BAYRAKTAR KIZILELMA atinge alvo com míssil ar-ar Fot Baykar Novembro 2025
Nelson During
Editor-Chefe DefesaNet
O campo de batalha do século XXI já mudou — e mudou de forma definitiva. A guerra contemporânea deixou de ser dominada exclusivamente por plataformas tripuladas e passou a incorporar, de maneira central, sistemas não tripulados capazes de vigiar, identificar e destruir alvos com precisão cirúrgica. Nesse novo ambiente, a ausência de uma capacidade robusta de drones de ataque não é apenas uma lacuna: é uma vulnerabilidade estratégica.
O Brasil, apesar de possuir forças armadas profissionais e experientes — Marinha do Brasil, Exército Brasileiro e Força Aérea Brasileira — ainda não dispõe, de forma operacional e em escala, de sistemas de drones armados capazes de executar missões de ataque de precisão stand-off. Essa defasagem se torna ainda mais preocupante quando analisada à luz dos conflitos recentes.
A guerra na Ucrânia evidenciou de forma inequívoca o papel central dos drones no combate moderno, tanto em cenários de alta intensidade quanto em operações distribuídas ao longo da linha de frente. O mesmo se observou em conflitos na Síria e em operações envolvendo o Irã, onde sistemas não tripulados passaram a desempenhar funções críticas de vigilância, aquisição de alvos e ataque de precisão.
Essas experiências demonstram que essa tecnologia se tornou essencial no cenário atual, seja na vigilância de fronteiras, no combate a ilícitos e no monitoramento de áreas remotas, seja em operações clássicas de defesa externa. Em um país com dimensões continentais como o Brasil, essa dupla aplicação é ainda mais evidente: drones são instrumentos fundamentais tanto para o controle do território quanto para a condução de operações militares convencionais.
Em cenários de baixa intensidade, como operações de vigilância de fronteiras e combate a ilícitos transnacionais, os drones oferecem persistência, alcance e precisão incomparáveis, permitindo monitorar áreas extensas por longos períodos e agir com rapidez e precisão quando necessário. Em conflitos de média intensidade, funcionam como multiplicadores de força, integrando vigilância e ataque em uma mesma plataforma e reduzindo drasticamente o tempo entre a detecção e o engajamento de alvos. Já em cenários de alta intensidade, tornam-se elementos centrais da arquitetura de combate, operando em conjunto com sistemas tripulados, satélites e guerra eletrônica para executar ataques de precisão stand-off, suprimir defesas inimigas e sustentar operações em rede.
É fundamental compreender que não se trata de adquirir qualquer tipo de drone. Sistemas de combate modernos são plataformas altamente complexas, que incorporam tecnologias avançadas de navegação, sensoriamento e comunicações, sendo capazes de operar em ambientes contestados e sob interferência eletrônica. Isso exige resiliência a jamming e spoofing, sistemas de navegação redundantes, sensores de alta resolução, comunicações seguras e integração plena com redes de comando e controle. Além disso, esses sistemas devem ser capazes de empregar armamentos guiados de precisão a longas distâncias, garantindo verdadeira capacidade stand-off e reduzindo a exposição a ameaças inimigas.
Outro ponto crítico é a soberania operacional. A aquisição de sistemas com restrições de uso ou dependência excessiva de fornecedores externos compromete a liberdade de ação. O Brasil precisa priorizar soluções que assegurem autonomia tecnológica, liberdade de emprego e capacidade de sustentação ao longo do tempo.
A era da guerra dos drones não é uma projeção futura — é uma realidade consolidada. Países que compreenderam essa transformação avançaram rapidamente na incorporação desses sistemas em suas forças armadas, enquanto aqueles que não o fizeram começam a acumular defasagens operacionais significativas.
O Brasil corre o risco de permanecer parado no tempo. Sem uma capacidade robusta de drones de ataque integrada a sistemas modernos de ISTAR, o país compromete tanto sua capacidade de vigilância e controle territorial quanto sua efetividade em operações de defesa externa.
A incorporação urgente desses meios deve ser tratada como prioridade estratégica. Não se trata apenas de modernização, mas de garantir que o Brasil possa atuar com eficácia em todo o espectro de operações — da proteção de suas fronteiras à condução de conflitos convencionais. Ignorar essa transformação é aceitar a obsolescência. Agir agora é assegurar relevância, capacidade de dissuasão e efetividade no campo de batalha contemporâneo.

Drone iraniano Shahed





















