COBERTURA ESPECIAL - US RU OTAN - Geopolítica

28 de Janeiro, 2022 - 16:40 ( Brasília )

MSIa - Blinken-Lavrov: diálogo de surdos?


Blinken-Lavrov: diálogo de surdos?


Elisabeth Hellenbroich
de Wiesbaden Alemanha Federal
Resenha Estratégica MSIa


Em 21 de janeiro, ocorreu em Genebra uma discussão de 90 minutos entre o secretário de Estado dos EUA, Anthony Blinken, e o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, com o objetivo de trocar opiniões sobre a possibilidade de resolver a crise em torno da Ucrânia e encontrar uma resposta à demanda da Rússia por um garantia de segurança abrangente. Todavia, um olhar mais atento às entrevistas coletivas de ambos deixa a impressão de terem travado um diálogo de surdos, mesmo reafirmando, pelo menos formalmente, a intenção de que o diálogo entre as duas superpotências não seja interrompido.

Em sua entrevista, Blinken reiterou várias vezes a ameaça que o governo dos EUA continua a fomentar: que a Rússia é percebida pelos EUA e pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) como a “agressora” e enfrentará sérias consequências se invadir a Ucrânia. Segundo ele: “Transmiti a posição dos Estados Unidos e de nossos aliados e parceiros europeus, de que estamos firmemente com a Ucrânia em apoio à sua soberania e integridade territorial. Temos sido claros. Se alguma força militar russa atravessar a fronteira da Ucrânia, isto é uma invasão renovada. Será recebida com uma resposta rápida, severa e unida dos Estados Unidos e de nossos parceiros e aliados.”

Ao mesmo tempo, Blinken ressaltou que essa “é a escolha que a Rússia enfrenta agora. Pode escolher o caminho da diplomacia, que pode levar à paz e segurança, ou o caminho que levará apenas ao conflito, consequências graves e condenação internacional. Os Estados Unidos e nossos aliados e parceiros na Europa estão prontos para enfrentar a Rússia em qualquer caminho e continuaremos com a Ucrânia”.

Da mesma forma, Blinken afirmou várias vezes que os EUA farão de tudo para “apoiar” as forças militares da Ucrânia e que trabalham em estreita colaboração com os aliados para planejar o “reforço da OTAN”. Ele mencionou que os EUA entregaram armas no valor de US$ 650 milhões à Ucrânia e estão comprometidos em fazer mais – atitude totalmente contrária aos princípios declarados, por exemplo, no ato de fundação do Conselho OTAN-Rússia, em 1997. Portanto, a mensagem que Blinken e o governo dos EUA tentam enviar é extremamente perigosa. Embora, formalmente, Blinken tenha seguido dizendo que a Rússia receberia uma “resposta por escrito ao seu pedido de uma ordem de segurança reforçada”, ele parecia não demonstrar nenhum interesse em responder às preocupações declaradas dos russos [a resposta formal dos EUA foi entregue em 26 de janeiro, e será objeto de análise na próxima edição desta Resenha – n.e.].

Por sua vez, em uma coletiva de imprensa separada, Lavrov, foi muito inflexível quando um jornalista da BBC lhe perguntou até que ponto a Rússia considerava a Ucrânia “como parte da sua própria esfera de influência”.

Lavrov respondeu: “Não temos nenhuma reivindicação sobre esferas de influência, mas o que a OTAN faz em relação à Ucrânia mostra claramente que a OTAN considera a Ucrânia como sua esfera de influência.” Ao ser questionado sobre os acordos de Helsinki da década de 1970 e a oferta de um tratado de segurança europeu em 2009, que não foi adiante (após a cúpula de Bucareste, em 2008, quando a OTAN se absteve de estabelecer uma data fixa para a adesão da Ucrânia e da Geórgia à aliança), ele respondeu: “A nossa experiência de trabalhar com os nossos colegas ocidentais em questões de segurança europeia mostra muitos exemplos de promessas feitas e não cumpridas. Já citei as palavras ditas pelo então presidente dos EUA, Gerald Ford, imediatamente após a assinatura do Ato Final de Helsinki, em 1975. Comemorando a ocasião, ele disse: ‘A História julgará esta conferência, não pelo que dizemos aqui hoje, mas pelo que faremos amanhã - não pelas promessas que fizemos, mas pelas promessas que cumprimos.’ Os nossos colegas estadunidenses e da Europa Ocidental e membros da OTAN, não são muito bons nisso. Hoje, ouvimos alguns dos mesmos argumentos sobre a liberdade de escolha de alianças e sindicatos militares. Citamos alguns documentos em que essa liberdade era definida pela necessidade de evitar quaisquer medidas que pudessem fortalecer a segurança de um Estado em detrimento de outro. Pedimos a Anthony Blinken e sua equipe que explicassem como interpretam essa parte do compromisso que a OSCE [Organização para Segurança e Cooperação na Europa] adotou no nível político e afirma repetidamente. Esta foi uma reunião provisória. O secretário de Estado dos EUA, Anthony Blinken, disse estar satisfeito com a troca de pontos de vista, o que os ajudaria - isto foi enfatizado várias vezes - a nos apresentar uma resposta por escrito, na próxima semana.”

Em resposta a uma pergunta sobre como o Ministério das Relações Exteriores russo responderia ao que o Departamento de Estado reuniu em um comunicado para a reunião de Genebra, e até que ponto o aumento do fornecimento de armas para a Ucrânia dos EUA e do Reino Unido poderia afetar as negociações, Lavrov respondeu:

 

Os papéis que o Departamento de Estado preparou especialmente para a reunião de hoje são ilegíveis. Temos uma unidade especial chefiada pelo funcionário do Ministério que deve estudar tudo isso. A resposta já foi dada. Acho que não são necessários mais comentários. Basta examiná-los, abri-los em qualquer página e perceber que nada nele resiste ao escrutínio crítico. Na maioria dos casos, são puras mentiras.

(…) Em relação às ameaças, discutimos a Ucrânia. Os nossos colegas dos EUA, mais uma vez, quiseram dar prioridade máxima às questões na fronteira Rússia-Ucrânia. Eles tentaram fazer tudo depender da necessidade de uma ‘desescalada’. Isto já se tornou um mantra... Não excluímos que toda essa histeria provocada pelos nossos colegas ocidentais se destina, pelo menos, a distrair a determinação do regime de Kiev de sabotar totalmente os acordos de Minsk, se não provocar a Ucrânia a realizar algumas ações militares no Donbass... Nós respondemos a todas as perguntas feitas. Os nossos colegas ocidentais admitem que estamos em território russo, no entanto, nós ‘reunimos tropas demais’. Ao passo que, ao mesmo tempo, eles dizem que o que quer que os EUA façam com suas tropas na Europa, isto não é da nossa conta. Antony Blinken e eu falamos francamente sobre isso. Ele concordou que o diálogo deveria ser mais substantivo. Espero que as cabeças mais frias prevaleçam, embora não haja garantias.


Ao final, Lavrov falou sobre as preocupações da Rússia de que “armas e centenas de instrutores militares dos EUA estão inundando a Ucrânia e a União Europeia não quer ficar para trás”. Ele sublinhou que havia dito a Blinken que os EUA deveriam exercer a sua influência sobre Kiev para aprovar os acordos de Minsk, qualificando a discussão em Genebra como “construtiva”.


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