PCC: “cultura e valores” em corações e mentes

Pichação que demonstra a presença do PCC em Boa Vista – RR (fonte: Ações do PCC fortalecem permanência de garimpeiros na Terra Yanomami – UOL – Reportagem de Fabíola Perez e imagem dos arquivos pessoais de Rodrigo Chagas – 2023)

PCC: “cultura e valores” em corações e mentes

Flávio César Montebello Fabri
Colaborador DefesaNet


Nota DefesaNet
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O Editor


Após o Ministério Público do Estado de São Paulo proceder à divulgação de que, desde os idos de 1993, havia uma Organização Criminosa relevante no sistema penitenciário paulista, o então Secretário da Administração Penitenciária declarou que a afirmação era uma ficção. Que o Primeiro Comando da Capital – PCC “só existia na imaginação do promotor”. Esses posicionamentos foram publicados em 1999, aproximadamente seis anos após a “fundação” daquela organização.

Mais do que influenciar a conduta de outros internos em estabelecimentos prisionais, o PCC passou a atuar, paulatinamente, em corações e mentes. Se em 1999, para alguns, essa Organização Criminosa era apenas algo imaginário, na prática ela já estava realmente alterando comportamentos e percepções de muitos (fonte: O Estado de São Paulo – Edição de 5 de março de 1999).

Pouco tempo depois, se verificou que não era somente uma ilação, uma suposição que estava na mente de alguns. O PCC existia, alastrava-se e, além das celas e das ruas, também passava a influenciar a vida cotidiana (a rotina) de muitos, mesmo para aqueles que não estavam inseridos em práticas ilícitas. Corações e mentes. Mas essa alteração não necessariamente foi feita de forma branda.

Sobre o termo “corações e mentes”, a Hoover Institution(sediada no campus da Universidade de Stanford, em Washington, instituição cuja diretora é Condoleezza Rice, ex-Secretária de Estado dos Estados Unidos da América) elucida que:

  • “(…) a doutrina de contrainsurgência militar dos EUA centra-se em obter o apoio e o consentimento da população.
    (…)
    A frase ‘corações e mentes’ é comumente usada para descrever esforços para obter apoio popular. O termo, originalmente creditado ao Marechal de Campo Gerald Templer em 1968, durante a Emergência Malaia, é na verdade ambíguo no seu significado para os esforços de contrainsurgência. As interpretações dos EUA referem-se ao consentimento e apoio da população, enquanto a compreensão histórica britânica do termo centra-se na sua aquiescência.
    (…)
    ‘Corações e mentes’ é muitas vezes confundido com o sentido de uma abordagem suave ao lidar com a população civil, mas este é um termo impróprio. A chave é mudar a mentalidade do público-alvo e, por vezes, isto requer medidas duras e uma abordagem dura, ou seja, movimentação em massa da população, toque de recolher obrigatório e ação militar direta (controle de distúrbios). À medida que a mentalidade está sendo mudada, pequenos atos de apoio (ou seja, apoio médico e veterinário) e a maneira como as forças de segurança governamentais interagem com a população, combinados com uma campanha eficaz de operações de informação, conquistam os seus corações.”
    (fonte: Hoover Institution – “Hearts and Minds” – and force – LtCol David M. DICrescenzo, LtCol Arun Shankar).

Mas, já que falamos sobre mudar mentalidade / conduta, que tal tentarmos imaginar um caso? Uma pessoa fictícia em um local fictício (dentro do Brasil), em 2024.

O “cidadão A” se encontrava bem cedo em um ponto de ônibus. Aguardava, na humilde comunidade em que reside, a condução até o seu trabalho. Com trinta anos, casado e com dois filhos, preocupa-se em trazer o sustento para sua família. Sua rotina cansativa não o impedia de seguir valores, que fazia questão de compartilhar com seus filhos: ter uma vida regrada, disciplina, ser bom vizinho, não se envolver em confusão e, tendo desavenças, não se eximir de ouvir conselhos, aceitando intermediação de terceiros para que o problema não acabe se tornando uma ocorrência policial. Aprender a respeitar a “família” e a comunidade em que se está inserido. Ser justo e viver em paz. Aparentemente, são valores muito bons para que as novas gerações tenham como referência. O único diferencial é que o cidadão A aprendeu tais “valores” com os integrantes do Primeiro Comando da Capital – PCC, quase duas décadas antes, quando ainda era jovem na mesma comunidade. Quantos “cidadãos A” existem hoje, passando para as novas gerações, referenciais e valores que foram impostos por narcoterroristas? Submissão, aceitação e deferência.

No dia 12 de maio de 2006, os internos de dezenas de estabelecimentos prisionais paulistas começaram a se rebelar. Havia sido decidida a transferência de 765 presos para a Penitenciária 2 (segurança máxima) de Presidente Venceslau. O Dia das Mães seria comemorado no dia 14 (domingo). No dia 15, a cidade de São Paulo estava literalmente parada.

Famosa imagem de internos na Penitenciária de Junqueirópolis (município que dista 614 km da capital paulista), em 14 de maio de 2006 (crédito da imagem Alex Silva / Estadão e reproduzida por G1 – São Paulo em 15 de maio de 2021).

Como registro daquela época, surge a Lei Nº 14.981, de 05 de abril de 2013 (oriunda do Projeto de Lei Nº 91/12, da Deputada Telma de Souza – PT), promulgada pelo então governador Geraldo Alckmin, que incluiu no Calendário Oficial do Estado de São Paulo o “Dia Mães de Maio” a ser comemorado, anualmente, no dia 12 de maio. Obviamente a “ineficiência da Segurança Pública” foi um dos temas da exposição de motivos do projeto, acrescentando, como forma de protesto, que deveriam ser lembrados os chamados “Crimes de Maio”. Talvez pudesse, caso houvesse oportunidade, também ser lembrada que a iniciativa daqueles eventos, que duraram de 12 a 21 de maio, partiu de narcoterroristas do PCC, que assassinaram 59 agentes públicos. Centenas de mortos, ataques a instalações policiais e destruição de patrimônio foi o resultado da insurgência de narcoterroristas (tema este que também já foi pautado por DefesaNet, sendo interessante a leitura, para compreensão do termo e contexto, do artigo que se encontra disponível em https://www.defesanet.com.br/destaque/insurgencia-e-insurgencia-criminal-a-ultima-linha-de-defesa/). Os tentáculos de uma organização criminosa demonstraram seu alcance, ousadia e letalidade.

Poucos dias após este fatídico “Dia das Mães”, ainda com intensa cobertura jornalística sobre o que havia ocorrido, foi possível verificar que o alcance do PCC era maior ainda. Muito maior e bem mais profundo (apesar de imperceptível para uma grande maioria). Mesmo com essa tragédia, constatou-se que os “valores” dessa organização criminosa haviam penetrado nos corações e nas mentes de muitas pessoas (pelo bem ou pela força), principalmente de jovens que residiam em áreas de desordem social e desordenamento territorial (áreas de periferia e favelas, principalmente). O nosso fictício “cidadão A”, mencionado anteriormente, teria 12 anos nesta época (maio de 2006) e muitos de seus amigos estariam brincando de “ser PCC” (seus “heróis”). Outros colegas, mais jovens ainda, estariam já efetivamente participando do tráfico. Talvez todos se encontrassem, eventualmente, para ter um pouco de diversão, nas festas (bancadas pelo PCC) que ocorriam na comunidade onde moravam. Afinal, conviviam com “irmãos” (integrantes da Organização Criminosa) ou “primos” (simpatizantes) na mesma comunidade (muitas vezes esquecida pelo poder público em diversas áreas necessárias). Como poderiam falar alguns, praticamente uma “família”. Duas semanas após o Dia das Mães de 2006, essa percepção foi publicada em um jornal de grande circulação. Neste ponto é necessário deixar bem claro que a imensa maioria dos “cidadãos A” não irão se tornar criminosos ou “irmãos”. Eles tão somente vivem (ou são obrigados a viver e a conviver) no mesmo lugar e são submetidos às regras de uma governança não estatal que lhes é imposta. Assim, a percepção da realidade, sujeição ao regramento (imposto) e a própria conduta (incluindo a necessidade de convívio forçado com criminosos e simpatizantes) é bem diferente da encontrada naqueles que não são expostos a tais circunstâncias. Lembrando, também, que não há qualquer visão romântica nisso.

Pouco mais de 10 anos após surgir, o PCC já havia se tornado uma forte influência principalmente em áreas de desordenamento territorial / desordem social, impondo regras, ocupando espaços, promovendo o “alistamento” de jovens e angariando simpatizantes. A reportagem possui 18 anos, sendo adequado refletir sobre o que ocorre na atualidade, tão como o tempo crível para reverter esse cenário que se estabeleceu (fonte: O Estado de São Paulo – Edição de 28 de maio de 2006).

Não é prerrogativa, somente do PCC, fazer parte da realidade ou da “cultura” dos locais onde exerce sua influência. No Rio de Janeiro, exatamente na mesma época dos atentados de maio de 2006, foi divulgada a “releitura” de uma peça teatral. A “adequação” é por conta de que os protagonistas (um casal de apaixonados) ao invés de familiares que não concordam com o relacionamento, possuem organizações criminosas que são inimigas (que matam pelo domínio territorial e negação da presença estatal). A música de fundo é funk, os efeitos sonoros são de disparos de arma de fogo e grupos de jovens entram, após provocações, em confronto. Retrato do cotidiano vivido desde tenra idade.

“Releitura” de Romeu e Julieta. Ao invés de famílias que discordam do amor de dois jovens, grupos rivais de traficantes. O estilo musical para a encenação é o funk e os “efeitos especiais” são o som de disparos. Em 2006, no Rio de Janeiro. Após quase duas décadas, caso houvesse real investimento em diversas áreas, sem qualquer tipo de penetração ideológica ou de organizações criminosas (um plano de Estado, não somente um de governo) dificilmente esse quadro seria revertido em um lapso inferior ao de uma geração, sendo bem otimista (fonte: O Estado de São Paulo – Edição de 28 de maio de 2006).

Onze anos após a divulgação da “peça teatral”, era noticiado que jovens se dirigiam à mesma localidade, com o intuito de freqüentar um baile funk, buscando também o consumo de drogas e álcool, havendo o comentário de que se tratava de “terra sem lei na Vila Cruzeiro: proibidão com menores e muita droga” (Record R7 – Balanço Geral RJ – Baile funk na Vila Cruzeiro atrai jovens em busca de drogas e álcool – 10 de outubro de 2017). Música e comportamento. Cultura? Ou narcocultura? Só que agora, não é somente a questão de ser obrigado a conviver naquele local. Outras pessoas passaram a, voluntariamente, buscar aquele ambiente, considerando-o atrativo pelo que ofertava.

A idéia de citar reportagens antigas é demonstrar que a penetração do crime na rotina e na percepção de muitas pessoas não é algo atual. Mas, também, hoje não podemos considerar isso “normal”. Pensar em alterar (ou mitigar) um cenário que já está edificado irá demandar muito tempo e esforço tão como é sabido que haverá franca e intensa resistência. Isso, caso se tenha muita boa vontade, um plano de Estado (não de governo, somente) e preferencialmente a ausência de qualquer forma de influência ou contaminação ideológica / política.

A narcocultura, assunto que foi abordado anteriormente pelo portal DefesaNet (https://www.defesanet.com.br/destaque/droga-nova-religiao-e-narcocultura/) passou a ficar popularmente conhecida após 2013, com a produção do cineasta israelense Shaul Schwarz (Narco Cultura). Não que fosse desconhecida (muito pelo contrário, o termo já havia sido mencionado várias vezes anteriormente), mas perceptivelmente ganhou mais impulso. O documentário retrata, conforme análise do periódico Los Angeles Times:

  • “Sabemos muito sobre a guerra das drogas no México e não o suficiente. Ouvimos falar constantemente sobre ela, sobre os 60.000 assassinatos e a matança de inocentes, mas é mais difícil ter uma noção do que isso significa na prática e de quão difundida é sua influência cultural. O potente documentário ‘Narco Cultura’ é um excelente ponto de partida.
    (…) Dirigido e filmado por Shaul Schwarz, um fotojornalista talentoso que passou dois anos neste mundo como fotógrafo, antes de começar a filmar, ‘Narco Cultura’ se beneficia do acesso que Schwarz conquistou durante seu tempo no terreno.
    (…) O que está acontecendo em Juarez, um epicentro de matança, às vezes conhecido como a capital mundial do assassinato, é ruim o suficiente, mas a forma como essa matança é refletida e refratada pelas lentes da cultura popular mexicana-americana é, de certa forma, igualmente chocante.
    (…) Em Juarez, estamos na companhia de Richi Soto, um investigador de cena de crime de fala mansa, mas obstinado, enquanto em Los Angeles e durante a turnê saímos com Edgar Quintero. Ele tem vinte e poucos anos e é uma estrela em ascensão na composição e execução de narcocorridos, canções extremamente populares que celebram de forma despreocupada os assassinatos selvagens e os assassinos cujo trabalho Soto investiga meticulosamente. Soto trabalha no que é descrito como o departamento forense mais movimentado do mundo. Juarez recebeu esse título porque seu total de assassinatos aumentou de 320 em 2007 para 3.622 em 2010 (El Paso, Texas, do outro lado do rio, teve cinco naquele ano).
    (…) bem como crianças que trocam histórias de morte como outras crianças trocam cartões de beisebol.
    (…) ‘Narco Cultura’ vai e volta entre essas cenas e a vida muito mais alegre de Quintero, que aparentemente ganha bem tanto escrevendo canções que celebram os criadores desse caos – ‘somos sanguinários, loucos e adoramos matar’, diz uma das letras (…).
    Ainda mais perturbadora é a percepção gradual de que esse tipo de música comemorativa está se tornando extremamente popular entre os mexicanos e americanos, que esses assassinos sádicos estão, contra toda a razão, sendo idolatrados como Robin Hoods empreendedores que estão se rebelando contra o sistema.
    ‘O fato dessas pessoas representarem o ideal de sucesso, impunidade e poder ilimitado’, diz Rodriguez, ‘é sintomático de como somos derrotados como sociedade.
    Outra pessoa coloca a questão de forma mais direta: ‘A juventude agora idealiza o demônio’.”
    (fonte: Los Angeles Times – “Narco Cultura”  looks at Juarez murders – Kenneth Turan – 5 de dezembro de 2013).

Pelo que vemos, enquanto são retratadas as mortes de várias pessoas, a violência, o tráfico de drogas e o duro trabalho policial, por outro lado, a música (um dos aspectos mais significativos na construção da identidade cultural de um povo, que inclusive celebra o senso de pertencimento, conforme define a Sociedade Artística Brasileira), por intermédio dos narcocorridos, acaba por exaltar traficantes e assassinos (como se tais bandidos fossem criaturas heróicas). Para muitos que apreciam o gênero musical citado, “os narcotraficantes tornaram-se bandidos icônicos e os novos modelos de fama e sucesso. Representam um caminho para sair do gueto – uma nova forma do Sonho Americano, alimentado pela guerra às drogas. A Narco Cultura olha para este fenômeno explosivo a partir de dentro; ciclos de dependência de dinheiro, drogas e violência que estão rapidamente a ganhar força em ambos os lados da fronteira entre os EUA e o México” (The Numbers – Narco Cultura – summary).

Sobre “pertencer a um lugar”, interessante notar o que expressou um jovem, que atravessa a cidade de São Paulo, para freqüentar um baile funk, em uma favela (restando esclarecido na reportagem que mencionou sua fala, que não seria por falta de opção de divertimento em outros ambientes):

  • “Prefiro ir num baile do que um rolê no centro, porque o público é melhor. Todo mundo fala que em todo lugar tem droga, mas eu prefiro mil vezes colar na favela porque é o ambiente que estou acostumado. Com os ‘playboys’ é diferente: aquela sensação de não pertencer àquele lugar“.
    (fonte: Falta de opção? Jovens cruzam SP e vão a bailes de favela por preferência – UOL – Cotidiano – 10 de dezembro de 2019)

Sobre narcocultura, ainda, Isabel Cristina C. Louzada (mestre em Literatura Comparada), efetuou interessante análise de aspectos da literatura colombiana contemporânea, em relação ao contexto sociocultural do narcotráfico, particularmente aquele retratado na obra A Virgem dos Sicários (Fernando Vallejo, Editora Companhia das Letras), no que lemos:

  •  “… a narcocultura se apropria de elementos da tradição latino-americana, como a religiosidade, e os ressignificam com novos valores e sentidos no mundo do tráfico de drogas por meio da violência e do dinheiro.
    … Omar Rincón (2013) expõe que o narcotráfico se tornou a porta de acesso à modernidade para os pobres latino-americanos (…) expõe ainda que o imaginário latino-americano é repleto de simbolismos do narcotráfico que representam um estilo alternativo de se viver a sociedade de consumo, ou seja, se o tráfico é visto como o único meio de acesso dos marginalizados ao capital, então seus pecados são justificáveis. Essa forma única de ascensão (…) se tornou uma forma cultural capaz de constituir seus próprios códigos e regras: a narcocultura. Surgida do território simbólico do narcotráfico, esta é uma forma cultural onde vale tudo para ascender socialmente.
    (…)
    De algum modo os colombianos, e os latino-americanos por extensão, se identificam justamente porque partilham, em diferentes níveis, visões desta forma cultural. Ou seja, a narcocultura se transformou em um meio de integração até mesmo regional.
    (…) a narcocultura legitimou troca de valores e inversão de moralidades, como a moral religiosa (…) a moral do narcotráfico boa é a que te permite sobreviver, então o pecado é não ter dinheiro.”
    (Fonte: Narcocultura e representação: a renovação estética do realismo mágico na autoficção – 2019)

Mesmo com a imposição de restrições à aglomerações por ocasião da pandemia COVID-19, ocorreu baile funk no Complexo da Maré, Rio de Janeiro, em 2020. Alguns cantores com milhões de seguidores nas redes sociais, convidaram pessoas para somar presença (fonte: Super Rádio Tupi – 11 de outubro de 2020).

Em um noticiário de um Complexo do Rio de Janeiro, com milhares de moradores (e a presença de Organizações Criminosas Transnacionais) podemos ver uma divulgação a respeito do gênero musical funk, tão como aos bailes por lá realizados:

Baile da Disney – Divulgado pela ONG Redes Maré, por intermédio do Maré de Notícias. “O Funk é o retrato das periferias urbanas do país. Ele é jovem, ousado e marginalizado” (Hoje é dia de Baile – Maré de Notícias Online – Portal de notícias da Maré)

Lemos, no próprio site que “o Maré de Notícias dá visibilidade aos acontecimentos da Maré, e também àqueles que impactam a vida dos 140 mil mareenses. Fundado em 2009 pela Redes da Maré, o Maré de Notícias nasceu com a missão de informar para mobilizar a população do território (…). Assim, o Maré de Notícias se consolidou como a principal oferta de informação de qualidade para os 140 mil moradores das 16 favelas da Maré”.

Somente para recordar, a Redes da Maré (https://www.redesdamare.org.br/) foi uma das entidades que construiu coletivamente a ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) 635, a conhecida ADPF das Favelas, cujo resultado prático, após anos, foi noticiado (com as conclusões de relatório elaborado pelo Conselho Nacional de Justiça – CNJ). Conforme alguns sites, ocorreu a expansão de áreas sob domínio de organizações criminosas (G1 RJ – Polícia relata ao CNJ expansão do CV após restrições a operações em favela e diz que 1,7 mil lugares no RJ são sob domínio do crime – 10 de abril de 2024). Da mesma forma (conforme noticiado no site Congresso em Foco – UOL) a ONG recebeu em sua sede o então Ministro da Justiça e Segurança Pública (que atualmente compõe a Suprema Corte brasileira) no início de 2023. A notícia possui como título que “ONG que recebeu Dino na Maré buscava aprimorar segurança local”.  É elencado no site (Redes da Maré) também, “uma Ação Civil Pública com o foco na Maré (ACP da Maré), com o objetivo de garantir os direitos dos moradores nas operações policiais (…) em junho de 2017, foi concedido, pelo poder judiciário, uma decisão liminar que determina que os agentes de segurança pública adotem uma série de medidas para que as Operações policiais ocorressem na Maré, dentre elas se destacavam (…) instalação de câmaras de vídeo e GPS nas viaturas (…) instalação de aparelho de áudio nas viaturas (…) elaboração de um Plano de Redução as violências em dias de operações policiais”. Judicialização e imposição de regras à ação policial.

A Carta de Intenções entregue ao então Ministro da Justiça e Segurança Pública, com a sugestão de implementação de medidas que incluem a criação de uma Comissão Independente de Supervisão da Atividade Policial para controle e monitoramento de Operações Policiais com participação social, a revogação da Portaria MJSP nº 42, de 18 de janeiro de 2021 que permite a atuação da Polícia Rodoviária Federal em operações policiais conjuntas, gestão junto à Suprema Corte em relação ao processo de descriminalização do porte de drogas para consumo pessoal, controle das armas das forças policiais, gestão penitenciária e a revisão do currículo de formação para as polícias, entre outros e pode ser acessada por intermédio de link da ONG mencionada (https://www.redesdamare.org.br/media/filemanager/Carta%20de%20Inten%C3%A7%C3%B5es%20ao%20Ministro%20Flavio%20Dino_Mar%C3%A9_2023.pdf).

Houve, também a difusão de um boletim alusivo ao direito à segurança pública na Maré. Um dos pontos foi elencar que, logo no início do mesmo, sob o título “De Olho na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental – ADPF – Das Favelas”, 62% das operações policiais aconteceram próximo a escolas e creches. Sob essa observação (operações policiais nas proximidades de escolas), vale a pena mencionar uma informação da época de sua publicação: Polícia flagra criminosos em treinamento de guerrilha ao lado de creche no Rio(Canal Ciências Criminais – Por Bruna Sepúlveda Borges – 25/09/2023). Da mesma forma: Traficantes são treinados perto de escolas e creche no Rio – Ao todo, são cinco escolas e uma creche que rodeiam complexo no Rio de Janeiro onde há treinamento de novos traficantes (Metrópoles – Por Letícia Cotta – 26/09/2023). O narcotráfico utiliza o pleito das ONGs (de não haver operações policiais nas proximidades das escolas) para evoluir no padrão de treinamento e enfrentamento das forças policiais (fazendo assim, diretamente, a negação de áreas e o impedimento de governança estatal plena). O Boletim com os dados divulgados (sendo adequado notar o apoio da Open Society Foundtions) pode ser lido em sua totalidade no link disponibilizado pela ONG (https://www.redesdamare.org.br/media/downloads/arquivos/RdM_Boletim_direito_SegPubli23.pdf).

Voltando ao tema narcocultura, em uma breve pesquisa com os termos “baile funk” e “traficantes” (delimitando mais ainda, utilizando como parâmetro de local o Complexo da Maré), podemos ver notícias como:

– Imagens mostram traficantes com armas de guerra em baile funk no Rio – Grupo foi flagrado pelo Globocop no Complexo da Maré (Jornal Nacional – 02/11/2017).

– Traficantes ostentam fuzis no meio de baile funk no Complexo da Maré (Extra – 07/09/2018).

– Helicóptero da Record TV flagra homem armado em baile funk no Complexo da Maré (R7 – Por Balanço Geral Manhã RJ – 17/08/2020).

– VÍDEO: Homens exibem fuzis e atiram durante baile funk no Complexo da Maré (Portal Grande Ponto – 09/08/2023)

Enquanto alguns jovens conversam e outros se divertem, o mesmo espaço é dividido com narcoterroristas portando fuzis. As letras do funk e a presença de narcoterroristas armados não impede a vinda de pessoas que consideram “normal” esse tipo de convívio. O “evento” é conhecido como Baile da Disney.  Narcocultura? (Fonte da imagem: Polícia do RJ tenta identificar traficantes que ostentam fuzis em vídeo – BandNews FM – 09/08/2023).

Não se constata, apesar da forte atuação de ONGs, que no decorrer de anos, tenha ocorrido a diminuição da presença de narcoterroristas em eventos públicos / culturais (como nos Bailes Funk), a exibição de armas de porte e portáteis pelos mesmos, tão como que esse convívio tenha impedido a vinda de pessoas para dividir espaços nas festas, com os mesmos. Talvez para alguns seja até um atrativo. Lembrando: o que ocorre no Rio de Janeiro (não somente no Complexo da Maré como em vários outros) é o que ocorre em vários locais do Brasil e, também, do mundo.

Em São Paulo, um dos responsáveis que foram apontados pela morte (após dias de tortura) da Soldado PM Juliane dos Santos Duarte (27 anos de idade), em Paraisópolis (capital paulista) em agosto de 2018, seria Alan Santos dos Prazeres, conhecido como “Alan Batata”. Ele (com outros comparsas) foi morto ao enfrentar as forças policiais após participar de um roubo a banco na cidade de Bacabal (Maranhão) em 26 de novembro daquele ano (havendo a subtração de R$ 100 milhões do estabelecimento, pelos criminosos). Chama a atenção o tipo de homenagem que recebeu de narcoterroristas que atuam na Comunidade de Paraisópolis. Baile Funk… e seu nome exibido na “parede de som”. As armas exibidas seriam (in tese) simulacros para a gravação.

Traficantes exibiram armas durante um baile funk, na comunidade de Paraisópolis, na Zona Sul de São Paulo. Moradores do local reclamaram da sujeira e barulhos durante a festa. Traficantes foram homenageados em um letreiro durante a festa (Fonte: Brasil Urgente – 22 de fev. de 2019).

Com o arrebatamento da policial em Paraisópolis, ocorreu um intenso trabalho colaborativo das forças policiais (com a presença de unidades da Polícia Militar, incluindo as subordinadas ao Comando de Policiamento de Choque e a atuação incessante do Distrito Policial territorial, com unidades especializadas da Polícia Civil). A identificação dos suspeitos se deu a partir da prisão de Everaldo Severino da Silva Felix, o “Sem Fronteira”, que seria o líder do PCC na região (preso por integrantes da Equipe PM Vítima, uma unidade extremamente experiente e especializada, que atua em eventos onde policiais militares figuram como vítimas de homicídio / tentativa de homicídio e que, recentemente, no Rio de Janeiro, em atuação conjunta com o BOPE e setor operacional de inteligência, efetuou a prisão de um homicida de policial militar paulista, criminoso este que se encontrava no interior de uma comunidade fluminense). Por sinal, todos os partícipes do homicídio da Soldado Juliane teriam vínculo com o PCC.

Difícil, portanto, desassociar a forte influência do crime organizado em manifestações culturais. Mesmo com vários defensores de alguns gêneros musicais e a vinda voluntária de pessoas para ambientes (em áreas de desordenamento, onde há consumo de drogas e álcool durante tais “bailes”) para “curtir”, a romantização do tema ou a desculpa da democratização do ambiente, é fato que não diminui, por inúmeras vezes, o culto ao ilícito e a um poder paralelo. Para alguns, talvez uma demonstração de rebeldia e inconformismo. Para outros, plena satisfação (exceto para os moradores que são obrigados a ouvir o som ensurdecedor e não conseguem dormir).

Para finalizar, adequado recordar do filósofo francês Éttiene de La Boétie e de sua obra, O Discurso da Servidão Voluntária(obra que foi publicada postumamente). La Boétie discute sobre (conforme a mais básica e popular das fontes):

  •  “A legitimidade de qualquer autoridade sobre uma dada população e analisa as razões da submissão (relação ‘dominação-servidão’). A originalidade da tese de La Boétie é que, contrariamente ao que muitos pensam, a servidão não é imposta pela força, mas é aceita voluntariamente.
    (…)
    Ele conclui então que são os próprios homens que se deixam dominar, pois, caso quisessem sua liberdade de volta, bastaria apenas se rebelar.
    (…) é possível resistir à opressão, e ainda por cima sem recorrer à violência — segundo ele a tirania se destrói sozinha quando os indivíduos se recusam a consentir com sua própria escravidão. Como a autoridade constrói seu poder principalmente com a obediência consentida dos oprimidos, uma estratégia de resistência sem violência é possível, organizando coletivamente a recusa de obedecer ou colaborar.”
    (fonte: Wikipedia)

Seria possível, portanto, enfrentar o domínio de narcotraficantes em comunidades, tão como as regras que são impostas pelos mesmos, agindo tais como governantes não estatais de milhares de pessoas que habitam em localidades com desordenamento territorial? Bastaria deixar de servir ou não tolerar a presença “dos tiranos”? Por sua obra, conclui que a submissão voluntária pode ocorrer pelo simples hábito de se estar submetido à servidão (não sendo então questionável para o indivíduo esta relação), a religião ou a superstição criada a respeito da figura do “líder”.

O Crime Organizado, com seu regramento que é imposto onde se estabelece (incluindo neste, o aspecto punitivo, onde não raras vezes estabelece a pena de morte), age com tirania. O problema é que muitos já se habituaram com essa relação, outros apóiam e, o que é pior, várias pessoas admiram (servidão voluntária aos valores e à força do crime organizado). A narcocultura é um fator de poder para os criminosos, partindo do princípio que os fortalece ao difundir seus “valores” e angaria admiradores, mesmo de áreas que não se encontram sob seu julgo. Lemos anteriormente que, em 2006, muitas ONGs e Associações nas comunidades em São Paulo (à semelhança do Rio de Janeiro) só funcionariam após permissão de narcoterroristas. Anos após essa notícia, vemos outras tomarem iniciativa de judicializar ações para o controle da atividade policial (desejando criar inclusive comissões para controle e monitoramento de Operações Policiais com participação social), em áreas sabidamente sob forte presença de Organizações Criminosas Transnacionais.

 Se a música, como anteriormente comentado, é um dos aspectos mais significativos na construção da identidade cultural de um povo, então é triste imaginar quando há glorificação e popularização do que é muitas vezes encontrado no repertório dos bailes funk (com a presença eventual de alguns anfitriões armados de fuzil acompanhando as músicas).

Dificilmente, um quadro como este, será revertido em um lapso inferior ao de uma geração. Nestes locais que citamos, muitos encontram por lá seu pertencimento. Afinal, desde 1993, organizações como o PCC penetram nos hábitos, na conduta, no cotidiano e na cultura de muitos. E não é uma obra de ficção. Corações, mentes e servidão (nem sempre voluntária).

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