Apesar do avanço chinês, os fundamentos da IA contemporânea permanecem amplamente concentrados no ecossistema ocidental. Além disso, empresas como Google DeepMind e OpenAI continuam liderando avanços críticos, especialmente em modelos fundacionais e IA generativa.
Por Ricardo Fan – DefesaNet
A ascensão da inteligência artificial como vetor central de poder redefine não apenas a economia global, mas, sobretudo, a lógica da guerra. Diferentemente de revoluções militares anteriores, a atual não se limita à introdução de novos armamentos, mas altera profundamente o processo decisório, a estrutura de comando e a própria natureza do combate. Nesse contexto, a disputa entre Estados Unidos e China emerge como o eixo central de transformação do poder militar contemporâneo.
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A base da disputa: tecnologia, indústria e estratégia nacional
A competição em inteligência artificial não ocorre em um vácuo tecnológico, mas se apoia em três pilares estruturais: capacidade de inovação, infraestrutura industrial e alinhamento estratégico.
A China formalizou sua ambição no plano do State Council of the People’s Republic of China, que estabelece a liderança global em IA como objetivo nacional até 2030. Esse direcionamento se traduz em forte coordenação entre Estado, indústria e setor militar, consolidando um modelo de desenvolvimento orientado ao poder nacional.
Por outro lado, os Estados Unidos mantêm liderança nos fundamentos tecnológicos da IA, com centros de excelência como OpenAI e Google DeepMind, além de um ecossistema altamente inovador e competitivo. Essa base garante vantagem na fronteira tecnológica, especialmente em modelos avançados e sistemas complexos.
Essa dicotomia — coordenação estatal versus inovação descentralizada — permeia toda a disputa.
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Doutrina militar: duas visões de guerra algorítmica

No campo militar, a divergência entre os dois países se torna ainda mais evidente.
Os Estados Unidos estruturam sua doutrina em torno do conceito de guerra em rede, materializado em iniciativas como o JADC2, sob coordenação do US Department of Defense. O objetivo é integrar todos os domínios — terrestre, aéreo, naval, espacial e cibernético — em um sistema único de comando e controle, reduzindo drasticamente o tempo entre detecção e ação.
A China, por sua vez, adota o conceito de “guerra inteligente”, promovido pelo People’s Liberation Army. Essa abordagem enfatiza a fusão entre inteligência artificial, big data e comando centralizado, com forte integração entre capacidades civis e militares.
Enquanto os Estados Unidos priorizam a autonomia distribuída e a flexibilidade operacional, a China aposta na centralização e na coordenação sistêmica como forma de maximizar eficiência e controle.
– A estratégia chinesa: ambição, escala e coordenação estatal
A base da ascensão chinesa em inteligência artificial está formalizada no plano estatal lançado pelo State Council of the People’s Republic of China em 2017, que estabelece explicitamente a meta de liderança global até 2030¹.
Esse movimento não é retórico. Ele se materializa em três vetores principais: escala de dados, coordenação estatal e aplicação massiva. A China dispõe de um ambiente regulatório que permite coleta e utilização de dados em níveis dificilmente replicáveis no Ocidente, especialmente em áreas como reconhecimento facial e monitoramento urbano².
Além disso, o modelo chinês integra Estado, setor privado e aparato de segurança, criando um ecossistema onde a IA é tratada como ferramenta de poder nacional — não apenas como inovação econômica³.
Ainda assim, essa vantagem é predominantemente operacional, não necessariamente estrutural.
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Drones e sistemas autônomos: escala contra sofisticação

Os sistemas não tripulados tornaram-se o símbolo mais visível da guerra baseada em IA. Nesse domínio, a diferença entre os dois países reflete suas estratégias mais amplas.
A China apresenta clara vantagem em produção em massa. Sua base industrial permite fabricar drones e munições vagantes em larga escala, favorecendo táticas de saturação e desgaste. Esse modelo privilegia volume e redundância.
Os Estados Unidos, em contraste, concentram-se na integração de sistemas. Projetos como o “loyal wingman” e enxames coordenados por IA buscam operar em conjunto com plataformas tripuladas, ampliando a eficácia em ambientes altamente contestados.
Essa diferença revela duas filosofias operacionais: quantidade como força versus integração como multiplicador.
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C4ISR: o verdadeiro centro de gravidade

Se os drones representam a face visível da nova guerra, o verdadeiro núcleo do poder reside no C4ISR — comando, controle, comunicações, computação, inteligência, vigilância e reconhecimento.
Os Estados Unidos mantêm vantagem significativa nesse domínio, fruto de décadas de experiência em operações conjuntas e da capacidade de integrar sensores globais em tempo real. Programas ligados à DARPA têm sido centrais nesse avanço.
A China, embora em rápida evolução, ainda enfrenta desafios na interoperabilidade e maturidade operacional. Contudo, compensa essas limitações com investimentos massivos e foco em negação de acesso, buscando degradar as redes adversárias.
Nesse cenário, a superioridade não depende apenas de possuir informação, mas de processá-la e agir antes do adversário.
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Guerra cognitiva: o domínio invisível

A dimensão mais disruptiva da IA militar está na esfera cognitiva. Trata-se da capacidade de influenciar percepções, moldar narrativas e afetar processos decisórios — tanto de populações quanto de lideranças.
A China demonstra vantagem estrutural nesse campo, apoiada em um ecossistema digital altamente controlado e integrado. Estudos do Brookings Institution e do Australian Strategic Policy Institute apontam para o uso sistemático de ferramentas digitais e IA em campanhas de influência e desinformação.
Os Estados Unidos possuem alcance global e capacidade tecnológica comparável, mas operam sob restrições institucionais que limitam o controle interno do ambiente informacional.
O resultado é um novo campo de batalha, onde a disputa ocorre antes mesmo do conflito cinético.
– A fronteira tecnológica: onde o Ocidente ainda domina
Apesar do avanço chinês, os fundamentos da IA contemporânea permanecem amplamente concentrados no ecossistema ocidental.
Relatórios do Stanford Institute for Human-Centered AI indicam que os modelos mais avançados de IA ainda são majoritariamente desenvolvidos por instituições e empresas dos Estados Unidos⁴. Esse domínio se estende à pesquisa fundamental, arquitetura de modelos e produção científica de alto impacto.
Além disso, empresas como Google DeepMind e OpenAI continuam liderando avanços críticos, especialmente em modelos fundacionais e IA generativa.
Essa assimetria revela um ponto central: liderar em aplicação não equivale a liderar na fronteira tecnológica.
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O fator industrial: quem sustenta a guerra de IA

Nenhuma dessas capacidades seria possível sem a base industrial que sustenta a inteligência artificial.
Empresas como TSMC e Samsung Electronics produzem os semicondutores mais avançados do mundo, essenciais para sistemas militares baseados em IA.
Esse elemento introduz uma variável crítica: a dependência de cadeias globais de suprimento. A disputa por IA é, em última instância, também uma disputa por controle industrial.
– O fator decisivo: velocidade da decisão
A principal transformação trazida pela IA na guerra não é apenas tecnológica, mas temporal.
A capacidade de:
- coletar dados
- processar informações
- tomar decisões
em escalas de tempo cada vez menores redefine o combate.
Nesse aspecto:
- os EUA lideram na qualidade dos sistemas
- a China busca compensar com escala, integração estatal e rapidez de implementação
A disputa, portanto, não é apenas sobre poder de fogo, mas sobre quem decide mais rápido e com melhor informação.
– Mito versus realidade: desmontando a ideia de domínio chinês
A análise integrada das evidências permite desmontar a noção de hegemonia chinesa em IA.
A China avançou de forma significativa — especialmente em escala, implementação e integração estatal. No entanto, permanece dependente de componentes críticos controlados externamente e ainda não lidera de forma consistente a fronteira tecnológica.
Relatórios do Australian Strategic Policy Institute reforçam que a liderança global em tecnologias avançadas é fragmentada, com diferentes países dominando diferentes segmentos⁷.
Portanto, a ideia de domínio deve ser substituída por um conceito mais preciso: competição sistêmica multidimensional
– O segundo círculo de poder: Japão, Coreia do Sul e Taiwan
Enquanto o debate público se concentra na rivalidade entre Estados Unidos e China, há um conjunto de atores que sustenta silenciosamente essa competição.
O Japão, por meio de políticas do METI, busca recuperar relevância na indústria de semicondutores e materiais avançados⁶. Sua força reside na base industrial e na produção de componentes críticos.
A Coreia do Sul, por sua vez, ocupa posição dominante na produção de memória, elemento essencial para sistemas de IA em larga escala, com destaque para empresas como Samsung e SK Hynix.
Taiwan, por fim, representa o ponto mais sensível de toda a cadeia global. A centralidade da TSMC na fabricação de chips avançados transforma a ilha em um verdadeiro centro de gravidade tecnológico, com implicações geopolíticas diretas.
– O gargalo decisivo: semicondutores e poder industrial
A disputa pela IA encontra seu ponto mais sensível na cadeia de semicondutores.
Estudos do Center for Strategic and International Studies demonstram que as restrições impostas pelos Estados Unidos à exportação de chips avançados para a China impactam diretamente sua capacidade de desenvolver modelos de última geração⁵.
Nesse contexto, atores como TSMC e Samsung Electronics tornam-se centrais, pois concentram a produção dos chips mais avançados do mundo.
Isso desloca o eixo da disputa: não se trata apenas de algoritmos, mas de controle sobre a infraestrutura física da inteligência artificial.
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Conclusão: a guerra do tempo e da decisão

A competição entre Estados Unidos e China em inteligência artificial não aponta para uma vitória clara, mas para a formação de dois modelos distintos de poder militar.
Os Estados Unidos mantêm vantagem em tecnologia de ponta, integração e experiência operacional. A China avança com rapidez em escala, coordenação estatal e exploração do domínio informacional.
Mais do que qualquer plataforma ou sistema específico, o fator decisivo dessa nova era é o tempo. A capacidade de coletar dados, processá-los e tomar decisões em velocidades superiores redefine o conceito de superioridade militar.
A guerra do futuro não será vencida apenas por quem possui mais armas, mas por quem melhor integra inteligência, algoritmos e comando em tempo real.
Nesse contexto, a inteligência artificial deixa de ser um instrumento de apoio e se torna o próprio centro de gravidade do poder estratégico contemporâneo.
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¹ State Council of China — New Generation Artificial Intelligence Development Plan (2017)
² Brookings Institution — estudos sobre vigilância digital na China
³ CSET (Georgetown University) — relatórios sobre estratégia chinesa em IA
⁴ Stanford HAI — AI Index Report (últimas edições)
⁵ CSIS — análises sobre restrições de semicondutores e política tecnológica dos EUA
⁶ METI (Japão) — políticas industriais e estratégia de semicondutores
⁷ ASPI — relatórios de critical technology tracking
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