Tão preciosos ecustosos como a plataforma, talvez mais, pela esmerada e longa formação os pilotos de caça são as joias de uma Força Moderna. Foto CECOMSAER
Nelson During
Editor-Chefe DefesaNet
A missão constitucional da Força Aérea Brasileira (FAB) é defender o espaço aéreo nacional. Para isso, o País mantém uma estrutura com mais de 70 mil militares e 322 organizações militares.
Diante dessa dimensão, uma informação recebida pelo DefesaNet exige explicações: apenas quatro pilotos por ano são selecionados para ingressar na primeira linha da aviação de caça, preenchendo as vagas dos dois esquadrões que operam os F-5EM/FM?
Cerca de 12 pilotos passam anualmente pelo Curso de Especialização Operacional na Aviação de Caça (CEO-CA), realizado em Natal (RN). Depois, seguem para os esquadrões que operam o A-29 Super Tucano, conhecidos como “Terceiros”, nas bases aéreas de Campo Grande (MS), Porto Velho (RO) e Boa Vista (RR), onde acumulam experiência operacional. É desse grupo que saem os pilotos destinados à aviação de caça de primeira linha.
Formação e efetivos
O CEO-CA é conduzido pelo Esquadrão Joker (2º/5º Grupo de Aviação), na Base Aérea de Natal, em Parnamirim (RN). Pilotos recém-formados pela Academia da Força Aérea (AFA) recebem instrução em A-29 Super Tucano e desenvolvem competências para o emprego da aviação de combate, incluindo missões ar-solo e ar-ar.
Após o curso, seguem para os chamados “Terceiros”, onde cumprem missões operacionais e acumulam experiência. Dessas unidades, apenas quatro pilotos estão sendo selecionados anualmente para os dois esquadrões de F-5M: o 1º Grupo de Aviação de Caça, na Base Aérea de Santa Cruz (RJ), e o 1º/14º Grupo de Aviação, na Base Aérea de Canoas (RS).
Se confirmada, essa proporção pode representar um gargalo na renovação dos quadros. O dado precisa ser analisado à luz do efetivo das unidades, das necessidades de reposição, do tempo de formação e da demanda operacional.
A formação de um piloto de combate é longa e dispendiosa. A seleção dos melhores profissionais é indispensável, mas deve estar associada a um fluxo suficiente para atender às necessidades operacionais da Força e preservar a experiência acumulada.
Seria a FAB a Força Aérea que menos forma pilotos de caça de primeira linha em toda a América Latina? O número reduzido decorre da falta de necessidade operacional, de problemas de planejamento ou de limitações na capacidade de formação e operação?
Gripen: uma transição com novos requisitos
A preocupação aumenta com a incorporação do F-39 Gripen, a desativação prevista dos AMX em 2027 e a retirada progressiva dos F-5EM/FM. A modernização da frota precisa ser acompanhada pela preparação dos profissionais que operarão as novas aeronaves.
O Gripen representa um avanço tecnológico, mas sua capacidade de combate depende da qualificação dos pilotos. A transição reúne profissionais com experiências distintas: os pilotos de F-5EM/FM estão familiarizados com missões de defesa aérea e combate ar-ar, enquanto os oriundos do AMX desenvolveram sua experiência principalmente em ataques ao solo. O AMX não dispõe de radar de interceptação nem oferece capacidades de combate além do alcance visual, conhecido como BVR (Beyond Visual Range).
Segundo informações recebidas pelo DefesaNet, essa diferença tem criado dificuldades na conversão operacional de pilotos oriundos do AMX destinados ao 1º Grupo de Defesa Aérea (1º GDA), responsável pelo Gripen.
O desafio não é apenas aprender a operar uma nova aeronave, mas desenvolver competências no emprego integrado de sensores, nas táticas de defesa aérea e no combate BVR. A conversão deve considerar a experiência prévia de cada piloto, com treinamento específico e critérios rigorosos de qualificação. Não trata-se mais de “pé e mão”, mas na capacidade do emprego e gerenciamento tático de sistemas de combate altamente complexos.
O planejamento também precisa definir quantos profissionais poderão ser preparados, convertidos e mantidos em condições operacionais, além de formar instrutores para as próximas gerações. A disponibilidade de caças modernos não garante, por si só, capacidade de emprego contínuo.
Formação internacional: uma alternativa estratégica
A formação de pilotos no exterior, especialmente nas etapas avançadas, merece ser avaliada pela FAB. Forças aéreas de diferentes países recorrem à cooperação internacional para ampliar a experiência de seus pilotos e prepará-los melhor e mais rapidamente para operar aeronaves das gerações 4.5 e 5.
Os caças modernos exigem domínio de sensores, radares, guerra eletrônica, armamentos de precisão e enlaces de dados, além da capacidade de executar operações complexas e coordenadas em ambiente multidominio e com múltiplas ameaças aéreas e terrestres. Nesse contexto, a Fase 4, dedicada ao treinamento operacional avançado, poderia incluir programas nos Estados Unidos, na Itália e na Suécia.
A alternativa ampliaria a experiência dos pilotos destinados às unidades de primeira linha, especialmente ao 1º GDA, e poderia acelerar a preparação operacional.
Aeronaves modernas exigem recursos humanos preparados
A modernização da frota só se transforma em poder aéreo quando acompanhada de pilotos qualificados, instrutores experientes, horas de voo e treinamento contínuo.
A retirada dos F-5EM/FM e a desativação dos AMX exigem integrar a formação, a destinação e a conversão dos pilotos ao planejamento dos programas de modernização. Também é fundamental preservar a experiência operacional, pois a perda rápida e crescente para a aviação civil de profissionais experientes reduz o efetivo e a capacidade de instrução.
A aquisição de uma aeronave de nova geração deve incluir, desde o início, o planejamento de pilotos, instrutores, equipes de manutenção e estruturas de treinamento. Esses componentes precisam evoluir no mesmo ritmo.
Não basta anunciar que vai adquirir mais caças e esperar que a estrutura de pessoal se adapte. A formação de pilotos de combate exige planejamento antecipado, investimentos continuados e visão de longo prazo. A insuficiência de profissionais qualificados pode comprometer o retorno operacional de investimentos bilionários em novas aeronaves.
A questão central não é apenas quantos pilotos a FAB forma, mas quantos consegue preparar, qualificar e manter em condições de combate.
O Brasil precisa saber se está formando hoje os pilotos de que sua aviação de combate precisará amanhã.
Nota DefesaNet
O artigo abaixo é um complemento essencial ao FAB: quem vai pilotar os caças?
O Editor





















