para a reeleição. Isso tudo foi campanha do PT. Agora, que você tem pessoas corruptas no Congresso, tem, mas não é no governo, não é no PSDB, nunca houve tal envolvimento, não precisava. Se não houvesse outro argumento de ordem moral, tem o argumento de que não precisava. Mesmo depois das denúncias, o Senado aprovou a reeleição com maioria total e as pessoas ficam com o julgamento anacrônico, àquela época, as pessoas, em geral, eram favoráveis à reeleição, salvo os que queriam ir para o poder, era o Lula e o Maluf. Por que vai comprar voto? Não precisava.
 
Operação Lava-Jato
 
A prisão do Lula seria ruim para o país?

FHC: Eu não quero falar disso. Eu acho que o Lula fez tanta coisa contra ele mesmo, não sei o que ele fez, espero que não chegue a tal ponto, mas eu não sou juiz. O juiz tem limite, o fato. Eu não conheço os fatos e nem quero conhecer, prefiro não saber. É claro que é ruim para o país, você ter alguém que é um líder, ter um momento de tanta angústia. Eu não sou desse estímulo, não gosto de espezinhar.
 
A Lava-Jato chegou no PMDB e no PSDB também.

FHC: Sim, mas qual é a diferença entre uns e outros? O grosso desse processo é um processo pelo qual pessoas do governo sustentam pessoas nas empresas públicas ou na área pública, ligadas a um mecanismo de arrecadação, que vai para o partido para sustentar o poder e eventualmente escorrega no bolso de alguém. O PSDB não estava no poder, o que pode acontecer no PSDB é em coisas locais porque não estava no poder quando esse sistema foi montado, na Petrobras, Eletrobras, não tem como. Não, eu estou falando da corrupção organizada. Como eu disse aqui, todo mundo sabe, boa parte da política brasileira foi financiada por empreiteiras e bancos, em geral, caixa um e, de vez em quando, caixa dois. Eu fui candidato, várias vezes, e nunca tive problema. Tive uma acusação na Folha que era ridícula, vasculharam tudo, era um apontamento, porque a lei permite você declarar que recebeu e acabou. Quando é que você não declara? Quando você não quer mostrar quem é a fonte de financiamento ou então quando a empresa não quer mostrar, senão não há razão para não declarar. Ao declarar, não tem limite, o limite é altíssimo. Aqui, descobriram outro mecanismo, a empresa não entra em dinheiro nenhum, quem entra é o governo. O dinheiro vem e aí é outra questão, cai na política. Do ponto de vista dos fiscais da Lava-Jato, eles chamam tudo de propina. Eu acho que é melhor diferenciar. Uma coisa é corrupção, outra coisa é utilização de meios não legítimos de financiamento e outra coisa, é o financiamento legítimo.
 
Regulamentação das drogas
 
Por que a sociedade não consegue avançar no debate de regulamentação das drogas?

FHC: Não é sociedade, é o meio político. Você vê que os próprios tribunais têm lá discussões que avançam mais consistentemente que no meio político. Na prática, a droga no Brasil é livre na mão do crime, eu acho que ela deve ser regulamentada e combatida e é mais fácil combater sendo regulamentada. Pega o cigarro, houve uma discussão, lá atrás, sobre se devia proibir o cigarro, não foi proibido, foi regulamentado e, com campanhas em cima, contra, caiu o uso. Eu não sou a favor das drogas, eu sou a favor da regulamentação, porque elas, na verdade, hoje, são livres, só que estão na mão do crime e quem usa a droga também se envolve com o crime porque vai lá comprar.

Quando o senhor fala dos políticos, posso fazer uma relação direta com o atual ministro da Justiça que se veste de preto e vai para o Paraguai para ficar cortando pé de maconha?

FHC: Eu não o critico porque mandei destruir pés de maconha no Nordeste. Ele não tem noção, talvez, de que isso é uma luta árdua e perdida.

O senhor não tinha essa noção quando disse que mandava destruir?

FHC: Não, então eu não estou criticando.

Não há um despreparo, de qualquer forma, em relação ao governante?

FHC: É. No meu tempo, a droga não era essa questão que é hoje. De qualquer maneira, nós criamos uma coisa, a Senad, que não era para reprimir, era para educar. Já havia a discussão, os americanos é que forçavam muito a repressão. A sociedade avança, o tribunal avança, veja a questão de certos casos de aborto, o tribunal foi quem interferiu, mais que o Congresso. Eu acho que é preciso tomar cuidado, no Brasil, neste momento, está havendo uma onda de direita, é verdade, e eu sou contra. Uma coisa é você ser contra os desvios do PT, outra coisa é apoiar a onda de direita, a bancada da bala. Eu acho que é preciso que algumas pessoas, alguns partidos, se possível, entendam o seguinte: você tem que entender o que é o mercado, não lutar contra o mercado, saber que ele não é exclusivo, tem um setor que é público. A gente tem que ter uma regulamentação clara. Acho que não precisa entrar nessa onda direitista, do ponto de vista de costumes, isso é delicado. A própria estrutura da família mudou. A família hoje é uma coisa diferente do que era antes. Isso, para mim, é esquerda, não é o atraso representado por certos grupos aí que querem estatizar tudo, controlar a mídia, isso não é esquerda, é atraso.

Como o senhor avalia essa personalização que muita gente critica em relação à atuação do MP e do Judiciário?

FHC: É quase inevitável, em um país como o nosso, que é do espetáculo.
 
Por que somos do espetáculo?

FHC: Os EUA, também. Toda sociedade democrática, de massa, que depende muito dos meios de comunicação, formais e informais, é do espetáculo, e agora você mesmo faz seu próprio espetáculo pelo Facebook. Como pode pedir para alguém não ser parte do show? O show é geral, é bom? Aí depende. Eu acho que as pessoas que têm maior relevância devem se cuidar um pouco mais. Não vamos escapar do show.

Falando em exposição, tem o episódio envolvendo o filho que o senhor assumiu.

FHC: É uma coisa indevida porque invade a vida privada. Eu tenho a consciência tranquila, de que eu procedi corretamente, o quanto é possível proceder corretamente nessa matéria, e nunca faltei com o apoio moral que eu tenho que dar a uma pessoa que é vítima das circunstâncias. Eu não quero falar além disso.

Regredimos economicamente?

FHC: Estamos em um momento que dá para engatar de novo. O mundo mudou muito a maneira de organizar a produção e, quando a infraestrutura muda, tem consequências. A globalização não é uma ideologia, é um modo de organizar a produção. Está aí, ela é boa, é má? Não sei. Você tem que defender os interesses do Brasil neste plano. O Lula, em um primeiro momento, fez isso também. O que arrebentou tudo? Foi a nova matriz econômica, porque eles acharam que aqui o Estado pode fazer tudo: aumenta o consumo aumentando crédito. E aí estourou. Não entenderam o mundo de hoje, onde tudo pode se desorganizar. Nosso problema é reengatar. Isso pode dar para trás? Pode. A Inglaterra não saiu do mercado europeu, isso não pode dar confusão? A Rússia não rompeu um tratado (sobre plutônio) e não pode dar confusão? Pode. O mundo não está feito para, necessariamente, dar certo, muito menos, os países. Às vezes dão, às vezes, não. Estamos num momento em que, ou organizamos isso aqui, ou não dará certo. Somos muitos, 200 milhões. Quantos países têm 200 milhões de habitantes, 10? Não é fácil, é uma vantagem, mas é um desafio também, não é coisa que põe ordem nisso aqui. Desengatou, estamos com o fio desencapado. O governo Temer tem a condição de permitir o começo de encapar o fio, se fizer isso, o Brasil está feito e ele vai para a história também.

Mas ele vai ter legitimidade em relação a isso? 2018 não está muito distante?

FHC: Vai precisar de resultado. O Itamar também tinha esse problema da legitimidade. Naquele tempo em que viemos para São Paulo, era complicado, muita greve, muito protesto, não era fácil, não. Você vai ter que ter resultados, tem que ter sinais e o resultado, em parte, você antecipa com a palavra. É isso.

A quietude do horizonte de Brasília

FHC: Gosto da certa quietude que tem no horizonte da cidade. Tenho uma relação afetiva com Goiás, meu bisavô fez parte da comissão que demarcou Brasília. Ele foi governador de Goiás, no tempo da monarquia. Nossa família era de Goiás Velho, então sempre tive uma certa relação especial com a região. Na primeira vez que fui a Brasília, a cidade estava praticamente sendo terminada. Meu pai era deputado por São Paulo-Rio, e eu tinha um tio que era presidente do Banco do Brasil. Fui com ele a Brasília, tinha por volta de 27 anos, já ministrava aula na USP. Depois, Darcy Ribeiro, que era amigo meu e da minha família, queria nos levar para Brasília, para a UnB. Eu estava na USP e queria ficar aqui. Não estava envolvido com política, meu desejo era meramente acadêmico. Eu tinha um grupo importante de sociologia em São Paulo. E o Darcy queria muito isso, me levar para a capital. Porém minha carreira aqui estava encaminhada, então para mim não tinha sentido. Agora, o que eu não acompanhei em Brasília, mas meus sobrinhos adoram, foi o desenvolvimento cultural da cidade. Tenho um sobrinho que é músico, Brasília tem muita coisa de música, o Clube do Choro, e eu vivia muito a parte, às vezes sabendo o que estava acontecendo, porém um pouco a parte daquela vida política que é cansativa. Hoje, vou a Brasília três vezes por ano, geralmente. Depois eu tinha alguns amigos meus que eram ligados a grupos de chorinhos e frequentavam o Clube do Choro