Dia Internacional da Proteção de Dados: entre a cultura do descuido e a urgência da segurança digital

Por que práticas básicas de cibersegurança seguem sendo negligenciadas no país mais exposto a vazamentos de dados da América Latina

O Dia Internacional da Proteção de Dados surge, mais uma vez, como um alerta incômodo: o Brasil figura entre os países mais impactados por vazamentos de informações pessoais no mundo. E-mails, CPFs, senhas, endereços físicos e hábitos de navegação circulam com relativa facilidade em mercados clandestinos digitais, alimentando um ecossistema criminoso cada vez mais organizado e sofisticado.

Levantamento da empresa global de cibersegurança Surfshark posiciona o Brasil na sétima colocação no ranking mundial de violações de contas. Em outro indicador ainda mais sensível, o país lidera o número de cookies vazados, com cerca de 7 bilhões de registros de usuários brasileiros identificados na dark web, segundo análise da NordVPN. Esses números ajudam a dimensionar um problema que já ultrapassou a esfera técnica e passou a impactar diretamente a segurança econômica, jurídica e reputacional de indivíduos e organizações.

O impacto real do vazamento de dados

O comprometimento de informações pessoais vai muito além do incômodo ou da violação de privacidade. Na prática, dados vazados viabilizam fraudes financeiras, abertura indevida de contas, contratação de empréstimos, compras não autorizadas e a construção de perfis completos para engenharia social.

Segundo Gilberto Reis, COO da Runtalent, empresa referência em soluções digitais, o problema não reside apenas na tecnologia.

Quando informações são vazadas, elas passam a alimentar mercados clandestinos digitais. Em muitos casos, a vulnerabilidade não está nos sistemas, mas no comportamento dos usuários”, afirma.

Senhas fracas, reutilização de credenciais, softwares desatualizados e cliques automáticos em links suspeitos seguem sendo portas de entrada recorrentes para ataques. A sofisticação dos golpes cresce, mas a base explorada continua sendo, em grande parte, o erro humano.

O fator humano como elo mais frágil

Para Reis, medidas simples ainda são subestimadas, apesar de sua eficácia comprovada. O uso de senhas fortes e únicas, aliado à autenticação de dois fatores (2FA), representa uma das barreiras mais eficientes contra acessos indevidos. Ainda assim, sua adoção permanece irregular, especialmente fora de ambientes corporativos mais maduros em segurança da informação.

No contexto empresarial, o cenário não é muito diferente. Sandro Tonholo, territory manager da Infoblox, destaca que boa parte dos incidentes poderia ser evitada com práticas básicas de governança digital.

“Atualizações de sistemas e aplicativos corrigem brechas conhecidas que continuam sendo exploradas. Além disso, é fundamental adotar uma postura proativa, com múltiplas camadas de segurança capazes de identificar e bloquear ameaças antes que elas atinjam os dispositivos”, explica.

Em um ambiente de ameaças persistentes, ransomware e ataques automatizados, a ausência de monitoramento e de respostas preventivas deixa empresas expostas não apenas a perdas financeiras, mas também a paralisações operacionais e danos duradouros à reputação.

Proteção de dados como direito e obrigação legal

Do ponto de vista jurídico, a negligência em relação à proteção de dados deixou de ser apenas um risco operacional. Karina Gutierrez, advogada do escritório Bosquê & Grieco Advocacia, ressalta que a privacidade digital é hoje um direito fundamental.

Com o aumento dos ataques cibernéticos, torna-se essencial que empresas e indivíduos adotem medidas preventivas para evitar prejuízos legais, financeiros e reputacionais”, afirma.

A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) ampliou significativamente a responsabilidade das organizações sobre as informações que coletam, armazenam e processam. Vazamentos decorrentes de falhas técnicas, descuido operacional ou ausência de treinamento interno podem resultar em sanções administrativas, multas e ações judiciais.

Para a advogada, investir em tecnologia sem investir em pessoas é um erro estratégico.

Treinamentos e uma cultura de segurança digital são tão relevantes quanto firewalls e sistemas de detecção. O fator humano segue sendo decisivo”, conclui.

Boas práticas que ainda fazem diferença

Apesar do avanço das ameaças, práticas básicas continuam sendo altamente eficazes quando aplicadas de forma consistente:

1. Manter dispositivos atualizados
Atualizações corrigem vulnerabilidades exploradas rapidamente por cibercriminosos. Sistemas operacionais, aplicativos e antivírus devem estar sempre na versão mais recente.

2. Utilizar senhas fortes e autenticação de dois fatores
Combinações complexas, únicas para cada serviço, reduzem drasticamente o risco de comprometimento em cascata.

3. Compartilhar informações com cautela
Dados sensíveis devem ser fornecidos apenas em ambientes confiáveis e estritamente necessários, respeitando princípios legais de minimização de dados.

4. Desconfiar de e-mails e links suspeitos
O phishing segue como um dos vetores mais comuns de ataque. Mensagens que solicitam informações sensíveis exigem verificação rigorosa de autenticidade.

5. Priorizar redes seguras
Redes Wi-Fi públicas representam risco elevado. O uso de VPNs adiciona uma camada relevante de proteção, especialmente no acesso a dados confidenciais.

Mais que uma data, uma prioridade permanente

O Dia Internacional da Proteção de Dados não deve ser tratado como um marco simbólico, mas como um lembrete recorrente da assimetria entre o avanço das ameaças digitais e a lentidão na adoção de práticas seguras.

Como resume Gilberto Reis, da Runtalent:

Manter-se atualizado, adotar práticas seguras e contar com orientação especializada precisa ser uma prioridade contínua. No ambiente digital, a negligência quase sempre cobra seu preço.

Em um país que lidera estatísticas negativas de vazamento de dados, transformar conscientização em ação deixou de ser uma escolha — tornou-se uma necessidade estratégica.

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