COBERTURA ESPECIAL - Pandemic War - Segurança

25 de Março, 2020 - 22:46 ( Brasília )

O Que Podemos Aprender com a História sobre Saques em Tempos de Recessão?



Coronel Fernando Montenegro
 Operações Especiais do Exército Brasileiro
Comandou a ocupação do Complexo do Alemão
Professor da Universidade Autônoma de Lisboa e
Auditor do Curso de Defesa de Portugal

 

É preciso que a sociedade entenda o conceito de interdependência que atinge a todos. Muito além de preocupação com o contágio e efeitos de uma doença, consequências decorrentes de algumas ações ou omissões governamentais podem nos levar ao céu ou ao inferno rapidamente. Como militar, analista de inteligência e pesquisador acadêmico, não poderia deixar de visualizar alguns cenários.

Até agora, nenhum dos países em evidência atingidos pelo COVID-19 tem as vulnerabilidades dos latino-americanos. Vivemos no continente com a pior distribuição de renda do planeta, o que traz problemas sérios tradicionalmente.
 
Ao reboque da contenção dos efeitos da propagação do Coronavírus, ocorrerá recessão econômica e desemprego que são sempre seguidos de incremento da violência, como se pôde constatar no final da Era Lulopetista, em que o Brasil atingiu o recorde de 14 milhões de desempregados e mais de 60 mil mortes violentas ao ano.

O problema da explosão da criminalidade pode vir a causar mais mortes do que o próprio Coronavirus se não for mitigado corretamente, daí a necessidade de uma atividade de Inteligência intensa na elaboração de cenários possíveis e a visualização de soluções. Vale ressaltar que os saques a supermercados e comércio de rua já iniciaram.

É preciso aprender com a história para que seja possível se antecipar aos problemas de segurança que surgem no horizonte. Na Argentina, no primeiro semestre de 1989, após os fracassos do “plano Austral” e do “plano Primavera”, o país foi cenário de depredação e saques em massa na grande Buenos Aires. Naquela ocasião, o país governado por Raul Afonsín foi arruinado pela hiperinflação que ultrapassou os índices de 3.000% ao ano.

A base da Pirâmide de Maslow nos alerta que quando as necessidades fisiológicas não são satisfeitas, o ser humano começa a se animalizar; dessa forma, a falta de dinheiro e a crise de abastecimento provocaram o receio de que moradores da periferia de Buenos Aires, onde viviam os operários, avançassem sobre a região central para prosseguir nos saques do que ainda restava dos estabelecimentos comerciais e residências. Devido a isso, grupos de autodefesa armados se organizaram espontaneamente em diversos bairros para resistir aos ataques.

Na época, o presidente Raul Alfonsín resolveu apaziguar a situação com distribuição de comida grátis nos bairros pobres durante meses, mas mesmo assim foi derrotado nas eleições de maio de 1989 pelo peronista Carlos Menen.  Lembro-me que, o presidente recém-eleito, mesmo se apresentando como um político populista de esquerda, não foi capaz de conter a onda de violência dos portenhos sem que endurecesse as medidas de contenção da violência e chegou a dar ordens extremas às Forças Armadas para que atirassem para matar para conter os saques.

Em situações críticas, é necessário que os governos sejam enérgicos para evitar a todo custo que se atinja um estado de anomia. A certeza da impunidade costuma ser o maior estímulo para que criminosos tradicionais ou pessoas em estado de necessidade passem a praticar delitos. Por ocasião do terremoto que destruiu a maior parte de Lisboa em 1755, as ondas de saques e outras violências só foram contidas quando o Marquês de Pombal enviou sumariamente à forca os primeiros capturados. No Chile, as Forças Armadas e Carabineros estão buscando conter o caos provocado pelas turbas violentas que assolam Santiago e as principais cidades enquanto os vetores políticos disputam o poder sob o pretexto de solucionar a crise.

Nos meses que antecederam a Revolução de 31 de março de 1964 foram realizados vários saques a supermercados e estabelecimentos comerciais no Rio de Janeiro; situações similares têm ocorrido em algumas capitais do Brasil nos últimos anos quando policiais militares desencadeiam greves reivindicando melhores salários e condições dignas de trabalho.

Essas situações normalmente têm sido gerenciadas com o emprego das Forças Armadas para garantir da lei e da ordem por incapacidade de os governos estaduais de solucionarem as crises de segurança que têm sido instaladas.


 

<script async src="https://platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script> O Brasil possui cerca de 40 milhões de trabalhadores informais (sem contrato de trabalho), vários incluídos na estatística de desempregados, e outros tantos independentes vivem do que fazem no dia-a-dia e possuem poucas reservas de subsistência. Com essa redução da circulação de dinheiro, certamente essa categoria será a mais afetada. Esses números de trabalhadores “sem carteira assinada” são muito reduzidos na Espanha ou Itália, por exemplo.

Além disso, os subsídios do Estado e a estrutura pública funcionam bem melhor na Europa e nos Estados Unidos. Essa categoria, integrada por massagistas, professores de artes marciais, motoristas de taxi e de aplicativos, camelôs, diaristas e vendedores ambulantes de praias é extremamente vulnerável ao cenário atual brasileiro. Em que pese o esforço do Governo Federal e do Congresso em distribuir a esse segmento o montante de 5 bilhões de reais mensais, cada um deve receber apenas 200 reais por mês, o que ajuda, mas é muito pouco.

Existindo no Brasil duas megalópoles, como o Rio de Janeiro e São Paulo, e várias cidades com mais de um milhão de habitantes, não é difícil deduzir a vulnerabilidade que os grandes centros urbanos se encontram. Grande parte dessa população faz parte do grupo de trabalhadores autônomos acima mencionados que perderam a sua capacidade de gerar renda.

Dessa forma, além de todas as medidas governamentais de cunho social, envolvendo medidas sanitárias e reforço ao sistema de saúde, é necessário que os atores eleitos nos poderes executivos das esferas municipal e estadual, nomeadamente Prefeitos e Governadores, visualizem antecipadamente, dentro do que for viável amparado legalmente, medidas eficazes de dissuasão aos saques a estabelecimentos comerciais e outras formas de violência, como por exemplo, um decreto estabelecendo a condução coercitiva dos presos em flagrante diretamente aos complexos de presídios de segurança máxima.

Algumas atitudes intempestivas de prefeitos e governadores, como isolamento de cidades e estados, provavelmente irão agravar o quadro, ao gerar uma crise de desabastecimento sem precedentes, levando a pessoas sem COVID-19 a ficar sem comida, sem remédios, suprimento de higiene. Da mesma forma, já que alguns segmentos insistem em demonstrar insensibilidade às campanhas de conscientização publicitárias, ações em relação à desobediência coletiva em aglomerações como bailes funk precisam ser reprimidas de forma mais enfática para que focos de propagação coletiva sejam reduzidos ao máximo.

Nos próximos dias, boa parte da população vai passar a entender melhor o conceito de interdependência e que, a contenção de uma pandemia não se faz apenas com médicos ambulâncias e hospitais. Quem for minimamente esclarecido vai perceber a importância dos policiais e militares que estiverem trabalhando na contenção coercitiva do caos e violência urbana.

 

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A supremacia do discurso da esquerda no meio acadêmico de ciências humanas e biomédicas nos últimos cinquenta anos levou esse segmento brasileiro a uma miopia na busca de soluções de segurança pública e violência no país. Parece-me que houve um distanciamento dos cursos de exatas e qualquer coisa que leve a um raciocínio lógico e matemático, criando um hiato em que os brasileiros querem ficar de quarentena, com o comércio fechado (maior gerador de empregos do país), não ser demitido, não ser afastado e continuar com o salário em dia, tudo ao mesmo tempo, o que é impossível.

Num contexto de colapso na saúde, na segurança, no abastecimento, a tendência é que hienas em busca de poder procurem direcionar a cobrança da opinião pública para cobranças internas impregnadas de narrativa ideológica, e isso já começou. Por isso, não faz sentido achar o “culpado” e sim enfrentar a crise e conter os danos. Hoje o culpado é China. Amanhã será quem? As autoridades não podem começar a serem desacreditadas, desrespeitadas, perder a liderança, e principalmente a credibilidade.

 Charge tentando colocar humor nos saques em Buenos Aires.
 

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