05 de Novembro, 2015 - 16:30 ( Brasília )

Aviação

Aéreas Brasileira -- Crise sem Precedentes

Dívidas de R$ 7 Bi redução de demanda e desnacionalização o cenário das empresas aéreas brasileiras.

Nota DefesaNet

Série de 3 artigos publicados pelo O Estado de São Paulo, em 02 Novembro 2015.

O Editor

1 - Empresas reforçam o caixa e podem vender participação

 

Gol poderá ‘rearrendar’ aviões e receber aportes da Delta;
Azul não descarta vender seu programa de milhagem


Marina Gazzoni
O Estado de S.Paulo

 

O mercado financeiro colocou em xeque a capacidade financeira das empresas aéreas de voltar a dar resultado. As quatro maiores empresas latinas – Latam, Gol, Avianca e Copa – perderam US$ 13 bilhões do seu valor de mercado desde janeiro de 2014, e hoje valem 68% menos. Se a crise avançar, fusões e aquisições podem ser a saída para a sobrevivência das empresas, dizem fontes de mercado.


Por enquanto, elas estão reforçando o caixa. Em setembro, a Gol captou empréstimos de US$ 300 milhões e mais US$ 146 milhões com dois acionistas – a família Constantino e a companhia aérea americana Delta – em uma operação que elevou a fatia da Delta na Gol para 9,48%. A empresa tinha R$ 2 bilhões em caixa em junho, mas é a mais exposta ao mercado brasileiro e foi a que mais perdeu valor.
 

O Estado apurou que a Gol já estuda fazer uma operação de venda e “rearrendamento” de aviões e pode captar até US$ 400 milhões. Se a crise se agravar, a empresa poderá vender participações maiores à Delta, mas, no curto prazo, a opção está descartada pelos controladores, justamente porque o valor da empresa está depreciado. A Delta é avaliada em US$ 40 bilhões.
 

Já a Latam, dona da TAM e da LAN, tinha US$ 1,6 bilhão em caixa em junho, mas seu risco financeiro é considerado pelos analistas de mercado menor do que o da Gol. A razão é que a Latam tem mais condições de fazer caixa com voos em mercados mais rentáveis, como Chile, Peru e Colômbia, e tem acesso a mercado de capital externo.

A Azul e a Avianca não divulgam sua posição de caixa. O presidente da Azul, Antonoaldo Neves, disse que a empresa encerrou o segundo trimestre de 2015 “com o maior caixa de sua história”, formado em parte pelos US$ 100 milhões captados com a venda de 5% da Azul à United Airlines este ano. Segundo ele, a empresa tem opções para levantar capital se necessário, como a venda do seu programa de milhagem, o Tudo Azul, a fundos de private equity.

Avianca Brasil viu fracassar uma proposta para que a Avianca colombiana investisse na empresa, segundo a Bloomberg. As duas têm os mesmos controladores, os irmãos José e Germán Efromovich, mas a colombiana tem outros acionistas. José Efromovich disse que a Avianca Brasil “tem caixa para enfrentar a crise se ela não perdurar”. “Mas o caixa não é eterno.

 

 

 


2 - Rombo no setor aéreo chega a R$ 7 bi

Cenário se opõe à indústria global, que terá lucro
recorde de US$ 25 bilhões

As empresas aéreas brasileiras deverão fechar o ano com um rombo de caixa de R$ 7 bilhões, segundo a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear). Trata-se de um cenário oposto ao da indústria global, que se prepara para ter lucros recordes de US$ 25 bilhões. “Além de crise e câmbio, as empresas brasileiras sofrem porque o País não é competitivo. O combustível é um dos mais caros do mundo”, disse Peter Cerda, vice-presidente de América Latina na Associação Internacional de Transporte Aéreo.

Empresas reforçam o caixa e podem vender participação

As empresas brasileiras sofreram um choque de custos com a alta do dólar, já que 60% das suas despesas estão em moeda americana, como combustível e leasing de aeronaves. Para ter rentabilidade, elas teriam de elevar o preço da passagem, o que não vem acontecendo. O preço pago pelo quilômetro voado na Gol foi 3% menor no terceiro trimestre, segundo o banco Morgan Stanley.

As passagens áreas caíram porque o cliente corporativo, que paga tarifas maiores, está viajando menos. Os maiores clientes – o governo, as construtoras, a indústria de óleo e gás e mineração – enfrentam uma grave crise econômica. No curto prazo, as empresas aéreas tentaram substituir esses passageiros por turistas, com preços abaixo do custo do assento.

A visão das empresas é de que isso é insustentável no médio prazo e é melhor voar menos do que operar no vermelho. “A aviação brasileira vai encolher, para manter as empresas em operação”, disse o presidente da Abear, Eduardo Sanovicz.

O setor reagiu com pedidos ao governo. Sanovicz visitou quatro ministérios em outubro – Fazenda, Planejamento, Energia e na Secretaria de Aviação Civil (SAC). Entre os pedidos, está a revisão do preço do combustível. A SAC diz que está avaliando as propostas. 
 

3 - Brasil é o único da América Latina que
terá corte na oferta de voos em 2015

 

Redução da capacidade é uma reação das empresas aéreas ao
cenário macroeconômico e à disparada do dólar, que empurraram o
setor para sua pior crise em dez anos; na região, oferta de
voos terá expansão de 5% até o fim do ano

 

O Brasil é o único país latino que vai encerrar 2015 com redução na oferta de voos comerciais. Em dezembro, o País vai registrar uma queda de 3% no volume de passagens aéreas à venda no mercado, de acordo com projeções da Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata), que consideram voos domésticos e internacionais. Essa é uma reação das empresas aéreas ao pior cenário macroeconômico para o setor nos últimos dez anos. Com o dólar alto e a economia em recessão, as empresas operam no vermelho e os investidores colocam em xeque a viabilidade financeira das companhias.

O Brasil responde por cerca de um terço do tráfego aéreo da América Latina, que fechará o ano com expansão de 5% da capacidade, segundo dados dos sete maiores mercados (veja ao lado). O maior crescimento será no México (13%), seguido de Colômbia (12%) e Chile (11%).

No mercado brasileiro, o corte de oferta já começou. Em setembro, o volume de assentos oferecido caiu 1,74% em relação ao mesmo período de 2014, segundo dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Por enquanto, a redução vem das líderes TAM e Gol, enquanto as duas empresas menores, a Azul e a Avianca, apenas desaceleram um movimento de expansão.

Nos próximos meses de 2015 e 2016, a retração deve ser ainda maior. A presidente da TAM, Claudia Sender, disse que até o fim de novembro terá implementado a redução de 10% na malha doméstica, anunciado em julho. “Vamos avaliar os próximos passos conforme tivermos mais clareza especialmente sobre o patamar de câmbio. Somos parte de um grupo multinacional (a Latam, com sede no Chile) e podemos transferir capacidade para mercados mais fortes”, afirmou.

A Gol prevê corte de 2% a 4% na capacidade no segundo semestre deste ano. “Vivemos o pior cenário para aviação brasileira da história da Gol. A única alternativa gerenciável é reduzir oferta”, disse o presidente da Gol, Paulo Kakinoff, em entrevista no início do mês

O Estado apurou que a Gol deverá ampliar esse movimento no ano que vem, com redução de frota. A companhia aluga entre três e quatro aviões por ano para empresas europeias durante o verão europeu, baixa temporada no Brasil. Ano que vem o número de aviões “alugados” deve ficar entre nove e 12.

Segundo estimativas do sócio da Bain&Company, André Castellini, há um excesso de oferta nos voos nacionais entre 15% e 20%. Outras duas fontes do setor estimam que há uma necessidade de retirada de “pelo menos 10%” do volume de assentos disponíveis nos voos domésticos para que as companhias possam operar com lucro.

Mudança. O movimento de redução de oferta em um mercado competitivo gera uma queda de braço entre as empresas. “Numa rota em que há excesso de oferta, TAM, Gol e Azul, por exemplo, têm um voo diário com prejuízo. A rota poderia ser rentável se uma delas saísse. Mas quem vai sair? Isso vai beneficiar quem fica”, explica uma fonte do setor. “Mas, se ninguém quiser sair, todo mundo vai queimando caixa.”

Desde 2012, a Gol e a TAM tentam recuperar sua rentabilidade parando de ampliar a frota e abandonando algumas rotas deficitárias. A Azul e a Avianca continuaram a trazer aviões para o País – a oferta delas cresceu 125% e 180% de setembro de 2011 para o mesmo mês deste ano, período em que as duas líderes cortaram juntas quase 15% dos seus assentos.

Com a crise econômica se agravando, a Azul e a Avianca já falam em mudar de estratégia. A Azul tem frota suficiente para ampliar em 15% sua oferta de passagens aéreas nacionais em dezembro, mas está voando menos e vai aumentar sua capacidade em apenas 3,9%, explica o presidente da Azul, Antonoaldo Neves. Em 2016, a previsão é de que o impacto na oferta varie de uma redução de 3% até uma alta de 1%. “Nossos jatos poderiam voar 12 ou 13 horas por dia, mas voam 10 horas. Não é eficiente. Podemos nos desfazer de aeronaves”, disse. A empresa poderá antecipar a devolução de cerca de 15 aeronaves Embraer 190 que eram da Trip, empresa comprada por ela em 2012. Mesmo assim, ele diz que a empresa vai manter os planos de recebimentos de oito Airbus A320 no fim de 2016.

Já a Avianca deve expandir em 15% sua oferta este ano, segundo o presidente da empresa, José Efromovich. O motivo é que a companhia deu sequência ao seu plano de substituição dos seus Fokker 100, modelos com 100 assentos, por aviões Airbus 320, com 162 lugares. “Lamentavelmente esse plano nos coloca numa posição de expansão de oferta em um cenário de recessão”, disse Efromovich. A empresa não tem projeções ainda para 2016. “Estamos vivendo uma incógnita política e econômica no Brasil que é ruim para a aviação comercial.”