COBERTURA ESPECIAL - Especial Terror - Inteligência

02 de Novembro, 2020 - 14:19 ( Brasília )

Woloszyn - Possíveis Efeitos das Ações Psicológicas na Sociedade



OS ATAQUES NA FRANÇA
 

André Luís Woloszyn
Analista de Assuntos Estratégicos
                                          alwi.war@gmail.com

 
Os ataques ocorridos em cidades francesas ao longo da última semana não são uma surpresa para as autoridades daquele país. Estes têm consciência de que a violência é um dos efeitos colaterais de uma política tradicional de acolhimento a grupos islâmicos em seu território e das condições sociais em que vivem.

Obviamente que a grande maioria da comunidade islâmica não é extremista, mas basta um pequeno número destes para acarretar em grandes estragos e causar tensão e medo na população.

Combater o extremismo religioso vem mostrando-se uma medida improdutiva a décadas, desde os atentados do 11 de Setembro. O próprio Departamento de Estado norte-americano admitiu recentemente esta condição com base em suas experiências no Iraque e Afeganistão, protagonista de uma longa guerra assimétrica de poucos resultados práticos e que não teria um fim, caso não tivessem se retirado. Para cada extremista neutralizado pelas forças militares ou policiais, outros surgem na defesa do que acreditam, com o mesmo ímpeto e em prazos relativamente curtos num ciclo interminável que se retroalimenta.

Sendo assim, se pode considerá-los como uma ameaça latente a espera de um ato ou episódio em que possam liberar toda a sua violência acumulada, caso das charges do profeta Maomé, exibidas em uma sala de aula na França, dando início a esta última série de ataques. Todo o extremista, quaisquer que sejam suas motivações é um indivíduo potencialmente perigoso, face a impossibilidade de mudar sua percepção de mundo.

Tratando-se de religião, o problema recrudesce, pois, ele possui uma fé exacerbada, acredita em suas convicções e atitudes de tal maneira que está disposto a dar sua própria vida, o que conhecemos como terrorismo suicida. E a ideologia, fortemente internalizada, de que é um defensor de sua crença, um guerreiro de Deus, dá maior relevância a suas ações, auxiliado pelo sensacionalismo dos meios de comunicação.

A condição de considerar pessoas de outros credos como infiéis, desumanizando-as, facilita este trabalho e afasta qualquer sentimento de culpa. Outro sério problema enfrentado pelos franceses e por outros países são os programas de aculturação para imigrantes e refugiados nestas condições. Na visão destes últimos, estão sendo submetidos a uma ocidentalização forçada. Na realidade, tais medidas governamentais são questões complexas pois acarretam um choque entre culturas, credos e valores que apresentam poucos pontos de interseção.

Pelos argumentos expostos acima e diante da sequência de fatos desde o ano de 2015, com o episódio do atentado a Revista Charlie Hebdo, considero impossível prevenir ataques de tal natureza, mesmo que se estabeleça um estado policial no país, o que em efeito contrário, provavelmente trará novas e maiores motivações a seus perpetuadores.

Talvez, se fosse considerado um crime comum, quando não vitimar um grupo de pessoas e com menor atenção da mídia, pudesse arrefecer o ímpeto dos extremistas, que já não teriam a atenção sobre suas ações. 

Contudo, enquanto não há uma solução definitiva, o principal ponto desta conjuntura é: Quando, em que local e com que intensidade ocorrerá o próximo ataque. Uma realidade lamentável quando não catastrófica.

Nota do Editor - No mesmo momento da publicação desta matéria ocorria os atentados em Viena, Austria.


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