COBERTURA ESPECIAL - 11/Setembro - Geopolítica

17 de Agosto, 2011 - 12:07 ( Brasília )

Tunísia: o medo dos homens de barba

Depois da Revolução de Jasmim, os islâmicos ganharam terreno na Tunísia. Embora não queiram apresentar ligações oficiais com o Al Qaeda, são fontes de preocupação.

Na avenida Habib Bourguiba, em Túnis, alguns homens de barba longas e roupas amplas discutem sobre política. Um deles condena a separação entre Estado e religião como "heresia", enquanto outro esconjura a "sociedade deteriorada". Uma cena que jamais teria sido presenciada na Tunísia laica de até alguns meses atrás. O serviço secreto teria detido esses homens de imediato.

A principal via urbana no coração da capital leva o nome do primeiro presidente do país, que governou a Tunísia entre 1957 e 1987: Bourguiba, o "pai da nação". Ele defendia ideias seculares, a equiparação de direitos entre os gêneros e visava a construção de uma Tunísia moderna.
 
Uma meta ameaçada por forças islâmicas, que Bourguiba reprimia. Desde a democrática Revolução de Jasmim e a queda de Zine al Abidine Ben Ali, sucessor de Bourguiba, em 14 de janeiro de 2011, os islâmicos estão presentes de novo nas ruas, bem como na vida política.
 
"Essas pessoas me dão medo"
 
Isso não agrada a todos. Nas imediações da avenida, Cyreen Belhedi discute com seus amigos na mesa de um dos vários cafés da movimentada avenida. Ela apresenta orgulhosa sua nova bolsa de mão: "Acabei de comprar!" Homens e mulheres jovens fumam, enquanto tomam descontraidamente café, chá, sucos de fruta e, alguns, cerveja., enquanto observam com desconfiança os homens de barba.
 
"Essa gente me dá medo", diz Cyreen, de 27 anos, que foi diariamente às ruas protestar durante a Revolução de Jasmim, tendo sacrificado até mesmo seu emprego como engenheira. "Caso esses radicais islâmicos venham, algum dia, a tomar o poder aqui, isso irá significar um retrocesso enorme para nós, até mesmo se compararmos com a situação anterior à Era Bourguiba", observa Cyreen.
 
Os temores dos jovens não dizem respeito, contudo, somente aos homens de barba do outro lado da rua, mas sobretudo ao Partido Ennahda, o agrupamento islâmico mais popular no país. Proibido durante décadas, o partido agora voltou à linha de frente da vida política do país.

Visita a líder islâmico
 
O mentor espiritual e líder do Ennahda é Rashid al Ghannoushi, admirado entre os círculos muçulmanos conservadores. Ele é membro do Conselho Internacional da Irmandade Muçulmana e seus escritos são considerados uma referência do islã político em todo o mundo.
 
Rashid al Ghannoushi já era politicamente ativo nos tempos do presidente Bourguiba, tendo sido preso diversas vezes. Após 20 anos de exílio em Londres, ele retornou à terra natal pouco depois da Revolução de Jasmim.
 
A casa onde Al Ghannoushi recebe seus convidados fica em um bairro nobre na periferia de Túnis. Na porta, um segurança musculoso, de bigode e óculos escuros, fiscaliza a entrada. No jardim, estão penduradas roupas de crianças e mulheres em varais distribuídos entre as árvores de um pomar. Vários homens, visivelmente bem humorados, andam pela casa de um lado para o outro e telefonam usando celulares. Alguns jornalistas, mas também correligionários políticos, esperam para falar com o "Sheik Rashid".

Um senhor mais velho, de barba branca e lenço palestino no pescoço, relata ter passado 16 anos na prisão e outros tantos no exílio, inclusive em Freiburg, na Alemanha, por ter sido partidário de Al Ghannoushi. Ele explica sua teoria de que todas as pessoas do mundo, "no fundo, são árabes. Adão já era árabe. Por isso todo o mundo deveria se converter ao islã", conclui.
 
Rashid al Ghannoushi recebe calmamente seus convidados, vestido com um terno cinza, camisa branca e sapatos pretos de couro, e anda sobre um tapete berbere vermelho no meio de sua enorme sala de visitas. No canto, fica ligada a televisão no canal Al Jazeera. Os receios em relação a seu partido são totalmente infundados, assegura Al Ghannoushi.
 
Segundo ele, isso acontece devido ao "comércio do medo", levado a cabo pelo ex-presidente Ben Ali para eliminar adversários políticos. A meta de seu partido, continua, é "limpar a sociedade dos restos da hegemonia de Ben Ali e reconstruir um Estado livre democrático, no qual todos os cidadãos sejam tratados igualmente". E isso, ameniza Al Ghannoushi, não precisa despertar temores nem nos tunisianos nem no Ocidente.

Islamização é meta secreta?
 
O líder muçulmano faz questão de não querer ser associado à ideologia de violência da Al Qaeda. "Sempre dissemos e continuamos dizendo até hoje: as atividades da Al Qaeda não são legítimas, elas são terroristas". Ao contrário das revoluções pacíficas na Tunísia e no Egito, a Al Qaeda não teria conseguido derrubar nenhum regime.
 
"Além disso", acrescenta Al Ghannoushi, "o islã e os movimentos islâmicos são os que mais sofrem com as consequências dos atentados do 11 de Setembro". Minorias muçulmanas no Ocidente, diz ele, são mantidas desde então "de maneira geral, sob suspeita" e se encontram "permanentemente sob vigilância policial".
 
"Atos de violência trazem mais prejuízos do que vantagens", acentua também Rida Belhaj, porta-voz do também islâmico radical Partido Tahrir. O homem de baixa estatura, mas semblante marcante, com sua barba malfeita e voz baixa, concede uma entrevista em um café na Avenida Bourguiba. No entanto, ele não quer falar, "por modéstia", sobre a perseguição política sob o antigo regime.
 
Belhaj prefere falar das revoluções na Tunísia e no Egito, consideradas, de acordo com suas palavras, ainda inacabadas. Segundo ele, elas foram "passos importantes" rumo a uma "libertação de todos os muçulmanos em todo o mundo. Pois as pessoas que fizeram essas revoluções são muçulmanas", explica.
 
Ele volta o olhar voltado para a rua, onde algumas pessoas reunidas em frente ao Teatro Municipal, uma edificação do período colonial, com duas estátuas de anjos decorando a fachada, gritam: "A corrupção ainda domina todo o país".

"Propósitos por trás do 11 de Setembro eram bons"
 
Belhaj distancia-se claramente dos radicais islâmicos da Al Qaeda, ao apontar que a violência é sempre o caminho errado. No entanto, diz que os propósitos por trás do 11 de Setembro teriam sido "bons": "Embora eles tenham tido um efeito negativo, porque muitos muçulmanos, ao contrário dos ocidentais, infelizmente não dispõem do poder da mídia para convencer a opinião pública da pertinência de seus propósitos".
 
Belhaj não esconde de forma alguma seus próprios propósitos: a meta principal de seu partido é criar um Estado tunisiano que tenha o islã como fonte de todas as leis, explica ele, visivelmente entusiasmado.
 
Cyreen e seus amigos estão sentados em outro café, bem próximo, e falam, rindo, sobre quem jamais poderia viver num Estado islâmico como esse. "Todos os tunisianos que gostam de tomar uma cervejinha à noite nos bares", proclama um. E também "as mulheres que gostam de nadar de biquíni e todos os homens que observam as mulheres nadando de biquíni".
 
Ou seja, acrescenta outro membro da roda no café, "uma sólida maioria". É quando Cyreen fica de repente muito séria: "Se apesar de tudo os islâmicos tomarem o poder aqui, teríamos todos que emigrar e teríamos feito nossa revolução completamente em vão", conclui.

 
Autor: Khalid El Kaoutit (sv)
Revisão: Roselaine Wandscheer


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