COBERTURA ESPECIAL - Venezuela - Terrestre

10 de Setembro, 2021 - 11:00 ( Brasília )

Gen Ex Stumpf - "É importante que se discuta essa tragédia humanitária (Venezuela)"




Gen Ex  Stumpf - "É importante que se discuta essa tragédia humanitária"
 VAIÉRIO STUMPF TRINDADE
General-do-Exército e comandante do Comando Militar do Sut (CMS)

 


 

RODRIGO LOPES
Zero Hora
rodrigo.lopes@zerohora.com.br
10 setembro 2021


Desde janeiro de 2017, cerca de 630 mil migrantes venezuelanos entraram no Brasil por Roraima e pelo Amazonas, fugindo da crise no pais vizinho. Desses, 21% retornaram, 37% seguiram para outros países e 42% ficaram no país, resultando em um saldo migratório de 270 mil pessoas. O atual contingente militar da Operação Acolhida, que está em Pacaraima (RR) para apoio aos migrantes, é composto por tropas do Comando Militar do Sul (CMS).

Em entrevista a coluna, o general Valério Stumpf Trindade, comandante do CMS, que esteve recentemente na região, avalia o trabalho do efetivo, comenta o fluxo migratório atual e analisa os impactos da pandemia de Covid-19 na chegada e na interiorização dos migrantes.

Que avaliação° senhor faz da Operação Acolhida?

A Operação Acolhida é uma ação multidisciplinar, coordenada pela Casa Civil, com participação de ONGs, reconhecida internacionalmente como exemplo no enfrentamento de crises migratórias. Cabe a nós, Exército Brasileiro, garantir que ela aconteça. Nossa atuação ocorre em três eixos: ordenamento da fronteira, abrigamento e interiorização. Em ordenamento e abrigamento, alojamos e alimentamos 10 mil venezuelanos diariamente. Eles recebem atendimento médico) e vacinação.

Além disso, é fornecida a documentação para a obtenção de empregos. O eixo critico é a interiorização. Antes da pandemia, era possível interiorizar até 3 mil venezuelanos por mês. Agora, esse número caiu em mais de 50%, resultando em grande sobrecarga e maior tempo de permanência em Roraima. A população do Estado saltou de cerca de 520 mil, em 2017, para 650 mil.

A interiorização não é tarefa simples, especialmente se levarmos em conta nossos índices de desemprego. Para ser interiorizado, o migrante precisa ser selecionado para emprego, ser recebido por sua família ou amigos já interiorizados, ou por uma instituição filantrópica. Caso contrário, permanecerá abrigado em Roraima, situação em que muitos estão há um bom tempo. Desde o início da operação, essa é a quinta vez que visito Roraima. Apesar do intenso trabalho realizado, infelizmente a percepção é de que a situação não está melhorando.


A frequência de chegada de migrantes diminuiu em relação aos primeiros meses?

Dados oficiais da operação mostram que entram em tomo de 600 venezuelanos por dia, por meio dos postos montados em Pacaraima, Boa Vista e Manaus. O afluxo persiste, resultado da continuada crise no pais vizinha O ritmo da interiorização no Brasil diminuiu em face da pandemia, havendo, portanto, aumento da população de abrigadas em Roraima.

Qual o diferencial do trabalho do atual contingente, composto por militares do CMS?

Estive mês passado visitando as tropas. São mais de 500 homens e mulheres que se deslocaram para Boa Vista e Pacarairna, por um período de quatro meses, para contribuir no acolhimento de nossos vizinhos venezuelanos. Cada tropa que passa pela Operação Acolhida deixa a sua marca E o comprometimento com a missão é a marca do CMS.

No CMS militares realizaram trabalhos importantes, como a reconstrução das estruturas do posto de interiorização e triagem de Manaus, destruído por uma enchente, construção de mais dois abrigos com 1,8 mil vagas e ampliação do posto de recepção e apoio de imigrantes. Realizamos mais de 25 mil atendimentos de saúde.

Focamos na interiorização, buscando índices pré-pandemia, saindo da média de 1,3 mil interiorizações por mês para 2,5 mil, atingindo a marca de mais de 59 mil interiorizações no total. Isso sem falar que o 11° contingente retomou as atividades de ordenamento da fronteira, que estavam paralisadas em virtude do fechamento da fronteira. Os militares do CMS deram estabilidade aos processos da Força-Tarefa Logística Humanitária, atuando em sinergia com os demais órgãos.



Por mais quanto tempo a operação deve continuar?

Depende muito da situação político-econômica da Venezuela. É importante que se discuta essa tragédia humanitária. Conhecer o problema é parte da solução. A Venezuela, desde 2013, perdeu mais de 75% de seu PIB. De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), mais de 5,4 milhões de habitantes deixaram o pais, quase um em cada seis. E o pais que mais perdeu população nos últimos cinco anos, e vivencia a maior crise migratória da história das Américas, superando inclusive a Síria em guerra civil.

A nação, infelizmente, está se transformando, a passos largos, em um Estado fracassada E uma situação que precisa ser revertida. A crise venezuelana impacta também a situação energética brasileira Grande parte da energia de Roraima era fornecida pela usina hidrelétrica de Guri, na Venezuela, que desde março de 2019 suspendeu o abastecimento. Desde então, o provimento é feito por termelétricas que consomem de 700 mil a 1,1 milhão de litros de diesel por dia. Quando visitamos os abrigos, a situação daquelas pessoas impacta a todos nós. Não há como não nos sensibilizarmos com o sorriso das crianças, com as pessoas doentes e idosas, suas perspectivas de futuro, todas precisando de ajuda.



General Stumpf fala com imigrantes venezuelanos - Foto CMS



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Em visita às instalações da Operação Acolhida, em Pacaraima RR - Foto CMS







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reunião com o staff da Operação acolhida - Foto CMS


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