A dronização do campo de batalha: implicações estratégicas, operacionais e doutrinárias

por Ricardo Fan, DefesaNet

Introdução

Este artigo dialoga diretamente com uma trajetória analítica construída ao longo de mais de uma década. O interesse pelo conceito de dronização do campo de batalha emergiu, inicialmente, a partir de pesquisas realizadas sobre o sequestro eletrônico do drone furtivo norte-americano RQ-170 Sentinel pelo Irã, em 2011 — episódio amplamente debatido e que motivou artigos publicados no DefesaNet à época.

Ao investigar como um sistema avançado pôde ser neutralizado e capturado por meios de guerra eletrônica, tornou-se evidente que o fenômeno em curso não se limitava à perda de uma plataforma, mas apontava para uma transformação mais profunda na forma de conduzir a guerra moderna.

A disseminação acelerada de veículos não tripulados — aéreos, terrestres e navais — vem promovendo uma transformação estrutural na condução das operações militares contemporâneas. No debate estratégico europeu, em especial no pensamento militar francês, consolidou-se o conceito de dronização do campo de batalha, entendido como o emprego massivo, integrado e persistente de drones em todas as camadas do combate.

Mais do que a simples introdução de novos meios, trata-se de uma mudança de paradigma comparável à mecanização do século XX ou à informatização das forças armadas a partir dos anos 1990.

Origem do conceito no pensamento militar francês

Estudos prospectivos franceses sobre robotização e automação do campo de batalha passaram a ganhar corpo ainda na década de 2010, impulsionados pela maturação tecnológica de sensores, enlaces de dados e sistemas autônomos.

Relatórios institucionais e análises de centros de estudos estratégicos apontaram que os drones deixariam de ser plataformas especializadas para se tornarem elementos estruturantes do sistema de combate.

No léxico doutrinário francês, a dronização aparece associada a conceitos como guerre collaborative, combat multi-domaines e systèmes de systèmes. O drone deixa de ser apenas um vetor de vigilância ou ataque pontual e passa a integrar uma arquitetura mais ampla de coleta, fusão e exploração de dados em tempo quase real.

Do drone isolado ao emprego em massa

A principal ruptura trazida pela dronização é a passagem do uso seletivo para o emprego massivo. Conflitos recentes demonstraram que drones de baixo custo, operando em grande número, podem gerar efeitos desproporcionais no campo de batalha, saturando defesas, expondo posições e reduzindo drasticamente a ocultação das forças.

Nesse contexto, a vantagem não reside apenas na sofisticação individual da plataforma, mas na capacidade de produzir massa inteligente: grande quantidade de sensores e vetores conectados, capazes de detectar, identificar e designar alvos de forma contínua. Essa lógica desafia modelos tradicionais de superioridade aérea e de manobra terrestre.

Impactos operacionais

A dronização altera profundamente o nível tático e operacional. No plano tático, a presença constante de drones reduz a surpresa, encurta o ciclo OODA (observar–orientar–decidir–agir) e aumenta a letalidade do fogo indireto.

Pequenas unidades passam a operar sob vigilância permanente, o que impõe novas exigências de camuflagem, mobilidade e disciplina eletromagnética.

No nível operacional, drones ampliam a capacidade de reconhecimento em profundidade, interdição e apoio às forças terrestres, muitas vezes substituindo ou complementando meios tripulados mais caros e vulneráveis.

A consequência direta é uma maior integração entre sensores e efetores, com decisões cada vez mais baseadas em fluxos contínuos de dados.

Enxames, automação e inteligência artificial

Um dos vetores centrais da dronização discutido por autores franceses é o desenvolvimento de enxames (swarms). Esses sistemas permitem que múltiplos drones cooperem entre si, distribuindo funções e reagindo de forma adaptativa ao ambiente de combate. Embora o controle humano permaneça um elemento-chave, a automação crescente introduz novos desafios éticos, jurídicos e de comando e controle.

A integração de inteligência artificial visa reduzir a carga cognitiva do operador, acelerar a análise de informações e permitir respostas mais rápidas a ameaças emergentes. Contudo, esse avanço também aumenta a dependência de redes, enlaces de dados seguros e proteção cibernética.

Vulnerabilidades e contramedidas

A dronização não elimina fragilidades. Pelo contrário, cria novas superfícies de vulnerabilidade. Sistemas de guerra eletrônica, interferência de GPS, ataques cibernéticos e armas antidrone passam a ocupar papel central na defesa. A capacidade de degradar ou negar o uso de drones torna-se tão estratégica quanto o seu emprego ofensivo.

Além disso, a proliferação de drones reduz a assimetria tecnológica, permitindo que atores estatais e não estatais explorem capacidades antes restritas a forças militares avançadas. Esse fator amplia os riscos de escalada e de difusão do poder de fogo.

Implicações estratégicas

Do ponto de vista estratégico, a dronização contribui para a compressão dos tempos de decisão e para a ampliação da transparência do campo de batalha. A distinção entre retaguarda e linha de frente torna-se cada vez mais tênue, uma vez que drones podem operar em profundidade com custos relativamente baixos.

Para forças armadas como a francesa — e, por extensão, para aliados e parceiros — o desafio consiste em equilibrar massa e tecnologia, garantindo resiliência, interoperabilidade e sustentabilidade logística. A dronização exige não apenas novos equipamentos, mas uma revisão doutrinária abrangente e investimentos em formação, comando e controle e proteção eletrônica.

Avaliação crítica: a ideia francesa e a realidade da guerra na Ucrânia

A reflexão francesa sobre a dronização do campo de batalha mostrou-se, em grande medida, conceitualmente correta quando confrontada com a realidade observada na guerra da Ucrânia. O conflito confirmou a centralidade do emprego massivo de drones como sensores persistentes, vetores de ataque de baixo custo e elementos essenciais de integração entre reconhecimento e fogos.

A noção de massa inteligente, amplamente discutida em estudos franceses, materializou-se no uso extensivo de UAVs comerciais adaptados, drones militares dedicados e munições vagantes.

Entretanto, a experiência ucraniana também expôs limites práticos que relativizam parte do otimismo tecnológico presente em alguns trabalhos prospectivos. A dronização ocorreu menos pela sofisticação extrema dos sistemas e mais pela combinação de simplicidade, rapidez de adaptação e produção em escala.

Em contraste com cenários doutrinários que pressupunham redes altamente resilientes e automação avançada, o campo de batalha ucraniano evidenciou a fragilidade dos enlaces de dados, a vulnerabilidade à guerra eletrônica e a necessidade constante de soluções improvisadas.

Outro ponto de convergência parcial refere-se aos enxames e à autonomia.

Cabe, porém, uma ressalva conceitual fundamental: a dronização do campo de batalha não se restringe ao domínio aéreo, frequentemente associado aos RPA ou UAV. No entendimento mais amplo adotado por autores franceses, a dronização deve ser compreendida como um processo de robotização transversal dos meios militares, abrangendo sistemas terrestres não tripulados (UGV), plataformas navais e fluviais não tripuladas (USV) e veículos submersíveis autônomos ou remotamente operados (UUV).

Trata-se, portanto, de uma transformação sistêmica, e não de uma mera proliferação de drones aéreos. Embora amplamente debatidos no pensamento militar francês, esses conceitos ainda aparecem de forma limitada na prática, sobretudo devido às restrições técnicas, à interferência eletromagnética intensa e às exigências de controle humano. O que se observa, predominantemente, é uma dronização incremental, com forte dependência do operador e ciclos curtos de inovação, em vez de sistemas plenamente autônomos.

Por fim, a guerra na Ucrânia reforçou um aspecto central da análise francesa: a dronização não elimina a necessidade de contramedidas robustas.

Do ponto de vista conceitual, o termo dronização é empregado justamente para destacar essa lógica de robotização do combate. Ele designa a progressiva substituição — ou complementação — do combatente humano por sistemas robóticos capazes de operar em ambientes de alto risco, executar missões persistentes e ampliar a presença militar sem o custo político e humano direto.

A dronização, nesse sentido, aproxima-se da ideia de “força distribuída”, na qual múltiplos sistemas não tripulados expandem o alcance, a letalidade e a consciência situacional das forças convencionais.

A incorporação crescente de inteligência artificial tende a tornar esse modelo de guerra significativamente mais eficiente. Algoritmos de IA já permitem acelerar a detecção, classificação e priorização de alvos, reduzir o tempo entre sensor e efetor e otimizar o emprego simultâneo de múltiplos vetores.

Em um ambiente saturado por drones em diferentes domínios, a IA torna-se essencial para a gestão do volume de dados, para a coordenação de operações multi-domínio e para a adaptação dinâmica às ações do inimigo.

Entretanto, a guerra na Ucrânia indica que a principal contribuição da IA, no curto e médio prazo, não estará na autonomia total letal, mas na ampliação da eficiência humana: apoio à decisão, redução da carga cognitiva dos operadores, planejamento mais rápido e emprego mais racional dos meios disponíveis.

Assim, a dronização assistida por inteligência artificial tende a consolidar um modelo de combate mais transparente, acelerado e contestado, no qual a superioridade informacional passa a ser tão decisiva quanto a superioridade de fogo. Pelo contrário, ela elevou a guerra eletrônica, a defesa antidrone e a resiliência logística ao centro da disputa operacional.

Assim, a principal lição é que a dronização não constitui uma solução isolada ou definitiva, mas um componente de um ecossistema de combate altamente contestado, no qual adaptação contínua e equilíbrio entre tecnologia, doutrina e massa permanecem decisivos.

O atraso brasileiro e a dronização ignorada

A análise do pensamento francês e da experiência prática observada na guerra da Ucrânia evidencia um contraste relevante quando comparada à realidade brasileira. Embora o DefesaNet venha publicando, há anos, artigos e análises sobre drones, guerra eletrônica, robotização e transformação do campo de batalha, o tema da dronização ainda permanece, em grande medida, em segundo plano na formulação estratégica das Forças Armadas brasileiras.

Esse atraso — o chamado delay Brasil — não decorre da ausência de conhecimento técnico ou doutrinário na base das instituições. Pelo contrário, há inúmeros oficiais, pesquisadores e quadros técnicos que estudam ativamente essas novas formas de guerra, acompanham conflitos recentes e compreendem a centralidade dos sistemas não tripulados e da integração sensor–efetor.

O problema reside, sobretudo, em uma combinação de miopia estratégica e falta de vontade política no alto escalão decisório, que tende a tratar a dronização como um tema periférico ou futurista, e não como uma necessidade presente.

Esse padrão não é novo. Na aviação, por exemplo, o Brasil jamais consolidou uma indústria aeronáutica militar de ponta plenamente soberana em todos os segmentos críticos, permanecendo historicamente dependente de tecnologias, motores, sensores e sistemas desenvolvidos no exterior.

Mesmo quando obteve êxitos industriais relevantes, estes ocorreram de forma parcial e condicionada a cadeias globais de suprimento. O resultado foi um atraso estrutural que se reflete até hoje em limitações operacionais e estratégicas.

A dronização do campo de batalha tende a repetir essa lógica caso não haja uma inflexão clara. Ignorar ou postergar a adoção plena de sistemas não tripulados, robotização e inteligência artificial aplicada ao combate significa aceitar uma posição de dependência tecnológica futura, com impacto direto na capacidade dissuasória e na autonomia estratégica nacional.

Conclusão

A dronização do campo de batalha representa uma das transformações mais significativas da guerra contemporânea. Inspirado por análises e trabalhos do pensamento militar francês, o conceito evidencia que o futuro do combate não será definido apenas por plataformas isoladas, mas por ecossistemas de sistemas não tripulados, conectados e cada vez mais automatizados.

Mais do que uma tendência tecnológica, a dronização impõe uma mudança cultural e doutrinária às forças armadas. Aqueles que conseguirem integrar esses sistemas de forma coerente, protegendo suas vulnerabilidades e explorando sua capacidade de gerar superioridade informacional, estarão melhor posicionados para operar em um ambiente de conflito cada vez mais transparente, letal e dinâmico.

-x-

Referências mais relevantes que estão claras no debate francês recente:

1. Relatório parlamentar francês sobre drones e tecnologia militar
Um dos documentos institucionais mais próximos a um “trabalho oficial” é o relatório de informação da Assembleia Nacional francesa, fruto de uma missão sobre “Masse et haute technologie: quels équilibres pour les équipements militaires français?”. Este relatório discute explicitamente como drones redefinem a função das forças armadas no campo de batalha, incluindo sua integração em sensores, vigilância, ataque e suporte tático — um conteúdo que envolve a ideia de dronização. Assembleia Nacional[link]

2. Estudos prospectivos sobre robotização do campo de batalha
Há trabalhos franceses (ou escritos por especialistas em defesa europeus analisando a França) com títulos como La robotisation du champ de bataille : benchmark doctrinal à horizon 2040 que compararam doutrinas de diversos países e destacaram que a robotização — incluindo o uso massivo de drones autônomos ou semiautônomos — é um eixo estratégico no pensamento militar contemporâneo. Esse tipo de estudo trata diretamente dos efeitos da automação e dos veículos não tripulados no combate futuro. Française Stratégie[link]

3. Reflexões acadêmicas e de think tanks franceses
Organizações como o IFRI (Institut français des relations internationales) publicaram notas e análises sobre dronisation massive des opérations, examinando como a presença massiva de drones nos conflitos (como na guerra na Ucrânia) representa uma transformação comparável à mecanização ou motorização de épocas passadas — implicando mudanças profundas na doutrina, no emprego operativo e no conceito de guerra. Ifri[link]

4. Componentes da doutrina francesa de UAV e automação
A própria evolução da doutrina de veículos aéreos não tripulados (Unmanned Aerial Vehicles) das Forças Armadas francesas descreve categorias de drones (reconhecimento, tático e teatro) e sua integração nos sistemas de comando e controle — parte essencial do processo de dronização. Wikipedia[link]

5. Programas e projetos técnicos relacionados
Existem também programas franceses específicos como SUSIE (Supervision de systèmes d’intelligence en essaim), que tratam do conceito de controle de enxames (swarms) de drones no campo de batalha — um componente-chave da dronização da guerra conectada e automatizada. Wikipédia[link]

Contexto mais amplo do debate francês
Nos círculos militares e estratégicos franceses, a “dronização” é frequentemente discutida em conjunto com robotização, IA militar, sistemas autônomos e guerre collaborative, reconhecendo que a presença de UAVs, robôs terrestres e sistemas automatizados está redesenhando as capacidades táticas e operacionais. Este debate ganhou força especialmente após as lições observadas na guerra da Ucrânia, onde o emprego disseminado de drones mudou aspetos fundamentais do combate. Française Stratégie+1[link]

Leia também:

Compartilhar:

Leia também
Últimas Notícias

Inscreva-se na nossa newsletter