COBERTURA ESPECIAL - OTAN - Geopolítica

18 de Maio, 2022 - 13:00 ( Brasília )

Turquia busca concessões militares ao se opor à entrada de Finlândia e Suécia na OTAN


A Finlândia e a Suécia oficializaram, nesta quarta-feira (18), seus pedidos de adesão à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), motivados pela invasão russa na Ucrânia. No entanto, o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, continua bloqueando essas integrações.

Em uma breve cerimônia em Bruxelas, na presença de representantes finlandeses e suecos, o secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg, classificou a iniciativa como um "momento histórico". As candidaturas precisam ser aprovadas pelos 30 membros da aliança, o que pode levar até um ano.

O maior obstáculo é a Turquia, abertamente contra a entrada dos dois países nórdicos na organização. É mais por tática de negociação do que por oposição inflexível que a Turquia demonstra seu poder de veto à candidatura dos governos de Estocolmo e de Helsinque.

Publicamente, o presidente turco diz que é por segurança que ele votará “não” à adesão da Suécia e Finlândia ao bloco militar. Mas, com esta mensagem, Erdogan sinaliza que tem interesses a negociar com os Estados Unidos e a União Europeia.

"Espero que os aliados compreendam minhas preocupações", disse o líder turco, nesta quarta, reagindo à oficialização dos pedidos de adesão dos dois países europeus em Bruxelas.

Pelo fim de sanções na compra de armas

Erdogan acusa as duas nações nórdicas de acolher organizações terroristas, numa referência aos integrantes do partido separatista curdo, o PKK. A partir dos anos 80, esses países receberam refugiados políticos curdos. Mais recentemente, em 2019, a Suécia, com apoio dos Estados Unidos, forneceu apoio ao braço armado do PKK na Síria para lutar contra o grupo Estado Islâmico, o que levou a Turquia a estremecer os laços com Washington e também a convocar o embaixador sueco para esclarecimentos no início do ano passado.

Autoridades da Suécia e da Finlândia preveem uma visita à Ancara nos próximos dias para tratar das candidaturas à OTAN. Mas o presidente turco declarou que é melhor nem perderem tempo, porque manifesta querer garantias de antemão. Além de solicitar a extradição de alguns curdos a serem julgados por Âncara – pedido que já foi negado pelas autoridades suecas –, o governo turco também quer de volta a exportação de armas bloqueadas desde o desentendimento na Síria.

Para isso, conta com o fim do embargo militar e também com novos acordos para adquirir armas americanas. Em 2020, a Casa Branca impôs sanções à indústria de defesa turca em retaliação à compra de um sistema antimíssil russo.

Mediação na guerra entre Rússia e Ucrânia

A Turquia se posiciona um pouco do lado de cá e um pouco do lado de lá no atual conflito na Ucrânia. Nas entrelinhas, pede agora apoio dos Estados Unidos e da União Europeia. Quando a aliança militar com o Ocidente estremeceu, nos últimos anos, a Turquia foi excluída do programa americano de aviões de combate F-35.

Justamente quando o Exército turco resolveu comprar armamento russo. Agora, o governo de Âncara está na expectativa da aprovação do Congresso americano para adquirir de Washington jatos de ataque F-16. Em linha com o Ocidente, Erdogan tem oferecido suporte à Ucrânia por meio do envio de armas, em particular drones letais.

Mas é inegável que também demonstre apoio à Rússia, ao se recusar, por exemplo, a aprovar, ao lado dos ocidentais na OTAN, sanções contra Moscou. Neste novo episódio da candidatura da Suécia e Finlândia, Erdogan dá voz ao presidente russo. Vladimir Putin, que pouco falou sobre os possíveis novos integrantes do bloco – criado em 1949 para barrar a expansão soviética na Europa.

Putin só se pronunciou para afirmar que a expansão militar no território vizinho terá certamente resposta. A Finlândia divide 1.350 quilômetros de fronteira terrestre com a Rússia.

Retórica externa para conquistar popularidade interna

Dois temas costumam acompanhar os discursos públicos de Erdogan: a segurança interna e a ameaça externa. A inflação na Turquia atingiu 70% em abril, devido, em grande parte, aos anos de recusa de Erdogan em aumentar as taxas de juros, enquanto esgotava as reservas de moeda.

O país foi atingido pelo aumento global dos custos de energia e bens básicos. Os preços de combustíveis e commodities agrícolas dispararam também por conta da invasão russa na Ucrânia. Em paralelo, a guerra aumentou a importância da Turquia, localizada entre o Ocidente e o Oriente, no cenário internacional.

No conflito, Erdogan desempenha papel de mediador e, ao mesmo tempo em que barra as votações contra Putin, limitou o uso das águas e do espaço aéreo turcos pelos militares russos.

O presidente turco espera garantir sua popularidade enfraquecida ao longo de duas décadas no poder. Ao se mostrar categórico nas suas declarações, ele enaltece o discurso nacionalista, recurso providencial a um ano das eleições presidenciais.


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