Por Ricardo Fan – DefesaNet
A decisão da Dinamarca de adquirir oito veículos terrestres não tripulados (UGV – Unmanned Ground Vehicles) para testes operacionais a partir de janeiro de 2026 representa mais um indicativo claro de como as forças terrestres europeias vêm ajustando suas doutrinas, estruturas e prioridades à luz das transformações recentes do campo de batalha.
Assim como ocorreu com os sistemas aéreos não tripulados, os UGV deixam de ser vistos apenas como curiosidades tecnológicas e passam a integrar, ainda que em caráter experimental, o núcleo das discussões sobre modernização militar.
Experimentação antes da escala
O programa dinamarquês tem uma característica relevante: não se trata de uma compra em massa, mas de uma fase deliberadamente experimental. Os oito veículos, fornecidos pelas empresas Milrem Robotics e XRC Robotics, serão empregados pelo Exército Dinamarquês com o objetivo de coletar dados reais sobre desempenho técnico, utilidade tática, limitações operacionais e integração com unidades convencionais.
Essa abordagem reflete uma tendência cada vez mais comum entre forças armadas ocidentais: testar intensivamente sistemas não tripulados em ambientes realistas antes de assumir compromissos financeiros e doutrinários de longo prazo.
O foco declarado é compreender como esses meios se comportam sob condições operacionais variadas, incluindo terreno, clima, interferência eletromagnética e pressão do combate.
Plataformas complementares, missões distintas
Entre os modelos selecionados estão dois conceitos claramente complementares. A plataforma pesada THeMIS, com peso aproximado de 1.600 quilos e capacidade de carga de até 1.200 quilos, foi concebida para missões de apoio logístico, transporte de suprimentos, evacuação e, potencialmente, para o emprego de armamento leve em fases futuras do programa.
Já o mini-UGV MFP-1, muito mais leve e portátil, atende a uma lógica distinta: mobilidade, discrição e rapidez. Seu emprego principal será em missões de observação, vigilância e reconhecimento (ISR), sobretudo em áreas de alto risco, onde a exposição de tropas humanas representa custos operacionais e políticos elevados.
Essa combinação revela uma compreensão madura de que não existe um “UGV universal”, mas sim famílias de sistemas adaptadas a funções específicas dentro do espectro das operações terrestres.

Ucrânia como laboratório involuntário
Não é coincidência que as autoridades dinamarquesas mencionem explicitamente as lições aprendidas na guerra da Ucrânia como fator central na concepção dos testes. O conflito tornou-se, na prática, um laboratório involuntário de emprego de sistemas não tripulados em larga escala, incluindo UGV utilizados para reabastecimento de posições avançadas, evacuação de feridos e reconhecimento sob fogo inimigo.
A principal lição extraída é clara: em ambientes saturados por sensores, drones e fogos de precisão, a redução da exposição humana tornou-se uma variável crítica.
Veículos terrestres não tripulados, mesmo com limitações, oferecem uma alternativa viável para missões de alto risco, especialmente quando a perda do sistema é aceitável do ponto de vista militar.

Implicações doutrinárias e desafios
Apesar do entusiasmo crescente, o programa dinamarquês também evidencia prudência. A fase experimental busca identificar não apenas as vantagens, mas também as fragilidades desses sistemas: vulnerabilidade a interferências eletrônicas, limitações de autonomia, dependência de enlaces de dados e dificuldades de emprego em terrenos complexos.
Do ponto de vista doutrinário, a introdução de UGVs impõe desafios relevantes. Questões como comando e controle, integração com unidades mecanizadas e de infantaria, logística de manutenção e treinamento de operadores ainda carecem de respostas consolidadas.
Um sinal claro de mudança
A iniciativa da Dinamarca, embora modesta em números, é significativa em termos estratégicos. Ela sinaliza que os veículos terrestres não tripulados estão deixando o campo experimental para ingressar, de forma progressiva e cautelosa, no planejamento real das forças terrestres.
Assim como ocorreu com os drones aéreos há pouco mais de uma década, a experimentação atual tende a moldar decisões futuras de aquisição, doutrina e organização. Para países atentos à evolução do combate moderno, a mensagem é inequívoca: ignorar os UGVs hoje é aceitar uma defasagem operacional amanhã.
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