Por Ricardo Fan
A China voltou a demonstrar avanços significativos no emprego militar de sistemas não tripulados ao divulgar testes bem-sucedidos de uma tática de enxame envolvendo mais de 200 drones, todos controlados por um único operador humano.
A demonstração, exibida pela emissora estatal CCTV, foi conduzida pela Universidade Nacional de Tecnologia de Defesa (NUDT), instituição diretamente vinculada ao Exército de Libertação Popular (ELP).
O experimento evidencia a rápida evolução chinesa no domínio da chamada guerra de enxames (swarm warfare), conceito que vem ganhando centralidade nos debates doutrinários das grandes potências militares.
Diferentemente do emprego tradicional de drones operados individualmente, a abordagem apresentada pela China se baseia em inteligência artificial, enlaces de dados avançados e alto grau de autonomia distribuída.
Arquitetura do enxame e papel da inteligência artificial
Segundo as informações divulgadas, o sistema permite o lançamento rápido e coordenado de centenas de drones, que passam a operar em formações dinâmicas e adaptativas. Cada unidade é equipada com algoritmos inteligentes capazes de tomar decisões locais, comunicar-se com outros drones do enxame e negociar funções em tempo real, sem a necessidade de controle direto e constante do operador humano.
O material exibido pela CCTV mostrou pesquisadores acompanhando, em telas de monitoramento, o desempenho coletivo do enxame. Os drones demonstraram capacidade de alternar automaticamente entre diferentes papéis operacionais — como reconhecimento, distração, saturação de defesas e ataque — de acordo com as exigências da missão e o ambiente tático.
De acordo com Xiang Xiaojia, pesquisador da NUDT, cada drone atua como um “agente inteligente”, apto a cooperar com os demais para formar um sistema altamente coordenado. Essa lógica de funcionamento reduz a vulnerabilidade do conjunto, uma vez que a perda de unidades individuais não compromete a missão como um todo.
Implicações militares e doutrinárias
A possibilidade de um único soldado comandar simultaneamente mais de 200 drones representa um salto relevante em termos de economia de pessoal, escalabilidade operacional e saturação do campo de batalha. Em cenários de conflito de alta intensidade, enxames desse tipo podem ser empregados para sobrecarregar sistemas de defesa aérea, neutralizar sensores inimigos, realizar reconhecimento persistente e conduzir ataques coordenados contra múltiplos alvos.
Sob a ótica estratégica, o avanço reforça a aposta chinesa em sistemas assimétricos, relativamente baratos e de fácil reposição, como forma de contrabalançar forças militares tecnologicamente avançadas, em especial as dos Estados Unidos e de seus aliados. A integração de inteligência artificial, autonomia decisória e operações em rede está alinhada à doutrina chinesa de guerra informatizada e, mais recentemente, ao conceito de guerra inteligente.
Desafios para as defesas convencionais
O desenvolvimento de enxames autônomos impõe desafios crescentes às arquiteturas tradicionais de defesa. Sistemas concebidos para engajar alvos individuais podem se mostrar ineficazes diante de ataques massivos, distribuídos e cooperativos. Como resposta, observa-se um esforço global no desenvolvimento de capacidades de guerra eletrônica, armas de energia dirigida, sistemas antidrone baseados em IA e novas doutrinas de defesa em camadas.
Ainda que a demonstração chinesa tenha caráter experimental, ela sinaliza que o emprego operacional de enxames de drones em larga escala pode estar mais próximo do que se estimava. O episódio reforça a percepção de que a dronização do campo de batalha, impulsionada pela inteligência artificial, será um dos vetores centrais da transformação militar nas próximas décadas.
Fonte: South China Morning Post




















