COBERTURA ESPECIAL - Expansão Chinesa - Geopolítica

01 de Setembro, 2014 - 18:00 ( Brasília )

Quem vencerá a guerra entre Rússia e Ucrânia? Talvez a China

No cenário atual, a China poderá ter acesso a tecnologias sofisticadas do Leste Europeu, e ao mesmo tempo conquistar novos mercados para seus produtos de defesa

Nota DefesaNet

Importante ler a análise:

Ucrânia – O Indispensável Complexo Industrial Militar para Moscou

O editor
 

Por George Friedman - Texto do Stratfor
Tradução, adaptação e edição - Nicholle Murmel


Antes da ruptura entre China e União Soviética entre os anos 1960 e 1980, quando a inocência ainda reinava, os comunistas de Pequim e os da URSS eram melhores amigos. E como tais, compartilhavam sonhos, aspirações e muitas de suas tecnologias de armamentos. Mas à medida que o proletariado chinês se revelava mais atrasado do que seus irmãos soviéticos, praticamente toda a transferência de tecnologia era de mão única - de Moscou para Pequim.

E assim surgiu uma incrível coincidência. Durante décadas, absolutamente qualquer armamento produzido na China parecia uma versão barata de um produto soviético. Esse padrão estava tão enraizado no Exército de Libertação Popular, que as semelhanças perduraram muito depois de a União Soviética e a República Popular da China terem se afastado.

Chegamos então ao momento atual. A antes poderosa URSS se fragmentou em uma coleção heterogênea de países, enclaves, Estados vassalos e feudos. Como resultado, uma ampla rede de fábricas, know-how técnico, e cadeias de abastecimento que antes movimentavam a máquina militar do grande bloco haviam se desintegrado. Indústrias antes em simbiose agora estavam divorciadas e em países distintos. Cadeias de abastecimento inteiras, vitais para os militares de uma determinada nação, agora se encontravam em territórios completamente fora do controle dessa nação.

Em alguns casos, antigas fábricas de armamentos operavam como se quase nada houvesse mudado, exceto pela queda no volume da produção. A Rússia era, até este ano, o mercado absoluto para o qual a Ucrânia exportava seus produtos de defesa, produtos que por sua vez eram as maiores compras feitas por Moscou em termos de armamentos. Por exemplo, boa parte dos helicópteros militares russos é movida por motores fabricados pela ucraniana Motor Sich. Em contrapartida, a maior demanda por motores da Motor Sich vem dos helicópteros russos.

Mas uma vez que o conflito eclodiu entre Rússia e Ucrânia - ou, precisamente, alguns meses após a eclosão do conflito - as transações de defesa entre as duas partes foram suspensas.

Ainda que a China tenha crescido em termos de sofisticação tecnológica, muitos equipamentos e peças produzidas ainda são compatíveis com padrões da antiga URSS, e Pequim tem laços próximos com indústrias de defesa tanto na Rússia quanto na Ucrânia. Mas a ruptura entre os dois países - e o consequente colapso das últimas engrenagens da máquina industrial soviética - colocou a China em uma posição bastante favorável.

Primeiramente, tanto fabricantes de Kiev quanto de Moscou estão ávidos por alternativas que recuperem a receita perdida com o fim das relações mútuas, e procurarão o mercado chinês para escoar sua produção. Na verdade empresas russas e ucranianas poderão competir por acordos e contratos enquanto seus governos se enfrentam nos campos de batalha e na arena da política internacional. Essa competição significa que a China tem todas as vantagens como compradora, e poderá ter acesso a muito mais tecnologia e designs mais sofisticados por preços muito menores do que se esperava ser possível.

Em segundo lugar, o colapso das vias de fornecimento na Rússia e na Ucrânia abre oportunidades para que fabricantes chineses deem conta das demandas urgentes. Para compensar a falta da produção ucraniana, Moscou precisa reiniciar ou estabelecer as próprias linhas de produção. Mas o país se dará esse trabalho se puder contar com produtos equivalentes chineses?

Em terceiro, os conflitos existentes e potenciais entre a Rússia e o Ocidente aumentam o “custo político” dos armamentos russos para muitos países compradores. Já a China pode oferecer produtos de alto nível para nações que querem manter a compatibilidade com tecnologias soviéticas, e ao mesmo tempo evitar se indisporem com parceiros ocidentais. Essa posição como fornecedor pode render dividendos para o mercado chinês de armamentos especialmente em locais como a África.

O real poder militar, econômico e político da Rússia, Ucrânia e China varia fortemente entre os três. Mas os países estão melhor equiparados em termos de tecnologia militar, especialmente no campo das médias empresas de defesa, para as quais tecnologia de ponta não é vital.

Ao menos no que se refere à economia da guerra, a ruptura sino-soviética acaba de fechar um ciclo. Em vez de Rússia e Ucrânia se unirem contra a China, os dois países estão cada vez mais em guerra entre si, enquanto Pequim pode escolher os próximos n
egócios e barganhas como bem quiser.