Notas Estratégicas MB – Tamandaré: Expandir Agora para Garantir o Futuro da Esquadra

Marinha do Brasil frente a uma encruzilhada que decidirá o futuro da armada

Nelson During
Editor-Chefe – DefesaNet

A Marinha do Brasil deu um passo estrutural ao iniciar o Programa das Fragatas da Classe Tamandaré. Trata-se do mais consistente projeto de renovação de meios de superfície da Esquadra em décadas, combinando transferência de tecnologia, construção local e integração de sistemas de combate modernos.

Mas quatro navios não fazem uma esquadra. Fazem um começo.

Se o Brasil pretende ter presença marítima compatível com sua dimensão geopolítica e com a responsabilidade sobre a Amazônia Azul, é imperativo expandir a classe para oito unidades, garantindo a contratação de ao menos um navio por ano até o fechamento do programa.

Escala é Poder Naval

Uma força de superfície moderna precisa considerar ciclos inevitáveis:

                •             Manutenção programada
                •             Períodos de docagem
                •             Adestramento
                •             Missões e exercícios internacionais

Com apenas quatro fragatas, dificilmente mais de duas estarão plenamente disponíveis simultaneamente. Isso não sustenta presença contínua em um litoral de 7.400 km, muito menos capacidade expedicionária limitada.

O número oito não é ambição — é coerência operacional. Precisamos de um esquadrão completo de fragatas Tamandaré, algo que historicamente não conseguimos fazer a antiga Classe Niterói.

Continuidade Industrial: Não Repetir Erros

Manter a contratação de mais quatro fragatas oferece vantagens estratégicas claras:

                •             Preserva mão de obra especializada
                •             Reduz custos por economia de escala
                •             Consolida a Base Industrial de Defesa
                •             Evita o ciclo histórico de paralisação e perda de conhecimento

Interromper a produção após quatro unidades seria repetir erros do passado. Programas navais exigem continuidade. Parar e retomar custa mais caro do que manter ritmo constante.

O Salto Qualitativo da Tamandaré

A Classe Tamandaré representa um avanço concreto em:

                •             Guerra antissubmarino
                •             Defesa aérea de ponto
                •             Integração com o míssil antinavio MANSUP
                •             Sistema de combate digital integrado

Seu canhão principal de 76mm pode empregar munições inteligentes capazes de engajar alvos móveis de superfície e em terra com precisão, além de contribuir para defesa contra ameaças assimétricas, como enxames de drones.

A Tamandaré será a espinha dorsal da Esquadra nas próximas três décadas. Mas, para cumprir esse papel, precisa existir em número suficiente para atender às missões de responsabilidade atribuídas à Marinha.

Interoperabilidade: O Poder Naval é Conjunto

Uma fragata moderna não opera isoladamente. Sua eficácia depende da integração com a aviação orgânica e a baseada em terra.

A coordenação com helicópteros e aeronaves de caça da Força Aeronaval amplia significativamente o alcance da defesa aérea marítima, a capacidade de esclarecimento e o potencial ofensivo. Sensores navais e sensores aéreos integrados multiplicam a consciência situacional e fortalecem a dissuasão. O leque de armamentos disponível a serem lançados por aeronaves de combate amplia a segurança e assegura capacidades defensivas e ofensivas necessárias a operação plena dos meios navais.

No patrulhamento do Mar Brasileiro ou na projeção de presença no Atlântico Sul, mar e ar não são domínios separados — são camadas de uma mesma estratégia.

O Próximo Passo: fragatas pesadas multimissão

Fechar a Classe Tamandaré com oito unidades não encerra o ciclo. Pelo contrário: cria a base para o próximo salto.

O Brasil precisará, na próxima década, incorporar navios de maior deslocamento — entre 6.000 e 7.000 toneladas — com capacidade de sistemas, sensores e armamento superior, sendo capaz de executar uma variada gama de missões de combate à longa distância.

Esses navios multimissão atuarão como capitânias de força-tarefa, ampliando o raio de ação e o poder dissuasório brasileiro na área que se estende por todo o Atlântico Sul até a costa africana.

Sem esse passo, a Esquadra corre o risco de se limitar à defesa de ponto e à patrulha ao redor da Zona Econômica Exclusiva, sem capacidade real de projeção de poder nacional — algo que apenas marinhas com belonaves de maior porte conseguem exercer.

Uma fragata pesada é, na prática, uma embaixada flutuante e símbolo concreto do poder nacional.

O Futuro da Armada Brasileira

A construção naval exige escala e previsibilidade. O Brasil não pode repetir o ciclo de entusiasmo inicial seguido de estagnação.

Expandir a Classe Tamandaré para oito unidades é garantir:

                •             Presença
                •             Prontidão
                •             Sustentabilidade industrial

Investir posteriormente em navios de maior deslocamento e capacidades será o passo natural para consolidar a posição brasileira como potência marítima no Atlântico Sul.

A interoperabilidade entre a Força de Superfície, a Força de Submarinos e a Força Aeronaval é fundamental para o sucesso das operações marítimas. Garantir a capacidade de transportar e escoltar o Corpo de Fuzileiros da Esquadra assegura viabilidade real às operações expedicionárias.

O núcleo do poder naval precisa estar coeso e modernizado, pois as ameaças evoluem rapidamente. Sem continuidade na construção e entrega de novos navios, não há poder naval. Sem número adequado, não há dissuasão. E sem integração com o poder aeronaval, não há superioridade marítima real.

O momento atual representa uma janela de oportunidade histórica para a Marinha do Brasil consolidar sua modernização e assumir posição de liderança na segurança do Atlântico Sul.

Notas Sobre o Programa Fragatas Classe Tamandaré

(texto divulgado pela Marinha do Brasil no artigo Fragata Tamandaré recebe certificação estatutária e avança para etapa operacional)

O Programa Fragatas Classe Tamandaré (PFCT) é uma iniciativa estratégica da Marinha do Brasil para a obtenção, por meio de construção nacional, de quatro fragatas de alta complexidade tecnológica.

O Programa é desenvolvido em parceria com a Sociedade de Propósito Específico Águas Azuis, formada pelas empresas TKMS, Embraer e Atech, e é gerenciado pela Emgepron.

O contrato do PFCT foi assinado em março de 2020 e integra as principais agendas de fortalecimento da Base Industrial de Defesa do país. O Programa está incluído no Novo Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC), no eixo de inovação para a indústria de Defesa, e também na Missão nº 6 – “Tecnologias de Interesse para a Soberania e Defesa Nacional” – da iniciativa Nova Indústria Brasil (NIB).

O PFCT responde à necessidade de modernização da Esquadra Brasileira e ao fortalecimento da capacidade operacional da Marinha do Brasil. As Fragatas Classe Tamandaré são embarcações multipropósito, projetadas para atuar em cenários de guerra de superfície, antiaérea e antissubmarino, com elevada capacidade de combate e interoperabilidade.

Com papel central na proteção da chamada Amazônia Azul, área marítima brasileira de aproximadamente 5,7 milhões de km², as fragatas serão essenciais para o monitoramento e controle do espaço marítimo, a defesa das ilhas oceânicas, a proteção de infraestruturas críticas e a salvaguarda das linhas de comunicação marítima de interesse nacional.

Além de seu impacto estratégico, o PFCT impulsiona o desenvolvimento industrial e tecnológico no Brasil, envolvendo cerca de 2.000 empresas nacionais ao longo de sua cadeia produtiva.

O Programa mobiliza aproximadamente 2.000 profissionais diretamente nas obras e gera um efeito multiplicador estimado em cerca de 6.000 postos de trabalho indiretos e 15.000 empregos induzidos, totalizando aproximadamente 23.000 empregos.

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