Skunk Works e XTEND: autonomia escalonável e o futuro do Comando e Controle de Drones em Operações Multidomínio

Por Ricardo Fan – DefesaNet

A parceria firmada entre a Lockheed Martin Skunk Works e a empresa israelense XTEND para integrar o sistema operacional XOS à plataforma de autonomia MDCX representa um movimento relevante na evolução do emprego militar de sistemas não tripulados.

Mais do que uma simples integração tecnológica, a iniciativa sinaliza uma mudança conceitual na forma como forças armadas poderão conduzir operações com múltiplas classes de drones, sob um modelo de comando e controle (C2) mais enxuto, resiliente e centrado na cooperação homem–máquina.

No contexto atual, marcado pela proliferação de drones de diferentes portes e funções, um dos principais desafios operacionais é a complexidade do controle simultâneo desses sistemas. Em doutrinas tradicionais, cada vetor costuma demandar um operador dedicado ou, no mínimo, a transferência de controle entre operadores para tarefas específicas, como navegação, vigilância ou emprego de sensores em visão em primeira pessoa (FPV). Essa fragmentação aumenta a carga cognitiva, amplia a demanda por pessoal especializado e introduz atrasos críticos no ciclo de decisão.

Militares ucranianos operam drones FPV a partir de um posto improvisado, evidenciando o uso intensivo de tecnologia e guerra em rede no campo de batalha moderno.

A integração do XOS à MDCX busca justamente romper esse paradigma. A demonstração divulgada pelas empresas, na qual uma aeronave não tripulada de maior porte lança um drone Classe 1 para uma missão de curto alcance sem a necessidade de um segundo operador, ilustra um conceito de “autonomia orquestrada”.

Nesse modelo, o operador atua como gestor da missão, enquanto o sistema assume tarefas de baixo nível, mantendo a coerência tática e a continuidade do controle. A eliminação da transferência de comando para funções específicas não apenas reduz fricções operacionais, como preserva a consciência situacional em um único ponto de decisão.

Do ponto de vista doutrinário, essa abordagem dialoga diretamente com as exigências das operações multidomínio (MDO). Em cenários saturados, onde vetores aéreos, terrestres e, potencialmente, navais operam de forma integrada, a capacidade de um único operador coordenar diferentes classes de drones amplia a flexibilidade e a velocidade de resposta da força.

Isso é particularmente relevante em missões de reconhecimento avançado, escolta, designação de alvos ou apoio a forças terrestres, nas quais o tempo entre a detecção e a ação é decisivo.

Outro aspecto estratégico da solução é a ênfase na resiliência. O XOS foi concebido para operar em ambientes degradados, com restrições de GPS e sob interferência de radiofrequência — condições cada vez mais comuns em conflitos de alta intensidade.

Essa característica reflete lições recentes observadas em teatros de operações contemporâneos, nos quais a guerra eletrônica e a negação do espectro eletromagnético se tornaram elementos centrais. A capacidade de manter o controle e a eficácia dos sistemas não tripulados nessas circunstâncias é um diferencial operacional significativo.

A promessa de reduzir a dependência de operadores altamente especializados também merece atenção. Ao permitir que profissionais menos experientes atinjam rapidamente um nível de desempenho próximo ao de especialistas, a integração XOS–MDCX pode impactar diretamente os modelos de formação, treinamento e retenção de pessoal. Em forças armadas que enfrentam restrições orçamentárias ou desafios de efetivo, essa característica pode se traduzir em ganhos concretos de prontidão e sustentabilidade.

Em termos mais amplos, a iniciativa da Skunk Works e da XTEND reforça uma tendência já visível no setor de defesa: a transição de plataformas isoladas para ecossistemas de autonomia integrados.

O foco deixa de ser apenas o desempenho individual de cada drone e passa a ser a capacidade do sistema como um todo — incluindo software, interfaces homem–máquina e integração com estruturas de C2 existentes.

Em síntese, a parceria não deve ser vista apenas como um avanço incremental em controle de drones, mas como um indicativo de como o emprego de sistemas não tripulados pode evoluir nos próximos anos.

A combinação de autonomia escalonável, redução de carga humana e operação resiliente em ambientes contestados aponta para um futuro em que a superioridade informacional e a velocidade de decisão serão tão determinantes quanto a performance cinética dos vetores empregados. Para forças que buscam manter relevância em cenários de alta complexidade, soluções como a XOS–MDCX tendem a se tornar não apenas desejáveis, mas essenciais.

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