Reflexões sobre a Era Nuclear e a Estratégia Norte-Americana no Irã

Reflexões sobre a Era Nuclear e a Estratégia Norte-Americana no Irã

Reis Friede*

Costuma-se dizer que “nada é mais caro do que uma oportunidade perdida”. Levando a frase ao pé da letra, os Estados Unidos identificaram com precisão o timing para a denominada “Operação Fúria Épica”: a manhã do dia 28 de fevereiro de 2026, um sábado, quando os conceituadíssimos aparatos de inteligência de Washington e Tel Aviv constataram que a cúpula iraniana estaria reunida em um mesmo lugar em Teerã.

Os estrategistas e planejadores de Washington, então, perceberam que havia chegado a hora de agir, principalmente para evitar a nuclearização do Irã. Analisando retrospectivamente, eles concluíram que a proliferação nuclear revela um padrão, e que cada hesitação custou caro. Do choque chinês ao desafio iraniano, o preço da inércia geralmente supera o ônus da ação preventiva.

A pergunta que permanece é: até quando se pode arriscar? Agir, sobretudo militarmente, tem um custo político, econômico e particularmente humano. A questão, portanto, é saber o preço da inércia, o que demanda uma análise, ainda que de passagem, acerca dos fatos históricos da era nuclear. Vejamos.

Em 1945, os Estados Unidos ingressaram na era atômica e passaram a ostentar o monopólio das armas nucleares. Baseados em informações de seus serviços secretos, acreditavam que sua ex-aliada na Segunda Guerra Mundial (1939-45), a União Soviética, somente atingiria o mesmo estágio em meados da década de 1950. Estavam enganados.

Em 29 de agosto de 1949, para surpresa de todos, a URSS explodiu seu primeiro artefato de fissão, sendo seguida pelo Reino Unido, que em 3 de outubro de 1952 atingiu o mesmo patamar bélico. Apesar da brevidade dos acontecimentos nucleares, as façanhas de Moscou e Londres não causaram nenhuma perplexidade a Washington. Era algo que já estava, por assim dizer, no “radar” norte-americano. Os três vencedores daquela conflagração – que também eram as maiores potências econômicas da ocasião – experimentaram um novo tempo.

Inconformada com a falta de apoio direto dos EUA em sua campanha na Indochina francesa, o que lhe provocou a perda de sua colônia em 1954, e desapontada com a postura estadunidense no Conflito de Suez em 1956, a França concluiu que, para recuperar seu protagonismo internacional de outrora, ostentar um armamento atômico era mesmo fundamental.

E assim, em 13 de fevereiro de 1960, Paris, que não escondia seus propósitos nucleares, ingressou no rol dos países dotados de armas nucleares, o quarto membro desde a fundação do seleto “clube atômico”. A acelerada evolução do programa nuclear francês até surpreendeu os norte-americanos, mas não lhes causou indignação. Do ponto de vista de Washington, tratava-se de um vencedor formal da Segunda Guerra Mundial e de um aliado na Guerra Fria (1947-91).

Assim como HARRY TRUMAN (1945-53), JOSEF STALIN (1922-53), WINSTON CHURCHILL (1951-55) e CHARLES DE GAULLE (1959-69), MAO TSÉ-TUNG (1949-76), extremamente vaidoso como ele era, também queria uma arma nuclear para chamar de sua. Em 16 de outubro de 1964, apesar da suspensão do apoio técnico que lhe estava sendo fornecido por Moscou, a República Popular da China (RPC) – uma nação não reconhecida pela maioria dos membros da ONU – detonava seu primeiro artefato atômico.

Aqui é preciso pontuar um detalhe. Na ocasião, as autoridades de Washington, diferentemente da forma como reagiram ao saber das conquistas de Moscou (1949), Londres (1952) e Paris (1960), ficaram estarrecidas. Mesmo não detendo as condições econômicas, técnicas e científicas indispensáveis para a realização de tão grande feito tecnológico, a RPC, que era vista como pária pela comunidade das nações, e que estava isolada até mesmo pela URSS, sua ex-aliada, obteve a tão sonhada bomba atômica.  MAO, completamente em êxtase, sentia-se cada vez mais poderoso. Ele provavelmente deve ter dito: “Agora que tenho a minha arma, ninguém mais me segura!”

O Presidente LYNDON JOHNSON (1963-69) não tardou em determinar o planejamento de uma operação de bombardeio das instalações chinesas, o que ocorreria em conjunto com os soviéticos, os quais, no entanto, não aderiram ao plano. Mais tarde, tendo em vista os confrontos fronteiriços que quase conduziram a União Soviética e a China a uma guerra nuclear em 1969, Moscou se arrependeu amargamente de não ter ombreado com Washington para barrar a nuclearização de Pequim.

A despeito das inúmeras credenciais econômicas, técnicas e científicas exigidas para efeito de ingresso na “irmandade atômica”, outros países, por diversas razões, buscaram e conseguiram levar a cabo essa proeza. Assim, em 1968, veladamente, o pequeno Estado de Israel passava a ser o integrante de nº 6 da restrita “confraria nuclear”. Apesar da colaboração recebida da França – ajuda que, aliás, até hoje não ficou muito bem esclarecida – para a instalação do primeiro reator israelense em Dimona, o triunfo de Tel Aviv surpreendeu, não se sabendo ao certo quanto tempo a CIA levou para descobrir a existência da bomba atômica israelense.

Em 1º de julho de 1968, quatro potências nucleares (EUA, URSS, Reino Unido e França), todas com assento e poder de veto nas Nações Unidas, concordaram com o Tratado de Não Proliferação (TNP). O objetivo declarado era colocar um freio na perigosa corrida nuclear. Não obstante a República da China (Taiwan), que à época representava a nação chinesa na ONU – sendo substituída pela RPC em 1971 –, não possuir armas nucleares, o governo de Taipé também aderiu ao acordo de 1968.

A verdade é que o TNP, apesar de seu escopo maior, não conseguiu cerrar as portas do “clube atômico”. Até mesmo porque outros países também queriam um artefato dessa natureza para apresentar e brandir para o mundo. Em 18 de maio de 1974, para a perplexidade de todos, e frustrando os propósitos do recentíssimo TNP, a Índia, cuja economia era bastante fraca naquela oportunidade, logrou testar sua primeira bomba nuclear. Com exceção de algumas vozes que a censuraram, nenhuma declaração mais contundente foi emitida pela sociedade internacional e pelos EUA.

JOHNSON, falecido em 1973, já não titularizava a Casa Branca desde 1969. RICHARD NIXON (1969-74), que o sucedeu no poder, encontrava-se atolado no lamaçal causado pelo escândalo do Watergate, renunciando em 9 de agosto de 1974. Nessa conjuntura, o presidente republicano praticamente se limitou a impor algumas sanções econômicas contra Nova Deli, medidas que se revelaram inúteis. Como qualquer analista minimamente atento esperaria que um dia acontecesse, o Paquistão, arqui-inimigo da Índia, também obteve êxito nessa empreitada bélica. Era o ano de 1998, e BILL CLINTON (1993-2001), repetindo a postura passiva de outros presidentes dos EUA, pouco fez a respeito da nuclearização de Islamabad.

Em 2003, a Coreia do Sul até encenava construir uma bomba dessa espécie. A justificativa apresentada na ocasião era que sua rival Coreia do Norte estaria próxima de fabricar um desses artefatos. Informado de que Pyongyang estaria distante de atingir tal feito, o Presidente GEORGE W. BUSH (2001-09) deu garantias a Seul de que não havia risco de que isso se concretizasse, e afirmou que o desenvolvimento de uma ogiva nuclear sul-coreana desacreditaria ainda mais o já debilitado TNP.

A História revelaria que BUSH estava errado. Três anos depois, um dos países mais pobres e subdesenvolvidos do planeta – a Coreia do Norte – detonava uma bomba atômica, passando a ocupar a cadeira de nº 9 da “congregação nuclear”. E aqui há outro dado relevante: foi a primeira vez que um país governado por uma das dinastias mais brutais e totalitárias do mundo obteve uma arma desse tipo. KIM JONG-UN, no poder desde 2011, além de ter dado continuidade à empreitada de seu pai (KIM JONG-IL, 1994-2011), ampliou extraordinariamente o poder bélico-nuclear norte-coreano.

BUSH, que em 2003 invadira o Iraque para eliminar armas de destruição em massa supostamente empossadas pelo regime de SADDAM HUSSEIN (1979-2003), nada fez para impedir a concretização do belicismo nuclear da Coreia do Norte, permitindo a perigosa situação na qual o mundo se depara hoje. Dotados de ogivas nucleares múltiplas e independentes, os mísseis intercontinentais (intercontinental ballistic missile, ICBM) norte-coreanos já são capazes de atingir qualquer parte do globo, inclusive o território continental norte-americano. Não é exagerado dizer que o empoderamento nuclear do regime de JONG-UN – o “homem-foguete”, apelido depreciativo e ao mesmo tempo jocoso que DONALD TRUMP cunhou – constitui um grande risco de haver um holocausto atômico.

Mas, como se diz por aí, “não há nada tão ruim que não possa piorar”. Seguramente, mais do que o poder ostentado pelo ditador norte-coreano, a mais sombria perspectiva para a humanidade seria um Irã nuclear. Nas mãos das lideranças religiosas iranianas, cuja radicalidade não se deve subestimar, esse cenário traria consigo consequências absolutamente imprevisíveis. Isso porque a arquitetura da dissuasão, que até o momento impediu o manejo de armas nucleares pós-1945, funda-se na racionalidade dos que detêm o poder de empregá-las. Mesmo com toda a barbárie que caracteriza a ditadura de Pyongyang, a Coreia do Norte não pode ser considerada um ator irracional, ainda que seja vista como um ator irrazoável1, por não compartilhar do mesmo quadro de valores do Ocidente.

O Irã é algo muito diferente. A teocracia imposta em Teerã a partir da revolução de 1979 tem alardeado seu propósito de aniquilar o Estado de Israel e o povo israelense. Para atingir seu escopo, os clérigos radicais não pensam duas vezes em fazer uso de expedientes terroristas; são, portanto, para expressiva parcela dos Estados, atores irracionais, e não apenas irrazoáveis. Permitir que o regime ostente armamento nuclear seria o mesmo que atribuir a um lunático a capacidade de destruir nações inteiras e até mesmo parte de sua própria população composta por 90 milhões de habitantes, dos quais aproximadamente 60% são persas, com o percentual restante sendo dividido entre azeris, curdos, árabes, balúchis e outras etnias. Para ilustrar o que os teocratas iranianos são capazes de fazer, basta mencionar, por exemplo, como eles reprimiram os protestos populares que varreram as cidades do país entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, quando o governo de Teerã assassinou a sangue frio entre seis mil (número reconhecido pelo próprio regime) e 43 mil manifestantes desarmados.

O diplomata argentino RAFAEL GROSSI, diretor da AIEA, entende que o Irã não estaria próximo de obter um artefato nuclear. De qualquer modo, durante as negociações mais recentes, o governo iraniano admitiu possuir 460 kg de urânio enriquecido a 60%, índice bem próximo do que é necessário para fabricar uma bomba atômica (90% de pureza), e em quantidade suficiente para produzir 11 ogivas, cada uma pesando de 25 kg a 40 kg. Comparativamente, a Little Boy, bomba lançada pelos Estados Unidos sobre Hiroshima em 6 de agosto de 1945, tinha pouco mais de 80% de pureza, e possuía uma carga de 56 kg, sendo que apenas 0,8 kg do urânio fissionou antes que ela se desintegrasse, liberando cerca de 16 Qt de potência – ou 16 mil toneladas de TNT equivalentes.

Desconsiderando as lições advindas da história, a AIEA, apesar de reconhecer que o Irã já enriquece urânio a 60%2, tem afirmado que o país ainda estaria longe de construir uma arma funcional3. Mas o extenso programa de mísseis balísticos e hipersônicos iranianos – que são os principais vetores para o transporte de ogivas nucleares – parece sinalizar justamente o contrário do que diz a AIEA, indicando a iminência da nuclearização dos persas.

O assunto é, para dizer o mínimo, polêmico. Talvez GROSSI tenha razão, talvez não. E é exatamente aí que reside a questão: qual o custo de agir e qual o preço da inércia?

O Presidente LYNDON JOHNSON acreditava na ação, no agir. Observando retrospectivamente, o que é sempre mais confortável para qualquer observador geopolítico, pode-se cogitar que, se sua política estivesse vigente, o “clube atômico” ainda seria frequentado apenas pelos cinco membros detentores de assento no Conselho de Segurança da ONU: EUA, URSS, Reino Unido, França e China.

Quem sabe esse tenha sido um dos cálculos feitos por DONALD TRUMP para, independentemente de outros objetivos e outras considerações, promover um ataque preventivo contra o Irã para destruir, completa e definitivamente, qualquer chance de o regime dos aiatolás possuir armamentos atômicos e seus meios de lançamentos.

É que o passamos a fazer na sequência deste ensaio. Ao contrário de algumas asseverações, a estratégia norte-americana no Irã tem se revelado clara, lógica e racional. Porém, sua execução, no estilo trumpista de ser, é bastante singular, por vezes parecendo improvisada e caótica.

O verdadeiro objetivo dos Estados Unidos não é propriamente atingir o Irã, país irrelevante na competição global com Washington, mas sim a China, a única que pode ameaçar a hegemonia estadunidense. A abordagem da Casa Branca é enfraquecer Pequim, sua rival estratégica, atacando um dos principais pontos fracos da China, sua alta dependência de hidrocarbonetos.

Importando diariamente cerca de 11,6 milhões de barris de petróleo em 2025, o que lhes confere a primeira posição mundial nesse quesito, os chineses suprem suas necessidades por intermédio de vários fornecedores, havendo três em particular, que lhes permitem descontos especiais e pagamentos em yuan: a Venezuela, já neutralizada, o Irã e a Rússia.

A forma de comercialização desse produto pelos três países vem permitindo driblar o acordo firmado em meados da década de 1970 pelos Estados Unidos, quando a ancoragem do dólar, que até 1971 era lastreada no ouro, passou a ser feita por meio da comercialização do petróleo – os chamados petrodólares –, viabilizando a contínua hegemonia financeira estadunidense.

Embora a tentativa de romper ou burlar a exclusividade do uso da moeda norte-americana para transações envolvendo petróleo não seja uma novidade – tendo sido, em parte, a razão da deposição de MUAMMAR KADAFI (1969-2011) na Líbia e de SADDAM HUSSEIN (1979-2003) no Iraque –, essa empreitada nunca foi realizada de maneira coordenada como aparentemente está sendo feito pela China no contexto da atual competição acirrada.

A derrubada de NICOLÁS MADURO (2013-26) na Venezuela sem que se objetivasse remover as lideranças do regime venezuelano e democratizar o país, bem como as tentativas de aproximação com VLADIMIR PUTIN desconsiderando os legítimos interesses da Ucrânia, evidenciam uma estratégia muito bem formulada por Washington: a defesa da hegemonia geral estadunidense e financeira do dólar4, como moeda de referência internacional, cuja participação nas reservas internacionais estava em 57% em 2025 – comparativamente, em 2000 era de 71%.

Nesse sentido, o controle do Irã é estratégico. Além de tentar impedir a venda de petróleo5 barato em yuan para Pequim – o que não se concretizou até o momento –, compromete a Rota da Seda, atrapalhando os propósitos chineses de expansão comercial. Portanto, o plano de DONALD TRUMP e de sua equipe de conselheiros vai muito além do reset comercial – e da reindustrialização dos EUA – por meio da imposição de tarifas. O que a Casa Branca almeja é reposicionar o país em uma nova realidade global tripolar (EUA, China e Rússia), com forte inclinação para tetrapolaridade (com a inclusão da Índia). A Europa, que até poderia ser um quinto polo, encontra-se enfraquecida, sendo completamente desconsiderada por TRUMP nesta equação.

Exatamente como aconteceu com a Venezuela, os EUA também preferiam uma solução negociada com o Irã. Diante da resistência de Caracas, Washington deflagrou a ação que, no início de janeiro de 2026, capturou e retirou MADURO do poder, passando a negociar com as demais lideranças do governo local.

Um método bastante semelhante foi utilizado no episódio do Irã. A cessação da Guerra dos Doze Dias (13 a 24 de junho de 2025) contra a vontade de Tel Aviv partiu do princípio de que seria possível negociar, nos termos firmados por Washington, com Teerã em troca da manutenção do regime. Como isso se mostrou impraticável, a neutralização das principais autoridades políticas e militares da república islâmica, sem necessariamente pôr fim ao regime, passou a ser quase que uma condição para viabilizar a interrupção do suprimento de petróleo para a China – que, em essência, é o escopo central dos EUA – e para destruir a força ofensiva (de mísseis balísticos e hipersônicos, por exemplo) e a capacidade bélico-nuclear dos iranianos. Para tanto, a Casa Branca, em uma convergência de interesses, se valeu indiretamente do poderio bélico de Israel em seu benefício, e não o oposto, como alguns argumentam.

De um modo geral, a desistência norte-americana de prosseguir nas conversações que estavam sendo levadas a cabo com o regime dos aiatolás tem pelo menos cinco explicações: Washington concluiu que Teerã apenas desejava ganhar tempo; que o iminente fornecimento de sofisticados mísseis antinavios chineses aos iranianos reduziria, ou até mesmo neutralizaria, a efetividade das forças navais norte-americanas; que a proximidade da entrega dos caças Sukhoi Su-35 Super Flanker e sistemas adicionais e mais sofisticados de defesa aérea e contra interferência eletrônica poderia prejudicar uma ofensiva estadunidense; que o Irã, de uma maneira intensa, estava elevando seus estoques balísticos – sua cadência de fabricação era de 100 unidades por mês; que determinadas fontes, inclusive a Agência Internacional de Energia Atômica, estimam que o regime iraniano – que já enriquece urânio a 60%, percentual muito próximo ao mínimo necessário para se fabricar um artefato atômico – possua um estoque de urânio entre 400 e 600 kg, que não foi destruído pela “Operação Midnight Hammer”, suficiente para a construção de algo entre 10 e 15 ogivas nucleares.

Outro fator que acelerou o início do conflito foi o desdobramento, por parte de Teerã, do míssil hipersônico Fattah-2. De forma diferenciada dos artefatos balísticos tradicionais, que possuem trajetória parabólica, o Fattah-2 é capaz de fazer manobras evasivas em velocidades próximas de Mach 5, através de seu veículo de planeio – que forma o conhecido rastro de “cauda de dragão” –, tornando-o ainda mais difícil de ser interceptado pelos sistemas antibalísticos atuais.

A grande conclusão a que se chega é que o poderio militar, econômico e financeiro estadunidense ainda persiste praticamente sem contraponto. E assim, em menos de uma hora, mais uma vez uma pequena fração do imenso poder militar dos Estados Unidos foi demonstrado sem que houvesse, naquela oportunidade, qualquer chance de resposta por parte do Irã6. TRUMP, que de Mar-a-Lago acompanhava o desenrolar dos ataques7, parece estar radiante com o aparente triunfo da missão. Mas ele sabe que o sucesso de sua política externa se subordina quase que exclusivamente ao apoio popular dos norte-americanos e sobretudo congressional8,9, o “calcanhar de Aquiles” que seus rivais China e Rússia, duas autocracias, não possuem.

Os quatro cenários prováveis para o final da altercação com o Irã são:

a) A manutenção do regime e de sua forma de atuação, inobstante todo o esforço empreendido.

b) A eclosão de uma guerra civil iraniana, com a fragmentação do país, através de diversos grupos, mais ou menos como se deu no Iraque.

c) A manutenção de parte do regime dos aiatolás, mas com uma liderança mais flexível, em uma forma de negociação semelhante à que ocorreu com a Venezuela.

d) A instalação de um regime democrático, ou nem tanto, mas totalmente alinhado aos interesses de Washington.

A primeira hipótese representaria uma derrota total para os interesses norte-americanos, posto que: não afastaria o Irã de sua aliada estratégica – a China – no tabuleiro geopolítico; manteria o abastecimento de petróleo para Pequim a preços subsidiados e pagos em moeda própria; desafiaria, a médio e longo prazos, a hegemonia financeira dos Estados Unidos; afrontaria o chamado privilégio exorbitante que o dólar, como moeda de referência internacional, confere a Washington.

O segundo panorama – o advento de uma guerra civil –, com todas as suas consequências, inclusive com a grande possibilidade de provocar a queda do regime iraniano, expressaria, no final das contas, uma vitória para Israel (afastando em definitivo o risco existencial que o Irã representa para os israelenses) e, em parte, para os EUA (retirando da China um aliado fundamental).

Desde que um governo mais maleável e apto a negociar com os Estados Unidos assumisse o poder em Teerã, o terceiro quadro – a permanência do regime com nova liderança –, dentro de uma visão mais realista e pragmática, seria o principal objetivo para os propósitos norte-americano.

Por fim, evidentemente que o quarto cenário seria o melhor para Washington, embora seja o menos provável de ocorrer.

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Notas Complementares:

1. Atores Irrazoáveis e Atores Irracionais

Um dos requisitos para o perfeito funcionamento da deterrência estratégica é a racionalidade, justamente por configurar um dado essencial para a plena compreensão do conceito de dissuasão.

Para PATRICK MORGAN, os elementos-chave da Teoria Deterrente – e da dissuasão, em particular – “assentam na assunção da existência de um conflito grave e [da] racionalidade dos decisores” (Deterrence Now, Cambridge University Press, Cambridge Studies in International Relations, nº 89, 2003, p. 4). Isso porque “a dissuasão [e a deterrência, em geral] é um resultado de natureza psicológica” (ABEL CABRAL COUTO; “Elementos de Estratégia”, v. II, Lisboa, Instituto de Altos Estudos Militares, IAEM, 1988, p. 60).

Como observa DANIEL VERNET, especialista em Relações Internacionais e ex-diretor de redação do jornal francês Le Monde, “a dissuasão [nuclear] funcionou tanto tempo porque os atores eram pouco numerosos e eram considerados racionais” (“Dissuasão Nuclear, a Herdeira da Guerra Fria”, ISTOÉ, 14 de agosto de 2017, disponível em: <https://istoe.com.br/dissuasao-nuclear-a-herdeira-da-guerra-fria/>, acesso em: 17 de julho de 2025).

Se, em termos semânticos e deterrentes, razoabilidade e racionalidade possuem significados distintos, as expressões atores irrazoáveis e atores irracionais também não devem ser confundidas, embora, por vezes, elas sejam utilizadas como sinônimos.

Uma breve diferença a ser considerada é que atores irracionais são incapazes de relacionar meios com fins. Embora a existência de governantes desprovidos de senso de razoabilidade – e de fato eles existem e cada vez são mais numerosos – possa ser um problema para o sistema, os irracionais são muito mais preocupantes, pois constituem uma inconteste ameaça para a eficácia do sistema, razão pela qual é fundamental construir estratégias para lidar com atores não providos de racionalidade.

No ensaio “A Alteração do Conceito de Dissuasão: Contributos para a sua Conceitualização”, PAULO JOSÉ DA CONCEIÇÃO ANTUNES esclarece que não se deve confundir irracionalidade com irrazoabilidade.

O primeiro problema surge no pressuposto errado de que o adversário racional partilha da mesma lógica estratégica que nós. Um ser funcionalmente “irracional” é incapaz de propositadamente ligar os meios com os fins. Muitas vezes caracterizam-se determinadas atitudes e ações como irracionais, quando estas são na verdade irrazoáveis. A questão cinge-se ao fato de que ser racional não significa ser razoável. O problema prende-se quando o sistema de valores é diferente do nosso. Por esse motivo não entendemos [razoabilidade] quando o adversário, seguindo um comportamento inteiramente racional, liga instrumentos políticos [bombistas suicidas] com objetivos políticos, constituindo uma afronta aos nossos princípios morais, éticos e legais, principalmente porque encerra um raciocínio estranho ao nosso quadro mental de valores (Revista Militar nº 2.460, janeiro de 2007, p. 16-51).

Mesmo em ditaduras totalitárias comandadas por dinastias hereditárias (por exemplo, a Coreia do Norte), seus líderes não podem ser considerados propriamente irracionais, como bem adverte COLIN GRAY (Maintaining Effective Deterrence; Strategic Studies Institute, 2003, p. 21).

Apesar de o ditador norte-coreano ser às vezes classificado como irracional, certamente este não é o seu caso. Ele é racional, tanto que, relacionando meios com fins, está conseguindo manter seu regime de pé, ainda que sacrificando seu povo. Na verdade, ele é irrazoável, pois não compartilha do mesmo quadro de valores que rege o sistema internacional estabelecido pelo Ocidente.

Em se tratando de atores não-estatais, notadamente daqueles que são “fabricados” por governantes párias com a intenção de burlar impunemente as regras internacionais, a situação requer muito mais atenção. Como se tratam, em sua ampla maioria, de organizações “sem rosto”, desprovidas de base territorial fixa e cuja motivação é destruir e não partilhar o poder (VÍTOR DANIEL RODRIGUES VIANA; “O Conceito de Segurança Alargada e o seu Impacto nas Missões e Organização das Forças Armadas”, Boletim do Instituto de Altos Estudos Militares, Lisboa, Instituto de Altos Estudos Militares, IAEM, nº 58, 10 de novembro de 2003, p. 91-177), inexiste, pelo menos em tese, qualquer base racional que se possa extrair de suas “motivações intocáveis” aliada à sua adicional “desterritorialização”.

2. A Não Linearidade do Processo de Enriquecimento de Urânio

O processo de enriquecimento de urânio não é linear. Chegar ao grau de pureza de 60% de U-235 em relação à fonte, ou seja, o urânio natural U-238 (que apresenta, no meio ambiente, apenas 0,72% de U-235) representa entre 97% e 98% de todo o esforço necessário. Significa dizer que o trabalho para enriquecer de 60% a 90% (grau de uma arma atômica) é de menos de 3% de todo o empenho empreendido. Portanto, nesse sentido, o Irã estava, de fato, muito próximo de uma arma nuclear, ao menos na parte mais complexa e cara: o combustível.

3. A Arquitetura Funcional da Bomba Atômica

A arquitetura de uma arma atômica, ou seja, a construção da ogiva – inclusive sua miniaturização, viabilizando seu transporte – também é uma etapa complexa. Contudo, o Irã possui alta tecnologia de mísseis balísticos, faltando apenas a confecção do núcleo da ogiva, com os respectivos dispositivos de detonação: por implosão, como a Fat Man, a bomba de Nagasaki; ou por martelo de impacto, como a Little Boy, a bomba de Hiroshima. Ambos teoricamente muito bem descritos na literatura científica, possivelmente já desenvolvidos pelos cientistas iranianos com auxílio técnico norte-coreano – a exemplo da tecnologia dos mísseis balísticos – ou fornecidos diretamente por Pyongyang no âmbito de seu conhecido intercâmbio econômico-militar.

Video distribuido pela Agência de Notícias Iraniana FARS 25 MAR 2026
Guarda Revolucionária Islâmica ataca territórios ocupados e bases americanas com mísseis de precisão e drones A Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) afirmou que áreas nos territórios ocupados e diversas bases americanas na região foram atingidas com precisão usando os sistemas de mísseis Kheibar Shekan, Zolfaghar, Emad e Qadr com múltiplas ogivas, além de drones de patrulha.

4. A Operação “Fúria Épica” e o Enfraquecimento do BRICS

Embora a “Operação Fúria Épica” não seja uma empreitada militar direta contra o BRICS – originalmente formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, mas que hoje também conta com a participação da Arábia Saudita, do Egito, dos Emirados Árabes Unidos, da Etiópia, da Indonésia e do próprio Irã –, não há como descartar a possibilidade de os ataques promovidos em conjunto pelos EUA e por Israel enfraquecerem o bloco, o que representaria uma vitória para DONALD TRUMP, que nunca escondeu sua animosidade em relação ao BRICS. Recorde-se, por exemplo, que o presidente norte-americano, ao lançar mão de seu pacote de tarifas, também mirou os países que o integram, inclusive para barrar certas iniciativas de desdolarização que eles estavam adotando. A despeito de sua ampliação nos últimos anos, analistas acreditam que a capacidade de atuação desse organismo internacional, por diversas razões, é limitada. Assim, por se tratar de um grupo heterogêneo e desalinhado em termos político-ideológicos, é possível que o conflito contribua para ampliar as dissensões existentes entre os membros do BRICS, minando-o por dentro, o que certamente interessa a Washington, sobretudo em prol da manutenção da hegemonia geral estadunidense e financeira do dólar.

5. A Operação “Fúria Épica” e o Incremento da Transição Energética da China

Em meados de março de 2026, quando da reunião anual do Legislativo chinês, a liderança política da China, observando as severas consequências da Operação “Fúria Épica” para o mercado petrolífero, e estando ciente da dependência do país em relação ao produto – os chineses continuam sendo os maiores importadores desse combustível fóssil –, decidiu incrementar ainda mais a já acelerada transição energética da China para reduzir sua dependência em relação ao petróleo importado.

6. O Fechamento do Estreito de Ormuz

Sobre a possibilidade de fechamento do Estreito de Ormuz, é importante observar que tal fato prejudica muito mais a China do que propriamente aos Estados Unidos. O fluxo de petróleo que passa pelo estreito destinado aos EUA representa pouco mais de 15%, ao passo que para a China o valor gira em torno de 45%.

Não obstante não seja do interesse de Washington o fechamento do estreito em função do aumento dos preços do petróleo e dos derivados nos postos estadunidenses, que acompanham o preço internacional, o fato é que os EUA são os maiores produtores e praticamente autossuficientes em petróleo e gás natural, além de possuírem quatro fornecedores muito próximos do seu território: Canadá, México, Guiana e atualmente a Venezuela.

7. Ataques Aéreos

A tese segundo a qual ataques aéreos isolados não derrubam regimes não é completamente verdadeira. Na Líbia, o regime de MUAMMAR KADAFI foi derrubado sem que tropas ocidentais estivessem no terreno. O caos imposto pelas forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) debelou o regime, permitindo, em última análise, sua destituição.

Ainda que a anarquia que se instalou por lá, e não a substituição do regime por algo semelhante e desejado, tenha sido o resultado final daquele episódio, foi uma clara demonstração de que essa maneira de pensar, ainda que não possa ser vista como absoluta, é, no mínimo, verdadeira em parte.

8. O Desafio de Donald Trump

O verdadeiro desafio de DONALD TRUMP não é propriamente derrotar militarmente o Irã. É vencer politicamente as resistências internas, cada vez mais avessas a incursões militares no exterior, por parte da população estadunidense e do congresso nacional. Importante recordar que os Estados Unidos não foram derrotados, no Conflito da Indochina, pelo Vietnã do Norte, mas sim pela oposição parlamentar que impediu GERALD FORD (1974-77) de reagir em 1975 em apoio ao Vietnã do Sul.

9. A Derrota Norte-Americana na Guerra do Vietnã

Em grande medida, a derrota dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã foi decorrente das medidas tomadas pelo Congresso Nacional estadunidense, que simplesmente vetou que o Poder Executivo norte-americano agisse diante das novas investidas do regime comunista de Hanói contra Saigon em 1975.

Referências

ANTUNES, Paulo J. da Conceição. “A Alteração do Conceito de Dissuasão: Contributos para a sua Conceitualização”, Revista Militar nº 2.460, janeiro de 2007, p. 16-51.

COUTO, Abel Cabral. “Elementos de Estratégia”, v. II,Lisboa, Instituto de Altos Estudos Militares (IAEM), 1988.

GRAY, Colin. Maintaining Effective Deterrence, Strategic Studies Institute, 2003.

MORGAN, Patrick. Deterrence Now, Cambridge University Press, Cambridge Studies in International Relations, nº 89, 2003.

VERNET, Daniel. “Dissuasão Nuclear, a Herdeira da Guerra Fria”, ISTOÉ, 14 de agosto de 2017. Disponível em: <https://istoe.com.br/dissuasao-nuclear-a-herdeira-da-guerra-fria/>, acesso em: 17 de julho de 2025.

VIANA, Vítor D. Rodrigues. “O Conceito de Segurança Alargada e o seu Impacto nas Missões e Organização das Forças Armadas”, Boletim do Instituto de Altos Estudos Militares, Lisboa, Instituto de Altos Estudos Militares (IAEM), nº 58, 10 de novembro de 2003, p. 91-177.

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