por Ricardo Fan – DefesaNet
Autonomia submarina como Vetor Estratégico
A entrega do submarino autônomo XV Excalibur à Marinha Real do Reino Unido, em dezembro de 2025, marca um ponto de inflexão relevante na evolução dos Unmanned Underwater Vehicles (UUV) de grande porte. Desenvolvido no âmbito do Projeto Cetus, o Excalibur não é apenas um demonstrador tecnológico, mas um instrumento deliberado para validar conceitos de autonomia persistente, modularidade de cargas úteis e emprego militar em ambientes contestados.
Com 12 metros de comprimento e deslocamento de 19 toneladas, trata-se do maior sistema subaquático não tripulado já testado pela Royal Navy. Sua concepção, concluída em menos de três anos, reflete a pressão contemporânea para acelerar ciclos de desenvolvimento diante de um ambiente estratégico caracterizado por competição entre grandes potências, negação de área (A2/AD) e crescente vulnerabilidade de meios tripulados tradicionais.
Do experimento à Doutrina
O objetivo declarado do Projeto Cetus é “construir confiança na autonomia”. Essa afirmação é mais profunda do que aparenta. O desafio central não reside apenas na engenharia naval ou nos sistemas de propulsão silenciosa, mas na aceitação doutrinária e operacional de plataformas capazes de operar de forma independente, tomar decisões limitadas e executar missões críticas sem tripulação humana embarcada.
Nos próximos dois anos, os testes do Excalibur deverão explorar missões como:
- Vigilância persistente em águas profundas;
- Guerra antissubmarino passiva;
- Reconhecimento de infraestrutura crítica subaquática;
- Emprego como mothership de sensores distribuídos;
- Inserção discreta em áreas de alto risco político-militar.
Essas missões apontam para um futuro no qual UUVs de grande porte complementam — e em alguns cenários substituem — submarinos convencionais em tarefas de alto risco, reduzindo custos políticos, humanos e financeiros.

O paralelo com o Mar Negro: a experiência ucraniana
Embora em um contexto tecnológico distinto, o conflito entre Ucrânia e Rússia oferece um laboratório operacional inestimável para a guerra naval não tripulada. A Ucrânia, sem uma marinha convencional capaz de confrontar a Frota do Mar Negro, recorreu de forma inovadora a sistemas não tripulados de superfície e submersíveis, redefinindo a assimetria naval.
Os drones navais ucranianos, ainda que majoritariamente classificados como USVs, operam segundo a mesma lógica estratégica que orienta o desenvolvimento de UUVs como o Excalibur:
- Baixo custo relativo;
- Alta tolerância à perda;
- Emprego ofensivo em águas teoricamente dominadas por uma potência naval superior;
- Pressão psicológica e operacional contínua sobre o adversário.
Os ataques bem-sucedidos contra navios russos, bases navais e infraestrutura logística demonstraram que a supremacia naval tradicional pode ser corroída por sistemas autônomos, distribuídos e difíceis de detectar, mesmo sem controle absoluto do espaço marítimo.
Lições estratégicas comuns
Tanto o Excalibur quanto os sistemas empregados pela Ucrânia evidenciam tendências convergentes:
- Persistência e Saturação
Plataformas não tripuladas permitem presença prolongada em áreas sensíveis, algo impraticável com meios tripulados convencionais. - Negação de Área Assimétrica
Pequenos atores ou forças com orçamentos limitados podem contestar o domínio naval de potências estabelecidas. - Mudança no Cálculo de Risco
A perda de um UUV não implica escalada política imediata, o que amplia a margem de manobra estratégica. - Pressão sobre a Defesa Antissubmarino
Sensores, sonares e doutrinas concebidas para submarinos clássicos mostram-se menos eficazes contra enxames ou veículos autônomos silenciosos.

Implicações para o Futuro da Guerra Naval
O XV Excalibur simboliza uma transição clara: a autonomia deixou de ser um complemento experimental para tornar-se um pilar do poder naval futuro. A Royal Navy, ao investir em UUVs de grande porte, antecipa um cenário em que o controle do domínio marítimo — especialmente o subaquático — dependerá cada vez mais de sistemas não tripulados, integrados em arquiteturas de comando e controle multidomínio.
A experiência ucraniana reforça essa leitura ao demonstrar que a inovação operacional, quando aliada à autonomia, pode compensar deficiências estruturais e alterar o equilíbrio estratégico regional.
Conclusão
O avanço dos UUVs, representado pelo Projeto Cetus e pelo XV Excalibur, não deve ser analisado isoladamente como um feito tecnológico britânico. Ele faz parte de uma transformação mais ampla da guerra naval, já visível em conflitos reais. Assim como os drones aéreos redefiniram o campo de batalha terrestre, os sistemas subaquáticos autônomos estão destinados a remodelar o domínio marítimo — tornando-o mais opaco, mais contestado e substancialmente mais perigoso para forças que ainda operam sob paradigmas do século XX.
No ambiente estratégico atual, ignorar essa evolução não é apenas um erro de planejamento: é uma vulnerabilidade operacional.
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Nota do autor: A Marinha do Brasil tem demonstrado avanços consistentes na incorporação de sistemas não tripulados ao ambiente naval, como evidenciado durante o exercício ARAMUSS-2025, no qual veículos não tripulados de superfície, submersíveis e aéreos foram empregados em atividades operacionais a partir de meios da Esquadra. Ainda que o Brasil opere sob restrições orçamentárias e com cronogramas mais dilatados — o recorrente “delay Brasil” — a direção adotada é correta e coerente com as tendências da guerra naval contemporânea. O desafio, a partir de agora, reside menos na compreensão do tema e mais na decisão política e administrativa: espera-se que aqueles que detêm o poder da caneta invistam de forma célere enquanto o domínio dos UUVs e demais sistemas aquáticos não tripulados ainda está em fase de consolidação. Postergar decisões estratégicas neste momento pode resultar, no médio prazo, na ampliação da dependência externa justamente quando essas tecnologias atingirem maior maturidade e centralidade operacional.
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