Recorrente ciclos de expectativas e frustrações na área de defesa brasileira
Nelson During
Editor-Chefe DefesaNet
Ao longo das últimas décadas, as Forças Armadas do Brasil tornaram-se presença constante no discurso político. Em períodos eleitorais, multiplicam-se anúncios de reaparelhamento, modernização e valorização da tropa. No entanto, entre promessas e entregas concretas, permanece um hiato que alimenta frustração nos quartéis e desconfiança na sociedade.
Bolsonaro: retórica de fortalecimento, execução limitada
Durante o governo de Jair Bolsonaro, o discurso de fortalecimento militar foi central. Capitão reformado do Exército, Bolsonaro cultivou proximidade simbólica e política com a caserna, prometendo investimentos robustos, revalorização salarial e aceleração de programas estratégicos.
Na prática, porém, o orçamento da Defesa permaneceu pressionado por restrições fiscais. A maior parte dos recursos concentrou-se em despesas obrigatórias — soldos, pensões e custeio — enquanto investimentos estruturantes enfrentaram contingenciamentos. Programas estratégicos como o F-X2 (Gripen E), o PROSUB e o Guarani avançaram mais pela inércia contratual e por compromissos firmados anteriormente do que por uma nova onda de aportes extraordinários.
Houve continuidade, mas não o salto prometido. A narrativa de “prioridade às Forças Armadas” esbarrou na realidade fiscal e na ausência de uma política de defesa com metas orçamentárias plurianuais blindadas de disputas políticas.
Lula: promessa de reconstrução e espera por decisões
No atual mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, o discurso mudou de tom. Fala-se em reconstrução institucional, reequilíbrio civil-militar e retomada da Base Industrial de Defesa. Ao mesmo tempo, surgem promessas de novos investimentos estruturantes caso haja continuidade política.
Contudo, no último ano, observa-se morosidade em anúncios de aquisições relevantes de grande porte. Processos decisórios são postergados, estudos se acumulam e a cautela fiscal volta a ser o argumento dominante. A promessa de grandes investimentos futuros — frequentemente vinculada a um eventual novo mandato — remete ao mesmo padrão já visto: o reaparelhamento como projeto condicionado ao calendário eleitoral.
Assim, o debate estratégico acaba subordinado à lógica política de curto prazo. Em vez de planejamento de Estado, prevalece o compasso do governo de ocasião.
A crença recorrente da caserna
Um dos pontos mais sensíveis é a relação entre a classe política e os militares. Historicamente, oficiais das três Forças tendem a acreditar — ou ao menos a apostar institucionalmente — nas promessas formais feitas por chefes do Executivo e apoio institucional do Legislativo. Essa postura decorre de disciplina hierárquica, pragmatismo institucional e da esperança constante de que o próximo ciclo orçamentário será mais favorável.
No entanto, a repetição de promessas não cumpridas gera desgaste silencioso. A confiança institucional passa a conviver com ceticismo operacional. Projetos estratégicos tornam-se reféns de contingências fiscais e de mudanças de prioridade política. A cada novo governo, reabre-se a expectativa de que “agora vai”.
O problema estrutural não está apenas em um presidente ou outro, mas na ausência de um pacto nacional duradouro sobre defesa. Países que consolidaram capacidades militares relevantes adotaram planos plurianuais com previsibilidade orçamentária, protegidos de oscilações ideológicas.
Defesa como política de Estado, não de campanha
Enquanto a Defesa permanecer como promessa de campanha — seja sob retórica ideológica conservadora ou sob discurso de reconstrução institucional — o ciclo de frustração tende a se repetir. O Brasil mantém ambições estratégicas: proteger vasto território, Amazônia, litoral e infraestrutura crítica. Mas ambição sem previsibilidade orçamentária transforma-se em retórica.
A crítica, portanto, não é apenas a governos específicos, mas ao modelo político que transforma reaparelhamento militar em moeda simbólica. A maturidade institucional exigiria:
- Planejamento de longo prazo com metas claras e vinculantes
- Percentual mínimo estável do PIB para Defesa
- Blindagem de programas estratégicos contra contingenciamentos abruptos
- Transparência sobre prazos e cronogramas
Sem isso, militares continuarão ouvindo promessas — e políticos continuarão fazendo delas instrumentos eleitorais.





















