COBERTURA ESPECIAL - Expansão Chinesa - Geopolítica

12 de Janeiro, 2015 - 08:00 ( Brasília )

A China vai salvar a Venzuela?

Cada vez mais perto do colapso, Caracas tem esperança de conseguir mais empréstimos com Pequim

Por Shannon Tiezzi – texto do The Diplomat
Tradução, adaptação e edição – Nicholle Murmel

 

À medida em que entramos em 2015, ao menos uma tendência de 2014 se mantém – a queda vertiginosa do preço do petróleo no mercado internacional. E com essa queda, grandes nações produtoras estão entrando em recessão econômica. Um dos países que levou o golpe mais duro foi a Venezuela, que é parceira de longa data da China, e agora se volta para Pequim em busca de salvamento financeiro.

O país sul-americano é um dos fundadores da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), e depende fortemente da commodity. Segundo dados da próprioa Organização, a receita da exportação de petróleo corresponde a 95% do total de exportações da Venezuela. De forma mais ampla, óleo e gás repsondem por cerca de um quarto do PIB nacional. Dado o papel inflacionado do produto na economia, o país precisa de  um preço global de 117,50 dólares por barril para arcar com os gastos estatais em 2015, segundo o Deutsche Bank.

Desde o último dia 06, o óleo cru está circulando a menos de 53 dólares o barril – o menor preço nos últimos cinco anos e meio. A empresa de serviços financeiros Barcley’s espera que Caracas anuncie uma grande desvalorização da moeda e provavelmente cortes violentos nos gastos do governo para evitar o pior da crise – mas ainda assim a empresa estima que a economia venezuelana vai encolher em torno de 6,2% em 2015.

O desabamento do preço do óleo veio junto com um tumulto econômico mais amplo na Venezuela, incluindo inflação acelerada, produção em queda, e escassez de produtos importados. Com a nação à beira do colapso econômico, incluíndo a possibilidade de déficit de orçamento, o presidente Nicolás Maduro saiu no que ele chamou de “turnê internacional... uma turnê muito importante para assumir novos projetos, dadas as circunstâncias de queda na renda que nosso país enfrenta”. Não é surpresa que o itinerário de Maduro passe por um dos principais parceiros econômicos de Caracas: a China.

O gigante asiático já concedeu mais de 50 bilhões de dólares em empréstimos ao parceiro sul-americano desde 2007 em troca de garantia de remessas de petróleo no futuro. Com a Venezuela desesperada por financiamento, Maduro espera que Pequim mais uma vez abra os cofres. Porém, o parceiro asiático se mostrou relutante até o momento em extender o crédito para além dos 4 bilhões do acordo de “dinheiro em troca de óleo” que o presidente chinês, Xi Jinping, assinou com Maduro em julho do ano passado em visita à Venezuela.

O jornal venezuelano Nuevo Heral, citando dados da agência de pesquisa política Inter American Trends, declarou que Maduro estava prestes a conseguir um financiamento de 16 bilhões de dólares, se Caracas aceitasse as “condições muito severas” estabelecidas por Pequim.  

Segundo a Inter American Trends, a China novamente busca garantia de envio de remessas futuras de petróleo em troca do dinheiro, o que poderia exigir que que a Venezuela aumentasse o fluxo atual em mais de 100 mil barris por dia. Caracas envia atualmente meio milhão de barris diariamente ao parceiro asiático – mais da metade dessa remessa já é destinada a pagar empéstimos anteriores.
 
O acordo não está fechado. Pequim continua relutando em comprometer mais recursos com a Venezuela, em parte pela situação econômica precária do país. Conforme declarou ao Wall Street Journal a analista do Eurasia Group, Risa Grais-Targow, a China “aprendeu uma lissão com os primeiros empréstimos sem compromisso” feitos a Caracas e provavelmente não irá de novo pelo mesmo caminho. A morte do ex-presidente Hugo Chavez, que proporcionava um vínculo personalista entre Venezuela e China, também impactou a dinâmica bilateral.

Ainda assim, Pequim tem interesse em evitar o colapso venezuelano. Mesmo se o gigante asiático não conceder mais bilhões, pode dar ao parceiro sul-americano permissão para renegociar o pagamento de dívidas anteriores, o que permitiria à Venezuela vender mais petróleo em vez de enviar para a China, conforme os termos originais do financiamento. 

Ao ser questionado se a China apoia o governo venezuelano, o porta voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Hong Lei, respondeu que Pequim “entende que a queda dos preços internacionais do petróleo teve impacto na economia de alguns países, incluíndo a Venezuela”. Ele acrescentou que “ambos os lados desfrutam de mecanismos plenos e efetivos de cooperação no campo de financiamentos. Cooperação relevante entre os dois países segue tranquilamente”.

A turnê de Maduro também passará por países não definidos da OPEP, onde o presidente tentará novamente convencer seus parceiros de oligipólio a diminuir a produção para elevar o preço do óleo. Uma manobra semelhante em novembro passado não deu certo. Se novamente os pedidos de Maduro forem recusados, o destino da Venezuela estará, basiamente, nas mão da China.