Brasil na mira? Narrativas argentinas tentam transformar defesa em disputa regional

Dois Tempos – 1º Tempo Chanceleres do Brasil Mauro Vieira e do Foreign Office Yvette Cooper reunidos no G7 assinam Parceria Estratégica Brasil-Reino Unido 2026-2030, em 26 Mar 2026. 2º Tempo o embaixador brasileiro em Buenos, Aires Julio Glinternick Bitelli, é comvidado para audiência com o Ministro da Defesa da Argentina TG Carlos Presti

Nelson During
Editor-chefe DefesaNet

Nos últimos meses, críticas ao Brasil passaram a surgir com maior frequência em setores da imprensa e das redes sociais argentinas, com um foco bastante específico: os programas de modernização militar conduzidos por Brasília. Projetos como o caça Gripen E, o cargueiro Embraer KC-390 e o blindado VBTP-MR Guarani têm sido apresentados, em algumas dessas narrativas, como sinais de ambição regional ou de uma suposta busca por hegemonia sul-americana. Trata-se, no entanto, de uma leitura que distorce a natureza e os objetivos reais desses programas.

O Brasil não está envolvido em uma corrida armamentista, tampouco busca projeção de poder regional nos moldes tradicionais. O que se observa é um processo de modernização tardia, voltado sobretudo à substituição de meios obsoletos, ao fortalecimento da Base Industrial de Defesa e à busca por maior autonomia tecnológica. Ainda assim, em ambientes altamente politizados — como o atual cenário argentino — essas iniciativas passam a ser reinterpretadas sob lentes ideológicas, transformando programas defensivos em supostos instrumentos de poder expansionista.

A chegada de Javier Milei ao poder aprofundou esse ambiente. Seu governo promove uma inflexão clara na política externa argentina, com maior alinhamento aos Estados Unidos e distanciamento de modelos associados ao intervencionismo estatal. Nesse contexto, o Brasil governado por Luiz Inácio Lula da Silva passa a ocupar, para determinados setores políticos e midiáticos argentinos, o papel de contraponto ideológico. Não se trata necessariamente de uma política oficial de antagonismo, mas de um ambiente discursivo em que criticar o Brasil torna-se funcional para reforçar determinadas posições internas.

Essa narrativa não parece centralizada, mas sim distribuída entre diferentes atores. Parte da mídia ideologicamente alinhada ao liberalismo mais radical amplifica críticas ao modelo brasileiro, enquanto influenciadores nas redes sociais reforçam leituras simplificadas — e frequentemente imprecisas — sobre os programas de defesa do país. Ao mesmo tempo, existe um componente mais concreto: setores estratégicos argentinos observam com preocupação o aumento da assimetria de capacidades entre os dois países, resultado das limitações orçamentárias e industriais enfrentadas por Buenos Aires nas últimas décadas.

A questão central, portanto, não é apenas “quem está por trás” dessas críticas, mas a quem interessa a sua amplificação. Uma relação deteriorada entre Brasil e Argentina enfraquece diretamente a capacidade de coordenação regional e reduz o peso geopolítico da América do Sul como bloco. Nesse cenário, o Mercosul perde relevância, e abre-se mais espaço para a atuação de potências externas, interessadas em uma região menos integrada e mais suscetível a influências políticas, econômicas e militares.

Para o Brasil, o risco não é imediato nem militar. Não há qualquer indicativo de escalada concreta ou de rivalidade estratégica direta com a Argentina. O risco é, sobretudo, político e perceptivo. A erosão gradual da confiança entre os dois principais países da América do Sul pode comprometer décadas de cooperação, afetar iniciativas conjuntas no campo da defesa e criar um ambiente propício à fragmentação regional.

Nesse sentido, o desafio brasileiro não está em responder ao ruído com retórica, mas em impedir que ele se transforme em política. Isso passa por manter canais abertos com Buenos Aires, reforçar a transparência sobre seus programas de defesa e evitar que narrativas distorcidas ganhem tração suficiente para influenciar decisões estratégicas no futuro.

A história regional mostra que rivalidades raramente começam com movimentos militares concretos, mas frequentemente com percepções mal construídas. Hoje, o que se observa é justamente isso: um ambiente de ruído, ainda difuso, mas potencialmente relevante. Ignorá-lo seria um erro. Superdimensioná-lo, também. O equilíbrio, como quase sempre na geopolítica, será decisivo

Abaixo um roteiro das ações do Brasil e a reação da Argentina

1 Assinatura do Parceria Estratégica Brasil-Reino Unido 2026-2030, em 26 Mar 2026 durante o G7

2 – Forte ataque da midia argentina

3 – Embaixador Brasileiro convidado para uma”cordial” visita ao Ministro da Defensa TG Carlos Presti , em 31 Março 2026


1º Tempo Brasil e Reino Unido


UK–Brazil Strategic Partnership 2026 to 2030

III. Security and defence

17. We will build a common understanding and long-term ties across our shared interests, looking for new opportunities to collaborate across key security and defence issues.

18. We will strengthen cooperation to counter organised crime, including drug trafficking, cyber-crime and illicit financial flows, as well as crimes that affect the environment. The UK will continue to support Brazil’s capacity building efforts to help implement its cybersecurity strategies and policies. We will look for new opportunities to expand collaboration in support of other priority organised crime threats.

a. We will work to enhance the exchange of information between our respective law enforcement agencies. A shared cooperation framework would benefit the existing partnership in this field supporting investigations, training, education and other forms of collaboration.

19. The UK and Brazil reaffirm their commitment to jointly combat human trafficking and the smuggling of migrants and the organised criminal activities associated with it. The Parties will cooperate to prevent the facilitation of such crimes through coordinated efforts aimed at addressing their root causes and dismantling the networks and individuals responsible for their perpetration.

20. The UK and Brazil reaffirm their commitment to jointly promote safe, regular and orderly migration, and will support each other in promoting compliance by their nationals with the entry and migration requirements of the other. In pursuit of these objectives, the Parties will exchange relevant data and intelligence, subject to their respective national laws and international obligations, to enhance law enforcement and judicial cooperation.

21. In the area of our defence partnership, we will implement and expand the Defence Capability Collaboration Arrangement (DCCA), signed in February 2024 and linked to the 2010 umbrella UK-Brazil Defence Cooperation Agreement, to deepen our strategic engagement, industrial partnership and technology transfer. We will provide direction to this partnership through regular contact, including the Brazil-UK Political and Military Dialogue (2+2).

22. We will expand our defence cooperation to take a long-term view to deliver for both countries. As part of this we will:

  • a. increase cooperation and access to training opportunities.
  • b. use the DCCA to increase cooperation on defence technology and industrial capabilities.
  • c. strengthen space cooperation for peaceful purposes in all areas of mutual interest.
  • d. conduct Joint Services exercises and seek opportunities to further military exchanges.
  • e. use the DCCA to increase defence collaboration on research, innovation and technology.
  • f. identify opportunities to build on the Open-Source White Shipping Agreement.
  • g. increase collaboration and cooperation in defence education and doctrine development.

Para o acesso à integra do UK–Brazil Strategic Partnership 2026 to 2030 Link


2] Tempo Reação Argentina

Primeiro um post no X com fortes ataques ao Brasil


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