COBERTURA ESPECIAL - Nuclear - Tecnologia

04 de Agosto, 2020 - 20:41 ( Brasília )

ELETRONUCLEAR Comemora 23 Anos com Recordes e Mirando em novos Desafios



Davi de Souza
davi@petronoticias.com.br
Petronotícias

 
O dia 1º de agosto sempre terá um espaço especial na memória de uma legião de engenheiros, técnicos e profissionais do setor nuclear brasileiro. Nessa data, no ano de 1997, essa indústria entrava em uma nova etapa com a criação da Eletronuclear. A empresa ainda era uma recém-nascida, mas já tinha em mãos um desafio de gente grande. De um lado, caberia à companhia mudar os rumos da usina de Angra 1, que viveu seus primeiros anos de operação com uma série de obstáculos e conviveu com o apelido nada agradável de “vaga-lume”.

 

 

Leonam dos Santos Guimarães


Do outro, a empresa também tinha a obrigação de concluir as obras de Angra 2, que acumulava anos de ritmo lento naquela altura. A história mostra o desfecho dessa parte do enredo. Angra 1 passou por adequações e hoje colhe os resultados: bateu recorde de produção em 2019 e atingiu um fator de capacidade de 98,21% no período. Angra 2, por sua vez, entrou em operação em 2001 e foi fundamental naquele período para o fornecimento elétrico no Brasil, que vivia a Crise do Apagão. Isso sem contar os recordes e as aparições no Top 10 de maiores usinas nucleares do mundo.

Por isso, hoje (04JUL2020) o Petronotícias vai resgatar um pouco dessa história, conversando com pessoas que acompanharam a empresa de perto. Antonio Muller, por exemplo, participou do desenvolvimento de Angra 1 e Angra 2, na época ainda como executivo de Furnas. Ele foi testemunha do nascimento da Eletronuclear e do importante papel da empresa para o setor. “A Eletronuclear foi criada com uma capacitação muito forte, porque juntou duas empresas muito capazes e com muita bagagem técnica – FURNAS e NUCLEN. A Eletronuclear terminou Angra 2 de maneira muito competente”, afirmou.

A Eletronuclear é um orgulho para todos que trabalham no setor nuclear, porque existe uma competência muito grande dentro da empresa”, concluiu.

Para relembrar as conquistas do passado e contar o que vem pela frente, também conversamos com o presidente da Eletronuclear, Leonam Guimarães. Ele cita, por exemplo, o impacto positivo das usinas para a economia fluminense e para o município de Angra dos Reis. Ironias do destino, a região onde estão instaladas as duas plantas (Itaorna) era iluminada por lampiões na década de 1970. Hoje, é de lá que sai cerca de 60% da energia consumida no Rio de Janeiro. “Lembrando do passado, um fato curioso é que antes de começarem as obras existia um forte desmatamento nas montanhas ao redor da praia. Mas hoje você vê a exuberância da floresta.

Ou seja, energia nuclear também faz bem às árvores”, afirmou Guimarães, em tom descontraído. O presidente também nos contou os próximos passos e que, para alcançá-los, conta com a competência do time da Eletronuclear: “Agora, vivemos um novo desafio, que é construir Angra 3 e fazer com que a planta tenha um desempenho superior ao de Angra 2. Ou seja, isso só pode ser feito com pessoas competentes e motivadas”, disse.

Vamos começar com a entrevista com Leonam Guimarães:
 
A Eletronuclear foi criada depois da fusão entre a área nuclear de FURNAS e a NUCLEN, em 1997. Queria que o senhor nos contasse um pouco da importância da criação da empresa e os avanços operacionais desde então.

A decisão de criar a empresa estava fortemente ligada a fatores daquela época. O primeiro era o fato de que as obras de Angra 2 estarem paradas. Não estavam totalmente paralisadas, mas estavam em um ritmo muito lento nos últimos dez anos, ao final da década de 80.

Simultaneamente, Furnas foi incluída no programa de desestatização. Então, a decisão do governo na época foi tirar a parte nuclear de Furnas para viabilizar o seu processo de privatização – que acabou não acontecendo naquela época. Com a ideia de criar a nova empresa, a meta era concluir as obras de Angra 2. E assim foi feito.

Foi um período bastante conturbado, porque juridicamente é complexo criar uma empresa por meio da cisão de duas companhias. Tivemos a judicialização da questão. Foi um tema bastante polêmico na época mas, no fim, acabou dando tudo certo.

Eu posso apontar dois grandes êxitos a partir da criação da empresa. O primeiro foi a efetiva entrada em operação de Angra 2, em 2001. Coincidentemente, isso aconteceu no momento em que o Brasil vivia aquilo que foi chamado de apagão. Ou seja, a entrada de Angra 2 naquele momento foi extremamente benéfica para a gestão da crise, porque injetamos uma grande quantidade de potência em uma região próximo ao centro de carga [São Paulo e Rio de Janeiro]. A usina foi uma ferramenta de gestão muito importante naquele momento.

Outro êxito é que, a partir daí, o desempenho de Angra 1 começou a melhorar sensivelmente. É do conhecimento de todos que Angra 1, no início de sua vida, em 1985, sofreu vários problemas técnicos e foi até maldosamente apelidada de “vaga-lume”. Mas a partir do final dos 1990 e, coincidentemente com a criação da Eletronuclear, o desempenho de Angra 1 veio crescendo e se estabilizando em patamares elevados. Até que, no ano passado, Angra 1 bateu seu recorde de geração, com fator de capacidade muito elevado.

Como o senhor disse, Angra 1 teve um início de vida com alguns percalços operacionais. Mas, no ano passado, vocês alcançaram um recorde de produção. Poderia falar um pouco do papel da Eletronuclear nessa evolução da usina?

O grande marco de Angra 1 foi a substituição dos geradores de vapor. Os geradores de Angra 1 e de todas as usinas de sua geração sofriam de uma deficiência do projeto, que era o material utilizado nos tubos de gerador a vapor. Era uma liga que foi escolhida na época do projeto, no início da década de 70, e a experiência operacional demonstrou que não era a mais adequada. Então, uma quantidade enorme de geradores das usinas contemporâneas de Angra 1 foi substituída. Aqui no Brasil, durante muito tempo a usina operou com restrições na sua capacidade, justamente por causa desse problema. A planta operava com apenas 80% e fazia duas paradas por ano, o que tornava seu desempenho bastante deficiente.

Mas, a partir de 2009, quando foi feita a substituição dos geradores de vapor, a usina passou a ter condições de operar com toda sua capacidade. A partir daí, só vemos melhoras no desempenho operacional de Angra 1, chegando ao recorde que registramos em 2019.
 
A usina de Angra 2, que também teve recordes recentes, está perto de completar 20 anos de operação e tem uma performance sempre muito elogiada no meio nuclear. Ao que se deve isso?

Uma usina nuclear ou qualquer empreendimento industrial tem, no primeiro ano, um desempenho relativamente ruim, mas que depois vai melhorando com o tempo, a partir das experiências. Isso é o normal. Mas Angra 2 saiu desse normal. Sua energia era muito necessária naquele momento (2001) e alcançou um fator de capacidade já superior a 90% no seu primeiro ano. É um caso único na indústria nuclear. Isso ressalta a qualidade do projeto de Angra 2 e a competência técnica das pessoas daquela época, que participaram da construção, montagem e comissionamento da planta.

O projeto de Angra 2 é posterior ao de Angra 1. É mais moderno e incorpora uma série de experiências operacionais das usinas de geração anterior. Então, o projeto de Angra 2 é de uma qualidade técnica elevada. Foi um projeto voltado à otimização de desempenho, que era o grande objetivo do seu projetista alemão, que era na época a Siemens KWU.

Não é só Angra 2 que tem um desempenho excelente, mas suas congêneres alemãs, espanholas, suíças e holandesas também têm um desempenho bastante elevado, o que demonstra a sabedoria da escolha dos parâmetros do projeto usado pela Siemens KVU naquela época. Esse foi o fator crucial, que se junta à competência e experiência que foi obtida com a operação de Angra 1, que se incorporaram na construção e operação de Angra 2.

A imprensa da década de 70 narrava que a região onde estão as usinas (Itaorna) tinha uma vila que era iluminada por lampiões. Curiosamente, Angra 1 e 2 hoje levam energia para 60% do estado do Rio de Janeiro. Gostaria que falasse do papel da Eletronuclear de levar desenvolvimento e energia para a região de Angra e do estado como um todo.





Fato curioso: antes das usinas, desmatamento nas montanhas. Depois delas, vegetação exuberante no entorno da praia

A indústria nuclear no Brasil é relativamente pequena, corresponde a cerca de 3% da geração elétrica. Mas quando vamos para o estado do Rio de Janeiro, o peso da indústria nuclear é muito significativo. Além da Eletronuclear, localizada em Angra dos Reis, temos a Indústrias Nucleares do Brasil (INB), em Resende; a NUCLEP, em Itaguaí; e ainda a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) é sediada no Rio também. Então, o peso econômico da energia nuclear no estado do Rio de Janeiro é muito significativo. A indústria nuclear, e Angra 1 e Angra 2 fazem parte disso, tem um impacto socioeconômico bastante significativo para o estado.

O Rio de Janeiro é a capital da energia porque concentra praticamente toda a indústria nuclear, com exceção das minas de urânio. Esse papel é bastante importante, especialmente em Angra dos Reis. É uma cidade de 120 mil habitantes, onde existem três grandes empreendimentos industriais: a Eletronuclear, o estaleiro BrasFELS e o terminal da Petrobrás (Tebig).

Lembrando do passado, um fato curioso é que antes de começarem as obras da usina existia um forte desmatamento nas montanhas ao redor da praia. Era causado na época pelo corte da madeira para lenha e para construção de barcos e coisas do tipo. Mas hoje você vê a exuberância da floresta no entorno da praia de Itaorna. Ou seja, energia nuclear também faz bem às árvores e ao meio ambiente.
 
O senhor poderia nos contar os detalhes sobre a nova campanha que a Eletronuclear está lançando hoje?


O objetivo da campanha é buscar uma maior proximidade com a população, por meio de informações sobre a história da empresa, e em especial, nesse momento difícil, destacar a nossa atuação durante a pandemia. Nós adotamos medidas porque a pandemia é uma ameaça à segurança. E o nosso negócio se fundamenta na segurança. Estamos com excelentes resultados com relação à proteção, tanto na manutenção da produção como também na proteção dos funcionários e seus familiares. Além do apoio social nas comunidades ao nosso entorno.

A campanha vai durar todo o mês de agosto e será exclusivamente no ambiente digital. Teremos algumas ações, como a criação do hotsite institucional, onde vamos contar a história da Eletronuclear e explicar o que é a energia nuclear e sua importância. Também vamos exibir episódios da série “Vidas”, valorizando alguns os profissionais que fazem parte dos 23 anos da Eletronuclear.

"O conceito da campanha é: qual é a energia que moveu você nos últimos anos?"

Poderia também deixar uma mensagem para os colaboradores da empresa e também para as pessoas que um dia contribuíram com a Eletronuclear?

Para aqueles trabalhadores do passado, que foram os pioneiros, eu tenho certeza que é um grande motivo de orgulho para eles ver a situação atual da empresa e a importância que a Eletronuclear vem assumindo ao longo do tempo para o país como um todo. Temos ainda alguns desses profissionais pioneiros que continuam trabalhando. Costumo chamá-los de decanos. O nosso diretor de operações, João Carlos, tem mais de 40 anos de trabalho na empresa.

Isso também é motivo de orgulho para quem está trabalhando hoje. A grande mensagem importante é que uma empresa é um agrupamento de pessoas. Ela é tão boa quanto as pessoas que fazem parte dela. O fato de termos resultados tão positivos significa que o desempenho individual das pessoas é também muito positivo. Trabalhamos com um grupo motivado de pessoas, que são competentes e que gostam de enfrentar desafios.

A Eletronuclear sempre foi movida a desafios. Começamos com o desafio de construir Angra 2 e de transformar Angra 1 em uma usina de desempenho de classe internacional. Esses dois desafios foram vencidos. Agora, vivemos um novo desafio, que é construir Angra 3 e fazer com que a planta tenha um desempenho superior à Angra 2. Ou seja, isso só pode ser feito com pessoas competentes e motivadas. Os resultados nos mostram que todos nossos colaboradores têm um elevado grau de competência e alto grau de motivação, nos permitindo sonhar com desempenhos superiores no futuro.

Agora, vejamos o depoimento de Antônio Muller:

 



Aproximadamente no ano de 1966, se começou a falar de usinas nucleares em Furnas. Foram feitas várias análises, comparações com térmicas, etc. A responsabilidade pela implantação na época não era de Furnas, mas sim da CNEN. Diante do sucesso de implantação de usinas em Furnas, o governo transferiu essa responsabilidade de implantar planas nucleares para Furnas.
 
A partir deste momento, por volta de 1967, começamos a estudar o tema. Foi feito um treinamento e preparação das especificações para a concorrência. Eu participei da preparação das especificações e depois da análise dos fornecedores. Foram vários fornecedores de várias tecnologias, até escolhermos o reator de água pressurizada (PWR).

Então, começamos a implantar a usina Angra 1. Na época, Itaorna não tinha nada. Para se ter ideia, nós íamos de avião monomotor até o Frade e depois íamos de carro para Itaorna. Às vezes não conseguíamos ir pela estrada e tínhamos que ir pelo mar.

Em certa altura, o projeto de Angra 1 já estava andando a todo o vapor nos Estados Unidos. Naquela época, já tinha sido autorizado começar a negociar uma possível Angra 2. Era uma usina prevista para 950 MW. Estávamos negociando com duas empresas, até que recebi um Telex do então ministro de Minas e Energia, Shingeaki Ueki, no final de 1974. Deveríamos parar as negociações nos Estados Unidos porque o Brasil iria assinar o acordo com a Alemanha.

Eu fui chamado de volta ao Brasil para participar de Angra 2 e passei a ser o gerente geral de Angra 1, Angra 2 e Angra 3. Implantamos Angra 1 e depois partimos para Angra 2. A primeira missão foi a fundação. Era impressionante, porque era uma fundação com 2600 estacas de 60 metros de comprimento e 1,3 metro de diâmetro.

Em 1975, foram criadas várias empresas subsidiárias da Nuclebrás. Uma delas foi a NUCLEN (Nuclebrás Engenharia). Era uma empresa projetista contratada por Furnas para Angra 1, Angra 2 e Angra 3. E há 23 anos atrás o governo tomou a decisão de unir a capacitação da NUCLEN e de FURNAS para criar a Eletronuclear.

A Eletronuclear foi criada com uma capacitação muito forte, porque juntou duas empresas muito capazes e com muita bagagem técnica. A Eletronuclear terminou Angra 2 de maneira muito competente. E dá um show de operação, batendo recordes continuados. A Eletronuclear é um orgulho para todos que trabalham no setor nuclear, porque existe uma competência muito grande dentro da empresa.


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