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06 de Janeiro, 2020 - 16:40 ( Brasília )

Apreensões de cocaína batem recorde no porto de Santos

Em Paranaguá, valor da droga apreendida supera exportação de carros


Marcelo Toledo
Katna Baran
Santos e Curitiba
Folha de São Paulo
29 Dezembro 2019

 

Em um dia, 198 quilos de cocaína estavam camuflados numa carga de café em grãos. Seis dias depois, foi a vez de outros 345 quilos serem achados num contêiner com açúcar. Depois, drogas encontradas em cargas de café, óleo de laranja e até sucata no intervalo de um mês fizeram com que fosse batido o recorde de apreensões de entorpecentes no porto de Santos, o maior do país.

Entre novembro e o início deste mês, seis toneladas de cocaína foram apreendidas pela Receita Federal em operações no local. Com isso, o total do ano alcançou 26,31 toneladas, em 54 ações, ante as 23,11 toneladas descobertas no ano passado, em 46 operações.

Tabletes de cocaína em meio a carga de café verde, tipo arábica, a granel, que iria para a Bélgica  - Divulgação/Receita Federal

O cenário se repete no Paraná, onde foram apreendidas cerca de 15 toneladas da droga neste ano no porto de Paranaguá, número três vezes maior que o total do ano passado.

Para tentar despistar a fiscalização, traficantes infiltram a droga em contêineres sem conhecimento do exportador em meio às mais variadas cargas, como café em grãos, açúcar cristal, peças de automóvel, carne congelada, papel e até mesmo escavadeira hidráulica.

No último dia 4, a PF (Polícia Federal) apreendeu 11 aviões de uma quadrilha do interior paulista que tinha como alvo escoar cocaína pelo porto de Santos rumo à Europa, segundo o delegado da PF Mauricio Galli.

Os traficantes atuavam a partir da Bolívia, de onde traziam 1,5 tonelada da droga por mês —entrava por Mato Grosso do Sul e chegava a São Paulo—, dos quais 85%, ou quase 1,3 tonelada, tinha países europeus como destinos, via Santos.

O número de apreensões é crescente desde 2015 no porto paulista, responsável por cerca de 30% do comércio exterior nacional. Naquele ano, o total foi de uma tonelada e, no ano seguinte, já alcançou 10,6 toneladas. Em 2017, nova alta, com 11,5 toneladas.

A investigação da PF mostrou que a cocaína chegava ao país valendo 300% mais que na Bolívia. Se alcançasse a Europa, o percentual atingia 5.000% mais que no país produtor.

A avaliação de auditores da Receita é a de que cada quilo da droga pode chegar a valer US$ 50 mil (mais de R$ 200 mil) na Europa. “Muita coisa passa, mas alguns bilhões não entraram nesse mercado. O preço é vantajoso [para traficantes], se conseguirem levar o lucro é muito grande”, disse o auditor fiscal da Receita Federal Richard Fernando Amoedo Neubarth, chefe da divisão de repressão da alfândega de Santos.

Cocaína no porto de Santos

No Paraná, em valores as apreensões no porto ultrapassaram o total de veículos de passageiros exportados pelas indústrias do estado, segundo dados do Ministério da Economia. Foram cerca de US$ 600 milhões em drogas, ante US$ 550 milhões em automóveis.

Segundo Neubarth, o crescimento das apreensões no litoral paulista pode ser fruto de uma combinação de fatores, envolvendo aumento de produção, do tráfico e das ações de fiscalização. “Na Europa, que é o principal destino, também aumentaram as apreensões, não só saindo do Brasil, mas de portos da América do Sul, como Venezuela e Colômbia, e Caribe.”

Os portos de Roterdã (Holanda), Le Havre (França) e Antuérpia (Bélgica) estão entre os destinos preferidos dos traficantes.

Diretor-executivo da Abtra (Associação Brasileira de Terminais e Recintos Alfandegados), que representa principalmente empresas atuantes no porto de Santos, Angelino Caputo afirmou que as empresas são vítimas do tráfico e que sistemas implantados no local contribuem com as autoridades de fiscalização.

Cita como exemplo as cerca de 3.000 câmeras de monitoramento existentes no local, pagas pelos terminais portuários e cujas imagens são utilizadas pela Receita Federal.


Bolsas esportivas abrigavam cocaina que iria para a Europa em cointêineres de papel e proteína de Soja Fonte Receita Federal


“Tudo que podemos fazer ao nosso alcance para dar apoio à fiscalização, no apoio das cargas, nós fazemos. Nosso associado abomina qualquer forma de descaminho, colabora, não tem a menor resistência, pelo contrário, estão pré-dispostos a contribuir o máximo possível”, afirmou Caputo.

Segundo ele, o foco da implantação dos sistemas foi o controle aduaneiro, não policial, mas ações como a criação do COV (Central de Operações e Vigilância), há seis anos, contribuem para a vigilância do porto.

O sistema custou, fora as câmeras, R$ 125,8 mil e tem custo mensal de R$ 6.500, dividido por 18 associados. Outro sistema adotado custou R$ 106 mil.

Bolsas de viagem e mochilas são o meio mais comum para o embarque da droga em Santos, por serem mais fáceis de serem colocadas e retiradas dos contêineres.

Segundo agentes de repressão, a maioria dos casos de contaminação —nome dado por eles aos contêineres em que drogas são encontradas— ocorre no trajeto até o porto, e não nos terminais.

Também já ocorreram apreensões de droga nos corpos de estivadores e após serem içadas de lanchas diretamente para os navios —prática mais comum à noite.

As câmeras auxiliam a fiscalização remota, feita por agentes a partir da base da Receita. Além das câmeras, há scanners que analisam as cargas dos caminhões que entram no porto. Se um contêiner é visto como suspeito, ele sai do fluxo e passa por fiscalização.

Combate ao tráfico no porto de Santos

A pequena população de Guaraqueçaba, litoral do Paraná, de pouco mais de 7.600 habitantes, recebeu no início do ano um presente da Receita Federal: uma máquina escavadeira e uma pá carregadeira. Temporais tinham causado deslizamentos de terra na região, comprometendo o deslocamento de moradores, e os equipamentos ajudaram na recuperação das estradas.

O maquinário, no entanto, não foi adquirido com dinheiro público, mas apreendido numa operação de combate ao tráfico internacional de drogas no terminal de contêineres do porto de Paranaguá. Assim como em Santos, esconder a droga dentro de instrumentos é apenas uma das várias formas que os traficantes utilizam para tentar burlar a fiscalização.

“É um espaço de difícil percepção [da droga], pois não são fáceis de passar pelo scanner”, disse Luciano do Carmo Andreoli, delegado adjunto da Receita Federal, citando uma das formas de combate ao tráfico internacional no porto paranaense.

Em 2019, foram quase 15 toneladas de cocaína apreendidas no local. O número é três vezes maior que o total do ano passado. Os meses com maiores movimentações foram janeiro, quando foram interceptadas 3 toneladas da droga, e outubro, com 2.

Para o major da Polícia Militar César Kamakawa, o aumento de apreensões no porto do Paraná tem ligação com o recrudescimento da fiscalização nos vários terminais de embarque marítimo do país, transferindo o interesse dos traficantes para o estado.

Outro fator apontado é a falta de combate ao problema na ponta, na produção. A proximidade fronteiriça, como com o Paraguai, também favorece a circulação do tráfico.

Kamakawa elenca ainda dificuldades para identificação do responsável pelo crime. Na maior parte das vezes, ele aponta, o exportador nem sabe da existência da droga na carga.

Os traficantes aproveitam o momento de descanso dos motoristas de caminhões que levam o carregamento até o porto e chegam até a invadir o terminal de contêineres para colocar a droga dentro das cargas.

Outra modalidade de fazer a cocaína sair do país já foi registrada no Paraná. Com a ajuda dos serviços de inteligência, a fiscalização interceptou 3 toneladas do produto já em Guaratuba, a cerca de 50 km de Paranaguá. “Estavam colocando a droga no contêiner já fora do porto”, conta Kamakawa.

O aumento de operações e a integração dos diversos órgãos que atuam no porto têm tentado dificultar a vida dos traficantes. Autoridades avaliam que, com a identificação das formas de passagem da droga, os criminosos terão que transferir a operação dos portos para outro lugar.

“É um movimento cíclico: eles arrumam novas formas de mandar a droga para o exterior, são pegos e acabam mudando o modo de envio. Pelo porto, eles estão vendo que não está dando resultado”, avalia o delegado-chefe da Polícia Federal de Paranaguá, Gilson Micoski Luz.


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