COBERTURA ESPECIAL - OTAN - Geopolítica

31 de Janeiro, 2022 - 10:00 ( Brasília )

Por que a Rússia desconfia da OTAN, que tem papel importante no conflito na Ucrânia


Diante da possibilidade de uma invasão na Ucrânia por parte da Rússia, os países da Aliança do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) estão em alerta.

Eles estão avaliando até que ponto devem ir para ajudar a Ucrânia diante de uma possível invasão da Rússia. A aliança, que inclui Estados Unidos, Reino Unido, França e Alemanha, entre outros, está intensificando a preparação militar para potencialmente responder à presença de tropas russas na fronteira entre Rússia e Ucrânia.

Mas, o que é a OTAN e qual sua relação histórica com Moscou?

O que é a OTAN?

A OTAN é uma aliança militar formada em 1949 por 12 países, entre eles EUA, Canadá, Reino Unido e França. Os seus membros têm o compromisso de se defender mutuamente em caso de ataque armado contra qualquer um deles. O objetivo inicial da OTAN era responder à ameaça de expansão da União Soviética na Europa após a Segunda Guerra Mundial.

Em 1955, a União Soviética reagiu à OTAN criando sua própria aliança militar de países comunistas do leste da Europa, com o chamado Pacto de Varsóvia.

Após o colapso da União Soviética em 1991, vários países do antigo Pacto de Varsóvia se tornaram membros da OTAN, como Polônia, Hungria e Estônia. Agora, a aliança conta com 30 países-membros.

Qual o problema atual da Rússia com a OTAN e a Ucrânia?



A Ucrânia é uma antiga república soviética que faz fronteira com a Rússia e a União Europeia. Não é membro da OTAN, mas é um "país-associado", o que significa que pode se unir à aliança no futuro. A Rússia quer garantias por parte das potências ocidentais de que isso nunca ocorrerá, algo que o Ocidente não parece disposto a oferecer.

A Ucrânia tem uma grande população étnica russa e estreitos laços sociais e culturais com a Rússia. Estratégicamente, o Kremlin o enxerga como quintal da Rússia.

O que mais preocupa a Rússia?

O presidente Putin afirma que as potências ocidentais estão utilizando a OTAN para cercar a Rússia e quer que a organização cesse suas atividades militares no leste da Europa.

Ele argumenta há muito tempo que a União Europeia rompeu com uma garantia que deu em 1990 de que a OTAN não faria uma expansão rumo ao leste.

A OTAN rechaça essa afirmação e diz que só um número reduzido de seus Estados-membros compartilham fronteiras com a Rússia, além de sustentar que trata-se de uma aliança defensiva, não ofensiva.

Muitos acreditam que o deslocamento de tropas russas para a fronteira da Ucrânia pode ser uma tentativa de obrigar o Ocidente a levar a sério as demandas de segurança da Rússia.

Qual foi a atuação da OTAN na Rússia e na Ucrânia no passado?

Quando os ucranianos depuseram o seu presidente pró-Rússia no início de 2014, a Rússia anexou a península da Crimeia, ao sul da Ucrânia. Também respaldou separatistas pró-Rússia que ocuparam grandes territórios ao leste da Ucrânia.

A OTAN não interveio, mas respondeu colocando tropas em vários países do leste europeu pela primeira vez.

A aliança ossui quatro grupos de batalha multinacionais do tamanho de um batalhão na Estônia, Letônia, Lituânia e Polônia; e uma brigada multinacional na Romênia.

A OTAN também ampliou sua vigilância aérea nos países bálticos e no leste da Europa para interceptar qualquer avião russo que ultrapasse a fronteira de seus Estados-membros.

A Rússia exige que esse poderio bélico seja retirado daquela região.

Que apoio a OTAN prometeu à Ucrânia diante da ameaça russa?


O presidente dos EUA, Joe Biden, já disse que a Rússia vai "pagar um preço alto" se invadir a Ucrânia. Os EUA colocaram em alerta 8,5 mil soldados prontos para o combate, mas o Pentágono disse que só deslocaria essas tropas se a OTAN decidir ativar uma força de reação rápida.

Acrescentou ainda que não há planos de enviar as tropas para o território ucraniano. A ministra de Relações Exteriores da Alemanha, Annalena Baerbock, advertiu que qualquer nova escalada militar "teria um preço alto para o regime russo: econômico, político e estratégico".

O governo britânico disse que o Reino Unido concorda que "os aliados devem concordar com ações de retaliação rápidas que incluam um pacote de sanções sem precedentes".

A OTAN está unida em relação à Ucrania?

O presidente Joe Biden tem dito que há "unanimidade total" dos EUA e líderes europeus sobre a Ucrânia, mas há diferenças no grau de apoio oferecido pelos países da aliança.

Os EUA dizem que enviaram 90 toneladas de "ajuda letal", incluindo munições, à Ucrânia, e o Reino Unido está disponibilizando mísseis antitanque de curto alcance.

Alguns membros da OTAN, incluindo Dinamarca, Espanha, França e Holanda, estão enviando aviões de combate e tanques de guerra para o leste da Europa, para reforçar a defesa na região.

No entanto, a Alemanha tem rechaçado o pedido de armas defensivas feito pela Ucrânia, em linha com sua política de não enviar armamento letal a zonas de conflito. No lugar, vai enviar ajuda médica.

Enquanto isso, o presidente francês, Emmanuel Macron, tem pedido diálogo com a Rússia, para acalmar os ânimos.

Conselho de Segurança da ONU examina situação na Ucrânia; EUA ameaça Rússia com sanções


O Conselho de Segurança da ONU se reúne nesta segunda-feira (31) a pedido do governo dos Estados Unidos que, ao lado de seus aliados da OTAN, tenta dissuadir a Rússia de invadir a Ucrânia, ao mesmo tempo que prepara sanções contra Moscou.

"Mais de 100.000 tropas russas estão mobilizadas e a Rússia organiza outros atos de desestabilização contra Ucrânia, o que constitui uma ameaça à paz, à segurança internacional e à Carta da ONU", afirmou a embaixadora americana nas Nações Unidas, Linda Thomas-Greenfield.

Diante da ameaça de invasão, a Ucrânia pediu no domingo à Rússia que retire suas tropas e mantenha o diálogo com os países ocidentais se "realmente" deseja reduzir a tensão.

Estados Unidos e Reino Unido ameaçaram adotar novas sanções contra a Rússia. Autoridades britânicas afirmaram que terão como alvos os diversos interesses econômicos russos.

Em Washington, congressistas democratas e republicanos anunciaram que o Congresso está perto de alcançar um acordo sobre um projeto de lei que prevê novas sanções econômicas contra a Rússia.

Entre a bateria de sanções mencionadas, o Reino Unido e os Estados Unidos apontam ao gasoduto estratégico Nord Stream 2 entre a Rússia e a Alemanha ou inclusive o acesso russo a transações em dólares, principal moeda do comércio internacional.

Diante das novas ameaças, Moscou exigiu ser tratado em igualdade de condições por Washington.

"Queremos relações boas, equitativas, de respeito mútuo com os Estados Unidos, como com todos os países do mundo", declarou o ministro russo das Relações Exteriores, Serguei Lavrov.

A Rússia "não quer permanecer em uma posição" na qual sua segurança "seja violada diariamente", continuou Lavrov.

Desinformação

Nesta segunda-feira a Rússia provavelmente tentará impedir a reunião dos 15 membros do Conselho de Segurança, mas o organismo "está unido", segundo a embaixadora americana.

"Nossas vozes estão unidas para pedir aos russos uma explicação", disse Thomas-Greenfield.

"Vamos entrar no salão dispostos a ouvir. Mas não vamos ser distraídos por sua propaganda", afirmou.

"E estaremos preparados para responder a qualquer desinformação que tentem apresentar durante a reunião", advertiu.

A Rússia é acusada desde o final de 2021 de ter concentrado cerca de 100.000 soldados na fronteira ucraniana para preparar um ataque. Moscou nega ter qualquer intenção bélica, mas exige garantias por escrito para sua segurança.

As demandas russas começam por um compromisso de não adesão da Ucrânia à OTAN e o fim do processo de fortalecimento da presença da Aliança Atlântica nos países do leste europeu.

As exigências foram rejeitadas pelos Estados Unidos e o Kremlin ainda está estudando a resposta à negativa.

A subsecretária de Estado americana, Victoria Nuland, disse que há "sinais" de que a Rússia estaria interessada em um diálogo sobre a resposta do Estados Unidos e da OTAN.

O secretário de Estado, Antony Blinken, e o ministro russo das Relações Exteriores, Serguei Lavrov, "conversarão a respeito provavelmente esta semana", acrescentou Nuland.

O presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado, Bob Menéndez, pediu que o governo dos Estados Unidos apresente uma advertência à Rússia de que qualquer agressão contra a Ucrânia custará muito caro.

"Não podemos voltar a ter um novo momento Munique", disse o senador ao canal CNN, em referência ao acordo de 1938 da França, Itália e Reino Unido com Adolf Hitler, pelo qual a Alemanha assumiu o controle de parte do território tcheco.

"Putin não vai parar na Ucrânia", acrescentou.

Mobilização de tropas

Vários países ocidentais anunciaram nos últimos dias o envio de soldados para o leste da Europa.

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, deve propor esta semana o envio de tropas para responder ao aumento da "hostilidade russa" contra a Ucrânia.

O anúncio foi cumprimentado pelo secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg, e pelo ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Dmytro Kuleba.

O chefe da diplomacia francesa, Jean-Yves Le Drian, sua colega alemã, Annalena Baerbock, e o primeiro-ministro polonês, Mateusz Morawiecki, viajarão esta semana a Kiev.

A ministra da Defesa canadense, Anita Anand, cujo país dá assistência militar à Ucrânia, chegou à Ucrânia no domingo para uma visita de dois dias.

Ela anunciou que o Canadá mobilizou tropas militares no oeste da Ucrânia e a repatriação temporária dos funcionários não essenciais de sua embaixada em Kiev.


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