Dronização do Campo de Batalha: Polônia acelera defesa antidrones e consolida a nova fronteira tecnológica da guerra terrestre

Estratégia, contexto e futuro da defesa aérea na fronteira oriental. Polônia assina sistema antidrones ‘mais moderno da Europa’

Por Redação Defesanet – Análise Estratégica

A Polônia concluiu no final de janeiro de 2026 a assinatura de um contrato para equipar suas forças armadas com um sistema antidrones integrado considerado “o mais moderno da Europa”, segundo declaração do primeiro-ministro Donald Tusk no ato da assinatura. A iniciativa — parte de um programa mais amplo de reforço militar conhecido como Eastern Shield — busca reforçar a proteção da fronteira oriental do país, que também é o limite leste da OTAN e da União Europeia, em meio a tensões persistentes com a Rússia.

O contexto geopolítico: fronteira, OTAN e incursões aéreas

A iniciativa polonesa acontece em um momento em que desafios de segurança na Europa Central e Oriental estão em evidência. Em setembro de 2025, mais de vinte drones russos cruzaram o espaço aéreo polonês, representando uma das violações mais significativas do território de um país membro da OTAN desde o início da guerra na Ucrânia.

Esse evento acelerou debates sobre defesas aéreas e foi um dos fatores que motivaram a necessidade de uma solução antidrones mais eficaz do que os recursos tradicionais de defesa aérea disponíveis na região.

A Polônia, ciente do papel estratégico que sua posição geográfica desempenha para a defesa coletiva do flanco oriental da OTAN, tem ampliado sistematicamente seus investimentos em defesa desde 2024, com o projeto Eastern Shield (Tarcza Wschód) — um programa de fortificação das fronteiras que combina vigilância, infraestrutura, barreiras físicas e agora sistemas tecnológicos avançados como o antidrones SAN.

O sistema SAN: arquitetura e capacidades

O sistema antidrones — denominado SAN (System Antydronowy SAN) — é a peça central dessa atualização tecnológica das defesas polonesas.

Arquitetura integrada

O SAN é concebido como uma arquitetura multicamada e móvel, com foco específico no combate a veículos aéreos não tripulados (UAVs) de diferentes perfis e tamanhos. Detalhes divulgados indicam:

  • 18 baterias antidrones distribuídas ao longo do flanco oriental.
  • 52 pelotões de tiro e 18 pelotões de comando.
  • Cerca de 703 veículos de apoio e lançamento para mobilidade e sustentação operacional.
  • Cada módulo possui sensores, elementos de comando e sistemas de neutralização em campo.
  • Integração com os sistemas de defesa aérea existentes (como Wisła, Narew e Pilica+) de forma a criar um espectro de defesa escalonado e resiliente.

Capacidades técnicas principais

A análise das informações disponíveis aponta que o SAN trabalhará com:

  • Sensoriamento 360°: radar de baixa assinatura e sensores eletro-ópticos para detecção precoce.
  • Classificação e rastreamento automático: componente de comando e controle capaz de distinguir entre ameaças reais e falsos positivos.
  • Neutralização cinética e não cinética: combinação de armas de curto alcance, incluindo canhões automáticos, armas remotas e sistemas de interferência eletrônica (warfare), para neutralizar drones antes de infringirem o espaço controlado.
  • Mobilidade e dispersão: plataformas montadas em veículos para evitar vulnerabilidade a ataques e permitir cobertura rápida em diferentes setores

Justificativas operacionais e motivação estratégica

a) A experiência das incursões de drones

Os eventos de setembro de 2025 — com drones cruzando o espaço aéreo da Polônia e de outros países europeus — expuseram a insuficiência das defesas convencionais (por exemplo, interceptação por aeronaves tripuladas ou mísseis de médio/alto alcance) contra plataformas de baixo custo e pequenas dimensões. Os sistemas tradicionais tendem a ser dispendiosos e lentos para reagir em cenários de múltiplas ameaças de baixa altitude e pequena assinatura radar.

b) Assimetria de custos e saturação

Combatentes não tripulados apresentam uma relação custo-benefício que favorece o atacante. Uma onda de UAVs coordenados pode saturar defesas estáticas, consumir interceptadores caros e reduzir drasticamente a eficácia de sistemas de defesa aérea obsoletos. A adoção de soluções antidrones como o SAN é, portanto, também uma decisão econômica de defesa: menor custo por engajamento e maior capacidade de resposta simultânea a múltiplas ameaças.

c) Integração com a postura da OTAN

A Polônia não atua isoladamente. Desde a incursão de 2025, a OTAN colocou em prática a Operação Eastern Sentry, um reforço multinacional de forças aéreas e terrestres no flanco oriental para interceptar ameaças e melhorar a prontidão coletiva. A defesa antidrones SAN complementa esse esforço ao preencher uma lacuna específica de capacidade: resposta automatizada e contínua a UAS avançados em níveis táticos e operacionais.

Financiamento, indústria e parcerias

O projeto SAN representa um compromisso financeiro significativo para a Polônia, com estimativas variando de cerca de 15 bilhões de zlotys (~€3,4–3,8 bilhões) para sua implementação completa, além de financiamento parcial esperado do programa europeu SAFE, voltado ao fortalecimento de capacidades de defesa na UE.

O consórcio responsável pelo SAN é liderado por empresas polonesas com participação de parceiros internacionais, notadamente a norueguesa Kongsberg Defence & Aerospace, combinando expertise local com tecnologia estrangeira avançada. Este modelo de cooperação não apenas aumenta a capacidade industrial do país, como também fortalece laços tecnológicos e estratégicos dentro da OTAN.

Implicações geoestratégicas

a) Redefinição da defesa do flanco leste

O SAN não é apenas um conjunto de equipamentos, mas um elemento de dissuasão funcional. Posicionado ao longo da fronteira com a Rússia e a Bielorrússia, ele representa uma barreira ativo-reativa que atua tanto na detecção quanto na neutralização de ameaças antes que possam impactar território ou infraestruturas críticas.

b) Efeito multiplicador para aliados europeus

O modelo polonês está alinhado com iniciativas como o “drone wall” discutido em nível da União Europeia para criar uma rede integrada de defesa aérea contra UAVs em toda a fronteira oriental da OTAN e UE. A implementação de SAN pode servir de referência para sistemas semelhantes em países bálticos e outros membros preocupados com a integridade territorial frente a incursões não convencionais.

Um novo paradigma de defesa coletiva

A assinatura do contrato para o desenvolvimento do sistema antidrones SAN é um marco na evolução da defesa aérea europeia. Ele reflete uma compreensão operacional clara: os desafios contemporâneos incluem ameaças assimétricas que demandam soluções integradas, automáticas e adaptáveis.

O investimento polonês não apenas aumenta a resiliência do país, como também fortalece a arquitetura de defesa coletiva da OTAN no flanco leste — transformando uma vulnerabilidade exposta em setembro de 2025 em uma capacidade estratégica permanente.

Se implementado conforme planejado, o SAN pode se tornar não apenas um componente essencial da defesa polonesa, mas um padrão europeu de proteção contra ameaças do espectro aéreo não tripulado.

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