A madrugada em que tudo convergiu no tempo e local certo na Venezuela

Frederico Chaves Salóes do Amor
Mestre em Ciências Militares
Especialista em Guerra Irregular


Na madrugada entre os dias 2 e 3 de janeiro, a Venezuela tornou-se palco de uma das operações militares mais sensíveis, complexas e politicamente impactantes das últimas décadas no hemisfério ocidental. Em uma ação conduzida sob absoluto sigilo, forças dos Estados Unidos desencadearam uma operação conjunta e interagências que integrou ataques aéreos de precisão, supressão de defesas aéreas, guerra eletrônica, operações cibernéticas e a inserção de Forças de Operações Especiais em pleno centro político e administrativo de Caracas. Em poucas horas, a arquitetura de liderança do regime venezuelano foi desarticulada, com centros decisórios isolados, comunicações interrompidas e uma reposta débil, capaz de despertar o interesse de diversos analistas.

O desfecho foi a captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, em uma ação rápida, cirúrgica e cuidadosamente delimitada. No núcleo da manobra terrestre esteve uma unidade cuja atuação simboliza o emprego máximo da capacidade tática das forças especiais norte-americanas: o 1º Destacamento Operacional de Forças Especiais – Delta (1st Special Forces Operational Detachment–Delta), amplamente conhecida como Delta Force.

A denominação “Destacamento Delta” possui origem organizacional, histórica e doutrinária. No Exército dos Estados Unidos, um batalhão de Forças Especiais é estruturado a partir de Destacamentos Operacionais – Alfa (Operational Detachments Alpha), que constituem a menor fração capaz de operar de forma independente em missões de Operações Especiais. Esses destacamentos são organizados de maneira modular, permitindo flexibilidade e adaptação a diferentes ambientes operacionais. A Delta Force surge como uma unidade singular, comandada por um Coronel, com uma estrutura similar ao 22º Regimento Special Air Service (SAS) britânico. Sua estrutura, embora classificada, mantém a lógica de pequenas equipes altamente especializadas, capazes de operar com extrema autonomia, contando com pessoal selecionado e especializado em Ação Direta (Assalto, Captura e Resgate), Reconhecimento e Caçador de Operações Especiais.

Ela foi concebida para missões que extrapolam o espectro tradicional das Forças Especiais, especialmente ações diretas, contraterrorismo e captura de alvos de alto valor estratégico. A Delta Force integra o Comando de Operações Especiais do Exército dos Estados Unidos (United States Army Special Operations Command) mas seu emprego é controlado pelo Comando Conjunto de Operações Especiais (Joint Special Operations Command – JSOC), uma estrutura no nível tático-operacional permanente responsável pela condução das operações mais sensíveis e politicamente delicadas dos Estados Unidos. O JSOC, por sua vez, constitui o braço operativo Comando de Operações Especiais dos Estados Unidos (United States Special Operations Command – USSOCOM), permitindo o emprego integrado de capacidades altamente especializadas disponíveis não só no Departamento de Defesa. Na operação da Venezuela, essa arquitetura institucional foi determinante para que a Delta Force atuasse como o elemento tático decisivo de um esforço político-estratégico mais amplo.

Estrutura do Comando de Operações Especiais dos Estados Unidos

Para compreender a lógica que orientou a ação da Delta Force em Caracas, é indispensável recorrer à Teoria das Operações Especiais formulada pelo Almirante William H. McRaven, especialmente em sua obra escrita em 1995, Spec Ops: Case Studies in Special Operations Warfare. McRaven sustenta que o sucesso das Operações Especiais não decorre da superioridade numérica ou tecnológica, mas da obtenção de superioridade relativa no ponto e no momento decisivo. Essa superioridade é temporária, localizada e construída deliberadamente, permitindo que uma força menor imponha sua vontade sobre um adversário maior, mais bem posicionado ou numericamente superior. Para viabilizar essa condição, McRaven identifica seis princípios fundamentais cuja aplicação integrada reduz a fricção inerente à guerra e amplia exponencialmente a probabilidade de êxito. A operação conduzida pela Delta Force na Venezuela oferece um exemplo contemporâneo e didático da aplicação rigorosa desses princípios no nível estritamente tático.

Superioridade Relativa


O primeiro princípio, a simplicidade, ocupa posição central na teoria de McRaven. Planos simples são mais facilmente compreendidos, executados e adaptados sob condições de estresse extremo. No estudo de caso do ataque alemão ao Forte Eben Emael, em 1940, McRaven demonstra como a definição clara e restrita de objetivos permitiu que um pequeno destacamento neutralizasse uma fortificação considerada inexpugnável. Na Venezuela, a simplicidade esteve presente na formulação da missão atribuída à Delta Force: identificar, isolar, capturar e extrair o alvo principal. Não houve dispersão de esforços, nem objetivos paralelos que pudessem comprometer o foco da ação. Essa simplicidade reduziu a necessidade de comunicações complexas durante o assalto, acelerou a tomada de decisão no contato inicial e contribuiu decisivamente para a manutenção do ritmo operacional.

Nicolás Maduro capturado

O segundo princípio é o da segurança. Para McRaven, segurança não significa apenas sigilo absoluto, mas a negação sistemática ao inimigo de informações críticas relacionadas ao tempo, local e método da operação. No ataque italiano ao porto de Alexandria, em 1941, a preservação do segredo foi decisiva para o sucesso da missão, mesmo diante de defesas robustas. Na operação venezuelana, a segurança foi garantida por meio de uma inteligência de alta qualidade, desencadeada pela Divisão de Ações Especiais, da Agência Central de Inteligência (Special Activities Division – CIA), por umaa compartimentação extrema, controle rigoroso do fluxo de informações e integração profunda entre inteligência estratégica e planejamento tático. A ausência de resistência organizada nos momentos iniciais do assalto indica que, dentre outros aspectos do nível político e estratégico, a Delta Force conseguiu preservar o segredo até o último instante, impedindo uma resistência coordenada das forças leais ao regime, algo significativamente diferente da ação protagonizada pela mesma Delta Force em 1989, na captura de Manuel Noriega, no Panamá.

Sistema de Defesa Anti-Aérea de origem russa destruído por ataques aéreos norte-americanos


O terceiro princípio, a repetição, refere-se à preparação exaustiva da força antes da execução. McRaven enfatiza que a repetição reduz a incerteza, automatiza procedimentos e libera capacidade cognitiva para lidar com o inesperado. O resgate em Entebbe, em 1976, é apresentado como exemplo clássico desse princípio. Na ação em Caracas, há fortes indícios de que a operação foi ensaiada por meses, fazendo valer um dos lemas da Delta Force: “nós não treinamos para acertar, treinamos para que seja impossível errar”, com simulações realistas de ambientes urbanos, perfis de voo noturno, técnicas de entrada forçada e procedimentos de captura de alvos de alto valor. Essa preparação permitiu à Delta Force executar a missão com fluidez, precisão e confiança, reduzindo drasticamente o tempo de exposição no objetivo.

Treinamento da Força Delta


O quarto princípio é o da surpresa, elemento essencial para a obtenção da superioridade relativa. Para McRaven, a surpresa deve ser tanto física quanto psicológica, desorientando o adversário e quebrando sua capacidade de reação. No ataque britânico a St. Nazaire, em 1942, a surpresa inicial permitiu que forças numericamente inferiores infligissem danos estratégicos significativos. Em Caracas, a surpresa foi amplificada pela integração de ações cinéticas e não cinéticas. Ataques aéreos seletivos degradaram defesas e comunicações, enquanto a guerra eletrônica e cibernética criou um ambiente de confusão informacional. Quando a Delta Force atingiu o objetivo, o adversário já se encontrava desorganizado e incapaz de compreender a natureza da ação em curso.

Helicópteros norte-americanos fazem infiltração furtiva


O quinto princípio, a velocidade, está diretamente associado à surpresa e à simplicidade. McRaven demonstra, no resgate de Benito Mussolini no Gran Sasso, como a rapidez da ação compensou limitações logísticas e numéricas. Na Venezuela, a Delta Force operou com extrema velocidade, reduzindo a janela de reação do adversário a praticamente zero. A sequência inserção–assalto–captura–extração foi conduzida em um intervalo de tempo extremamente curto, impedindo qualquer reorganização das forças de segurança venezuelanas. A velocidade, nesse contexto, não foi improvisada, mas resultado direto de planejamento simples, repetição exaustiva, elevada proficiência tática e coordenação sinérgica no multidomínio.

Nicolás Maduro dentro de um Helicóptero dos Estados Unidos da América


O sexto princípio é o do propósito. Para McRaven, propósito significa que cada combatente compreenda claramente o objetivo da missão e está moralmente comprometido com sua execução. No resgate dos prisioneiros em Cabanatuan, durante a Segunda Guerra Mundial, o propósito compartilhado foi decisivo para sustentar o esforço sob risco elevado. Na operação venezuelana, o propósito tático da Delta Force era inequívoco: capturar o centro de gravidade político representado pela liderança do regime. Essa clareza reforçou a coesão da equipe tática, orientou o emprego da força e manteve o foco absoluto na missão.

Autoridades norte-americana acompanham as ações


A análise da operação na Venezuela evidencia que o êxito tático da Delta Force não foi fruto do acaso ou produto exclusivo de superioridade tecnológica ou informacional. Ele decorreu da aplicação rigorosa e integrada dos princípios clássicos das operações especiais no nível tático. A Delta Force atuou como instrumento de precisão, explorando janelas temporárias de vantagem, obtidas em um contexto multidomínio, para impor sua vontade sobre um adversário desorganizado e incapaz de reagir de forma eficaz.
Entretanto, essa ação não pode ser compreendida de forma isolada. O emprego da Delta Force integrou-se a uma arquitetura operacional mais ampla, alinhada à Doutrina de Operações Multidomínio. A ação terrestre foi apenas um dos vetores de um esforço que integrou os domínios terrestre, aéreo, marítimo, espacial e eletro-cibernético-cognitivo. Conceitos como convergência de efeitos, comando e controle distribuído, integração conjunta e sincronização temporal foram decisivos para criar as condições que permitiram à Delta Force alcançar a superioridade relativa no ponto decisivo.

Operações Multidomínio


Sob essa perspectiva ampliada, a teoria das operações especiais de McRaven dialoga de forma direta com o pensamento clássico de Carl von Clausewitz, especialmente com os conceitos de fricção, névoa da guerra, centro de gravidade e economia de forças. A superioridade relativa pode ser compreendida como um mecanismo prático de redução da fricção clausewitziana no ponto decisivo do combate. Ao empregar simplicidade, surpresa, velocidade e propósito, a Delta Force atuou deliberadamente para minimizar os efeitos do acaso, do erro humano e da incerteza, elementos centrais da guerra segundo Clausewitz. A captura do centro de gravidade político do regime venezuelano representa a aplicação direta desse conceito clássico, traduzido em ação tática precisa.

Por fim, a operação reafirma que, mesmo em um ambiente profundamente transformado pela tecnologia e pela multidominialidade, a guerra permanece essencialmente um ato humano, subordinado à política e marcado por decisões sob pressão. A teoria de McRaven não substitui Clausewitz, pelo contrário ela operacionaliza seus conceitos no campo das operações especiais. A superioridade relativa surge como resposta prática à névoa da guerra, permitindo impor ordem temporária ao caos do combate. A ação da Delta Force na Venezuela demonstra que o sucesso das operações especiais modernas resulta da convergência entre teoria clássica e inovação operacional, reafirmando a atualidade de Clausewitz e a relevância de McRaven para compreender a guerra no século XXI.

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