“Voando no Limite: FAB Quer Levar o F-5M Até 2035 — Estratégia ou Risco Anunciado?”

Fiel Observador

A decisão da Força Aérea Brasileira de manter os caças F-5EM/FM em operação até 2035 merece uma análise fria, técnica e estratégica — especialmente diante da realidade operacional atual. O F-5 foi um pilar da aviação de caça brasileira. Muitos dos atuais “caçadores” no Alto Comando da FAB foram forjados nessa plataforma. Mas há uma diferença entre reconhecer a importância histórica dos Tigres II e insistir em estender sua vida útil até o limite estrutural e operacional.

O Brasil adquiriu seus primeiros Northrop F-5 na década de 1970, em plena Guerra Fria. Derivado conceitualmente do treinador supersônico Northrop T-38 Talon, o F-5 representava uma solução leve, ágil, supersônica e relativamente econômica para a defesa aérea. Ao longo das décadas, tornou-se a espinha dorsal da caça brasileira.

Nos anos 2000, com o programa de modernização conduzido pela Embraer e pela Elbit Systems, surgiu o padrão F-5EM/FM, incorporando novo radar, aviônicos digitais, capacidade BVR (Além do Alcance Visual) e integração de armamentos mais modernos, como o Derby. Foi uma solução inteligente para ganhar tempo enquanto o país definia seu caça de próxima geração.

E os resultados operacionais foram expressivos. A FAB acumulou desempenhos respeitáveis em exercícios internacionais como a Red Flag, na Nellis Air Force Base, onde pilotos brasileiros demonstraram elevado nível tático e disciplina operacional. Nos exercícios Cruzex, o F-5EM/FM esteve no centro da doutrina de emprego, com destaque para o tradicional 1º/14º GAV, que consolidou reputação de excelência no emprego da aeronave.

O problema não é o passado — é o futuro.

Manter o F-5EM/FM até 2035 significa operar células cujo projeto básico remonta aos anos 1960, com décadas de uso estrutural acumulado. Mesmo com programas de reforço e inspeção, fadiga estrutural não é opinião — é física. A disponibilidade tende a cair progressivamente. Peças tornam-se escassas. Custos logísticos aumentam. A manutenção se torna mais complexa e menos previsível.

Além disso, há o fator risco. Incidentes recentes evidenciam que operar aeronaves envelhecidas exige margens técnicas cada vez mais estreitas. Não se trata de questionar a competência dos pilotos ou da logística — a FAB é reconhecida justamente pela excelência de seus quadros. O ponto central é que a equação risco-benefício se deteriora com o tempo. Quanto mais se estende a vida de um vetor antigo, maior a exposição operacional, tanto para tripulações quanto para a população nas áreas sobrevoadas.

Do ponto de vista estratégico, a extensão até 2035 também cria uma lacuna preocupante. O ritmo de incorporação do Caça F-39 Gripen ainda é limitado. Se a frota moderna não crescer em quantidade suficiente, a defesa aérea poderá permanecer dependente de uma plataforma cuja capacidade de sobrevivência em cenário de alta intensidade é cada vez mais questionável. Não basta voar; é preciso sobreviver.

O F-5EM/ cumpriu sua missão com honra. Formou gerações de pilotos, forjou líderes e projetou a aviação de caça brasileira no cenário internacional. Mas toda aeronave tem um ciclo de vida. Insistir em alongá-lo além do razoável pode transformar um símbolo de excelência em um passivo operacional.

Talvez 2035 devesse marcar não apenas a despedida definitiva do clássico F-5, mas também a consolidação de uma nova era. Porque, convenhamos: se o F-5 vai sair em 2035, o mínimo que os pilotos da FAB esperam é que a próxima sigla comece com F também — e, quem sabe, termine em 35. Afinal, sonhar com o F-35 Lightning II ainda não custa hora de voo.

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