FA-50: enquanto a Polônia coloca caças em alerta, o Brasil continua esperando
Foto KAI FA-50 Decolando de uma base na Polônia
Nelson During
Editor-Chefe DefesaNet
A entrada do FA-50 em alerta de combate na Força Aérea da Polônia é um excelente ponto de partida para discutir uma questão incômoda para a Força Aérea Brasileira: o que fazer quando a necessidade operacional é imediata, mas a solução perfeita ainda não existe?
Desde 1º de outubro, os 12 FA-50GF Fighting Eagle poloneses passaram a integrar o sistema de alerta de reação rápida, o Quick Reaction Alert (QRA), responsável pela resposta diante de ameaças ao espaço aéreo do país. A decisão é especialmente significativa porque a Polônia já opera F-16 e está incorporando o F-35A. Mesmo assim, colocou em alerta um caça leve sul-coreano.
A explicação é simples. Um F-35 não precisa fazer todas as missões que um FA-50 pode executar. O FA-50 preenche uma lacuna, aumenta a quantidade de aeronaves disponíveis e permite preservar F-16 e F-35 para missões de maior complexidade. Não é substituir o caça de primeira linha. É aumentar a capacidade da Força Aérea.
É uma decisão pragmática. E é justamente essa palavra que parece ter desaparecido do processo brasileiro de aquisição de caças.
Restam apenas dois meses para o final do atual governo e, depois de quatro anos, a gestão da FAB mostrou-se ineficiente na busca de uma solução para o problema da aviação de combate. Apenas algumas aeronaves foram entregues nesse período, enquanto a necessidade de ampliar a frota permanece.
O problema não é o Gripen. O Gripen é um excelente caça e representa um importante salto tecnológico para a FAB. O problema é imaginar que a existência do Gripen elimina a necessidade de discutir quantidade, disponibilidade e alternativas.
A Polônia demonstra exatamente o contrário.
Uma Força Aérea moderna não precisa ter todos os seus caças iguais. Precisa ter capacidade disponível. O F-35 pode cumprir as missões mais exigentes, o F-16 pode assumir outras funções e o FA-50 pode realizar policiamento aéreo, alerta e missões de menor complexidade. Dessa forma, aumenta-se a massa disponível e preservam-se as aeronaves mais sofisticadas para aquilo que realmente exige suas capacidades.
O FA-50 não é um F-35. Também não pretende ser. Mas é um caça supersônico, produzido em série, operacional e capaz de cumprir missões de defesa aérea e ataque. A Polônia comprou 48 aeronaves, sendo 12 FA-50GF para preencher rapidamente a lacuna e outras 36 na configuração FA-50PL.
O Brasil deveria olhar para essa experiência.
O FA-50 poderia ser uma das respostas. Outras opções também deveriam ser avaliadas, como o italiano M-346 F Block 20, da Leonardo. Não se trata apenas de um treinador avançado. A nova configuração incorpora radar AESA, Link 16, sistemas de guerra eletrônica, novos sistemas de armas e capacidade para missões ar-ar e ar-solo. O conceito permite combinar treinamento avançado e capacidade de combate em uma mesma plataforma.
Para o Brasil, o M-346 F Block 20 teria ainda um atrativo adicional: a possibilidade de explorar sinergias com uma empresa que já participa de programas estratégicos da defesa brasileira. Poderia ser uma alternativa para ampliar rapidamente a disponibilidade de aeronaves de combate, complementar o Gripen e, ao mesmo tempo, criar uma plataforma adicional para formação e treinamento de pilotos de caça.
Não se trata de escolher o M-346 em lugar do Gripen. Tampouco de transformar o FA-50 em substituto do caça sueco. A discussão é outra: como aumentar a massa de combate da FAB sem esperar uma década para que uma solução definitiva esteja disponível?
É aí que a atual política de aquisição precisa ser questionada.
Se existe uma aeronave moderna, produzida em série, com capacidade operacional e possibilidade de entrega em prazo razoável, ela deveria estar sobre a mesa. O mesmo vale para outras alternativas disponíveis no mercado internacional.
Uma Força Aérea não defende o espaço aéreo com projetos futuros. Caças que ainda dependem de decisão política, orçamento, negociação, contrato, produção e entrega não podem fazer alerta de combate amanhã.
A Polônia entendeu isso. E não por falta de opções. O país opera F-16, está recebendo F-35 e, ainda assim, colocou o FA-50 em alerta de combate.
Enquanto isso, no Brasil, continuamos discutindo qual seria a solução ideal.
Restam dois meses para o final do atual governo. Quatro anos se passaram sem que a FAB conseguisse resolver de forma satisfatória o problema da quantidade de caças disponíveis.
O Brasil precisa parar de discutir apenas o caça perfeito e começar a discutir capacidade.
Quantos caças a FAB precisa ter disponíveis? Em quanto tempo? E qual combinação de aeronaves permite chegar a esse número dentro do orçamento existente?
O FA-50 pode ser uma resposta. O M-346 F Block 20 pode ser outra. Existem ainda outras opções.
O que não parece mais aceitável é continuar esperando.
Porque uma Força Aérea pode não ter o caça perfeito.

O que ela não pode é ficar sem caças.





















