COBERTURA ESPECIAL - Pandemic War - Inteligência

27 de Março, 2020 - 14:20 ( Brasília )

Coup d´Presse - O isolamento de Bolsonaro

Seus recuos ou acenos ao diálogo são apenas táticos, para manter a esperança de que a institucionalidade prevalecerá, enquanto o bolsonarismo trabalha para miná-la


Nota DefesaNet

A publicação dos artigos no "Coup d´Presse"  são para análise e reflexão dos leitores. DefesaNet não endossa o contéudo ou as ilações dos artigos.

O Editor


Matérias relevantes da linha de insanidade da imprensa em seu Coup d´Presse

Folha de São Paulo -  Presidente, retire-se 26 MAR 2020

Valor - A Carta da Renúncia 26 MAR 2020


OESP - O Isolamento de Bolsonaro 27 MAR 2020

Folha de São Paulo - Militares temem efeitos do radicalismo com Bolsonaro isolado 27 Mar 2020

OESP - Vice ‘bombeiro’ ganha apoio de militares 30 MAR 2020

OESP - Coup d'Presse - Conduta de Bolsonaro com coronavírus é mais uma tragédia na vida de general 30 MAR 2020


 

 O isolamento de Bolsonaro
Editorial OESP

 

O Estado de São Paulo
27 de março de 2020

 
O presidente da República, Jair Bolsonaro, escolheu isolar-se dentro de seu próprio governo. Multiplicam-se os relatos de que Bolsonaro já não dá ouvidos nem mesmo a alguns de seus principais ministros, inclusive em questões de alta complexidade e que demandam o parecer de especialistas. O desencontro entre o discurso irresponsável do presidente em relação à epidemia de covid-19 e as recomendações de cautela por parte do Ministério da Saúde foi apenas o mais recente exemplo do distanciamento de Bolsonaro daqueles que trabalham para auxiliá-lo neste momento dramático.

Em sua quarentena particular, optou deliberadamente por não mais levar em conta as opiniões daqueles cuja função é fornecer-lhe os dados da realidade e apontar soluções com base neles. Tem preferido prestar atenção em conselheiros que o atiçam contra tudo e todos que são considerados obstáculos a seu projeto de poder.

Assim, não foi acidental a participação do vereador Carlos Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro, em reuniões nas quais o presidente discutiu a epidemia de covid-19 com governadores de Estado. Sem qualquer expertise conhecida na área de epidemiologia ou na de administração de crises, Carlos Bolsonaro esteve presente na condição de coordenador do chamado “gabinete do ódio”, um grupo informal que assessora o presidente sobre estratégias nas redes sociais.
 
Enquanto o País se une e se mobiliza para encontrar maneiras de enfrentar e superar a epidemia, o presidente e seus filhos se empenham em criar conflitos, sempre com o objetivo de auferir lucros eleitorais. Desde que tomou posse, Bolsonaro já se indispôs diversas vezes com os demais Poderes e com a imprensa. O alvo atual são os governadores, a quem Bolsonaro criticou duramente em cadeia nacional de rádio e TV depois de se consultar com o “gabinete do ódio”, atitude que estarreceu até mesmo alguns de seus ministros e assessores.
 
Com isso, Bolsonaro transformou um gravíssimo problema econômico e de saúde pública – a epidemia de covid-19 – em palanque próprio para demagogia. Ao se queixar do isolamento compulsório e dos efeitos econômicos da quarentena imposta pelos governos estaduais e municipais, minimizando a epidemia, Bolsonaro apresenta-se como porta-voz de milhões de brasileiros aflitos com sua queda de renda e com a interrupção de negócios – embora seu governo tenha tomado até agora poucas e tímidas medidas para mitigar o desastre econômico.

Sem qualquer escrúpulo, explora essa angústia com objetivos políticos, jogando a crise econômica na conta dos governadores – que apenas estão fazendo o que precisa ser feito para poupar vidas. E, no cúmulo da desfaçatez, ainda o faz de maneira cínica: em postagem no Twitter, acusou os governadores de “fazer demagogia diante de uma população assustada” em vez de “falar a verdade”. E continuou: “Aproveitar-se do medo das pessoas para fazer politicagem num momento como esse é coisa de covarde!”.

Nas redes sociais, os bolsonaristas, encabeçados por outros dois filhos do presidente, Eduardo e Flávio Bolsonaro, trataram de espalhar textos e vídeos – falsos ou fora de contexto – que embasam seus questionamentos acerca das medidas restritivas dos governadores contra a epidemia.

O site do ex-astrólogo Olavo de Carvalho, cujos seguidores formam o “gabinete do ódio” no Palácio do Planalto, acusou os governadores de, “na surdina”, se “aliarem à China contra Bolsonaro”. O próprio Olavo de Carvalho chegou a postar um vídeo em que diz que a epidemia de covid-19 “simplesmente não existe”, sendo “a mais vasta manipulação de opinião pública que já aconteceu na história humana”.

É esse tipo de opinião que tem orientado o presidente Bolsonaro em suas atitudes e pronunciamentos nos últimos dias. Seus recuos ou acenos ao diálogo são apenas táticos, para manter a esperança de que a institucionalidade prevalecerá, enquanto o bolsonarismo trabalha febrilmente para miná-la. Cada vez mais encerrado no “gabinete do ódio”, Bolsonaro não tem outra coisa a oferecer ao Brasil.


 

A brutalização da verdade
O Estado de S.Paulo
26 de março de 2020



A ameaça representada pelos arroubos de Bolsonaro vai muito além da saúde pública. Ele parece desejar o confronto de modo a criar clima para soluções autoritárias
 
O presidente da República, Jair Bolsonaro, fez um pronunciamento absolutamente irresponsável na noite de terça-feira, em cadeia nacional de rádio e TV. Em vez de usar esse recurso poderoso para anunciar alguma medida importante para conter a epidemia de covid-19, ou mesmo para confortar os brasileiros confinados há dias em suas casas, Bolsonaro, sob o argumento de que é preciso reativar a economia, incitou os cidadãos a romper a quarentena e voltar à “normalidade” – contrariando as recomendações de especialistas de todo o mundo e do próprio Ministério da Saúde.

Ao fazê-lo, o presidente passou a ser, ele mesmo, uma ameaça à saúde pública. Por incrível que pareça, os brasileiros, para o bem do País, devem desconsiderar totalmente o que disse o chefe de Estado. A que ponto chegamos.

Mas a ameaça representada pelos arroubos de Bolsonaro vai muito além da questão da saúde pública. O presidente parece desejar ardentemente o confronto – com governadores de Estado, com o Congresso, com a imprensa e até com integrantes de seu próprio governo –, de modo a criar um clima favorável a soluções autoritárias. À sua maneira trôpega, Bolsonaro, ao reiterar ontem as alucinadas declarações que dera na noite anterior, disse: “Todos nós pagaremos um preço que levará anos para ser pago, se é que o Brasil não possa ainda sair da normalidade democrática que vocês tanto defendem. Ninguém sabe o que pode acontecer no Brasil. Sai (da normalidade democrática) porque o caos faz com que a esquerda se aproveite do momento para chegar ao poder. Não é da minha parte, não, fique tranquilo”.

Assim, Bolsonaro usa a epidemia de covid-19, cujas dimensões e letalidade ainda são desconhecidas e que tanta aflição tem causado ao País e ao mundo, para alimentar seu inconfessável projeto de poder – cuja natureza cesarista já deveria ter ficado clara para todos desde o momento em que o admirador confesso de notórios torturadores do regime militar se tornou presidente da República.

Esse projeto se assenta na brutalização da verdade. Para o bolsonarismo, os fatos reais não existem, salvo quando enunciados por Bolsonaro. Assim, se o presidente diz, sem nenhum respaldo na realidade, que a covid-19 é uma “gripezinha” causada por um vírus “que brevemente passará” e que a culpa pelo “pavor” da sociedade é da imprensa, que semeou uma “verdadeira histeria”, então esses passam a ser os “fatos” – em detrimento das inúmeras evidências em contrário.

No mesmo dia em que Bolsonaro qualificava a covid-19 de “resfriadinho”, os organizadores da Olimpíada de Tóquio anunciaram o adiamento do evento para o ano que vem – apenas a mais recente das muitas medidas drásticas tomadas mundo afora por dirigentes conscientes de seu papel nessa crise planetária. “É sério. Leve a sério você também”, disse a chanceler alemã, Angela Merkel, em dramático pronunciamento na TV a respeito da necessidade de isolamento social.

O contraste com Bolsonaro é gritante: para o presidente brasileiro, basta manter apenas o “grupo de risco” (pessoas acima de 60 anos) em isolamento, e então será possível reabrir escolas e o comércio. Mas o próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, é contra esse isolamento parcial, segundo apurou o site BR Político.

Por sorte, os governadores de Estado – acusados por Bolsonaro de praticar política de “terra arrasada” – informaram que vão manter as restrições de movimento para enfrentar a epidemia. Em reunião virtual dos governadores do Sudeste com Bolsonaro, João Doria, de São Paulo, disse lamentar o pronunciamento do presidente, queixou-se da descoordenação do governo federal e declarou que “a prioridade é salvar vidas” – ao que Bolsonaro, que jamais desceu do palanque, respondeu: “Saia do palanque”.

“As decisões do presidente da República em relação ao coronavírus não alcançarão o Estado de Goiás”, informou o governador goiano, Ronaldo Caiado, no que certamente será seguido por seus pares. Ou seja, o presidente Bolsonaro será olimpicamente ignorado pelos governadores. O resto dos brasileiros deveria fazer o mesmo.


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