Entre princípios e alinhamentos ideológicos: a seletividade moral como instrumento de poder no sistema internacional
Pensamento – DefesaNet
O debate internacional contemporâneo tem sido marcado por uma hipocrisia seletiva que compromete não apenas a coerência moral de governos, analistas e movimentos políticos, mas também a credibilidade do próprio discurso que se autodenomina “antimperialista”.
A reação indignada de determinados setores diante de uma eventual captura de Nicolás Maduro contrasta de forma flagrante com o silêncio — ou a relativização conveniente — observado em outros episódios de agressão direta à soberania de Estados reconhecidos internacionalmente.
É necessário deixar claro, do ponto de vista editorial da Defesanet, que não aprovamos a agressão de um país contra outro, tampouco intervenções militares externas que violem a soberania nacional. Esse princípio vale para todos os atores, sem exceção. O que se busca é coerência estratégica e moral, com crítica equilibrada, técnica e não seletiva, independentemente de alinhamentos ideológicos ou conveniências políticas.
A invasão da Ucrânia pela Federação Russa, iniciada em 2022, não surgiu no vácuo. Em 2014, Moscou já havia anexado ilegalmente a Crimeia, em clara violação ao direito internacional, aos Memorandos de Budapeste e aos princípios básicos da soberania estatal.
À época, onde estavam muitos dos que hoje se apresentam como defensores intransigentes da legalidade internacional quando o alvo de críticas são os Estados Unidos ou seus aliados? O silêncio foi eloquente — quando não substituído por tentativas de justificar o injustificável.

Desde então, a Rússia não apenas manteve a ocupação de territórios ucranianos, como promove uma campanha militar caracterizada pela destruição sistemática de infraestrutura civil, deslocamento forçado de populações e ameaças diretas à arquitetura de segurança europeia.
Trata-se de um imperialismo clássico, territorial e coercitivo. Ainda assim, para determinados segmentos do debate político, o expansionismo russo parece ser tratado como aceitável ou “compreensível”, desde que se oponha ao Ocidente.
Surge, então, uma questão inevitável: qual é a diferença entre o imperialismo americano e o imperialismo russo para esses críticos? Se a violação da soberania, o uso da força e a imposição de zonas de influência são condenáveis, deveriam sê-lo de forma universal. A seletividade revela menos uma defesa de princípios e mais uma adesão automática a determinados polos de poder.
Essa incoerência se estende a outros teatros estratégicos. O Tibete, uma sociedade historicamente pacífica, foi ocupado e anexado pela China e permanece sob rígido controle de Pequim, com amplas denúncias de repressão cultural, religiosa e política.

O tema praticamente desapareceu do debate internacional. O mesmo ocorre diante das crescentes ameaças chinesas contra Taiwan e da pressão estratégica exercida sobre países da orla do Oceano Pacífico, em um movimento inequívoco de expansão de influência e projeção de poder.
Outro exemplo emblemático da hipocrisia seletiva é o caso de Israel. Quando Israel é atacado por organizações terroristas ou por atores estatais e paraestatais que negam explicitamente seu direito à existência, o silêncio ou a relativização predominam em certos círculos.
No entanto, quando Israel reage militarmente — no exercício do direito à autodefesa reconhecido pelo direito internacional — esses mesmos atores se mobilizam de forma imediata para condenar suas ações, ignorando o contexto estratégico e as ameaças existenciais envolvidas. Mais uma vez, a crítica não é ao uso da força em si, mas a quem a utiliza.

No plano latino-americano, a retórica recente em torno de uma possível captura de Nicolás Maduro levanta questões adicionais. É plausível supor — e aqui trata-se de uma hipótese política, não de um fato comprovado — que negociações de bastidores tenham ocorrido envolvendo Washington, Caracas e atores regionais, resultando em algum tipo de entendimento tácito.
Nesse contexto, as críticas públicas do presidente Lula podem ser interpretadas como um gesto voltado majoritariamente ao consumo interno, “jogando para a torcida”, sem necessariamente representar uma ruptura real com os Estados Unidos. Não se pode descartar, inclusive, a existência de canais de diálogo pragmáticos com uma eventual administração Trump, como já ocorreu em outros momentos da política internacional.
Essa ambiguidade expõe um problema estrutural mais profundo: a percepção crescente de que o Itamaraty, outrora reconhecido por sua tradição de profissionalismo, autonomia estratégica e pragmatismo, vem se alinhando de forma excessivamente submissa aos interesses chineses.
Ao abdicar de uma política externa equilibrada e verdadeiramente independente, o Brasil corre o risco de substituir uma dependência por outra, tornando-se um ator reativo, e não um formulador de agenda no cenário global.
Em última instância, o sistema internacional não necessita de mais discursos morais seletivos, mas de critérios consistentes. Condenar apenas os imperialismos “convenientes” enquanto se relativizam ou silenciam outros não é análise estratégica — é militância ideológica travestida de política externa.
O Defesanet sustenta que a crítica deve ser uniforme, técnica e fundamentada, independentemente de quem viole a soberania, ameace vizinhos ou projete poder pela força. A história, como sempre, cobra o preço da incoerência.





















