O Brasil no radar da inteligência dos EUA

O Brasil no radar da inteligência dos EUA

Fiel Observador
DefesaNet
Fevereiro 2026

A inclusão do Brasil no Intelligence Authorization Act for Fiscal Year 2026 representa um divisor de águas silencioso, porém profundo, para a segurança nacional brasileira. Não se trata de nota burocrática, tampouco de curiosidade legislativa. Trata-se de um ato político-estratégico, no qual o Congresso dos Estados Unidos determina que sua comunidade de inteligência avalie especificamente os investimentos chineses no setor agrícola brasileiro.

Quando uma potência global mobiliza seus serviços de inteligência para analisar um setor-chave da economia de outro país, a mensagem é inequívoca: o Brasil deixou de ser apenas parceiro e passou a ser percebido como variável de risco estratégico. Ignorar esse fato é erro grave. Minimizar seu alcance é irresponsabilidade institucional.

O enquadramento americano é claro — e não é econômico

Os Estados Unidos não estão preocupados com o agronegócio brasileiro por razões comerciais. A agricultura, para Washington, passou a integrar o núcleo duro da segurança nacional. Alimentos, terras, logística, infraestrutura e dados deixaram de ser ativos econômicos neutros e passaram a ser instrumentos de poder estratégico.

O Brasil, como um dos maiores produtores de alimentos do mundo, ocupa posição central nesse tabuleiro. Quem exerce influência relevante sobre esse sistema detém capacidade indireta de pressão política, barganha geopolítica e coerção econômica. É sob essa lógica que os investimentos chineses no Brasil são analisados — não como negócios privados, mas como extensões da estratégia de poder de Pequim.

O relatório exigido pela lei americana não é um exercício acadêmico. Relatórios de inteligência servem para embasar decisões futuras: restrições tecnológicas, pressões diplomáticas, condicionantes comerciais e redefinições de alianças. O Brasil entrou formalmente nesse circuito decisório — sem ter sido consultado e sem estar preparado.

Os Estados Unidos e outras potências integram segurança econômica à doutrina de defesa, o Brasil insiste em tratar setores estratégicos como simples oportunidades de investimento. Essa dissonância pode ser perigosa e transformar o Brasil em adversário econômico ou problema de segurança.

O Estado brasileiro não dispõe de um sistema robusto de triagem estratégica de investimentos estrangeiros. Não há coordenação efetiva entre Defesa, Inteligência, Economia e Relações Exteriores. Terras, cadeias logísticas, infraestrutura portuária e dados do agronegócio avançam sob capital externo sem uma avaliação sistemática de impacto estratégico.

O resultado é uma assimetria perigosa: o Brasil é analisado por serviços de inteligência estrangeiros enquanto se recusa a analisar a si mesmo sob a ótica da segurança nacional.

A menção ao Brasil no documento americano expõe fragilidades estruturais que o país evita enfrentar.

Primeiro, agricultura é poder estratégico. Países que controlam alimentos controlam estabilidade interna e capacidade de resistência em crises globais. Tratar isso como commodity neutra é ingenuidade estratégica.

Segundo, dados agrícolas são ativos de inteligência. Informações sobre safras, clima, estoques, logística e produtividade permitem antecipar mercados, influenciar preços e pressionar governos. Quem controla esses fluxos detém poder silencioso, porém decisivo.

Terceiro, dependência econômica gera coerção política. No século XXI, a submissão raramente se impõe por meios militares diretos. Ela se manifesta por vetos velados, restrições de tecnologias como a ITAR, pressões regulatórias, condicionantes tecnológicos e alinhamentos forçados. O Brasil começa a sentir esse dilema — e tende a senti-lo com mais intensidade.

Relação com os EUA: parceria ou tutela estratégica?

O episódio revela uma verdade desconfortável: Washington não age por altruísmo. O monitoramento do Brasil atende exclusivamente aos interesses estratégicos americanos. A cooperação pode se aprofundar, mas nos termos definidos por quem detém poder.

Sem postura firme, o Brasil corre o risco de:

  • aceitar condicionantes estratégicos sem contrapartidas reais;
  • subordinar decisões soberanas a análises produzidas fora do território nacional;
  • ser enquadrado como “problema de segurança” em vez de parceiro confiável.

O Brasil precisa reconhecer formalmente que segurança econômica é segurança nacional. Agricultura, terras, logística, energia e dados devem ser tratados como ativos estratégicos, sob coordenação direta do núcleo de defesa do Estado.

INTELLIGENCE AUTHORIZATION ACT FOR FISCAL YEAR 2026 JULY 29, 2025
—Ordered to be printed Mr. COTTON, from the Select Committee on Intelligence

Section 514. Assessment and report on investments by the People’s Republic of China in the agriculture sector of Brazil Section 514 requires the  Director of National Intelligence (DNI) in consultation with the Secretary of State and the Secretary of Agriculture, to assess the extent of the People’s Republic of China’s (PRC) investments in Brazil’s agriculture sector.

É imperativo criar um mecanismo nacional de controle e avaliação de investimentos estratégicos, capaz de identificar riscos de longo prazo e evitar dependências críticas. Persistir sem esse instrumento é aceitar vulnerabilidade permanente.

A inteligência econômica deve ser integrada à defesa nacional. País que não compreende quem controla seus ativos estratégicos opera às cegas.

O Brasil precisa abandonar a ilusão da neutralidade passiva. Neutralidade sem poder não é autonomia — é submissão disfarçada.

A presença do Brasil em um documento central da inteligência americana é um alerta inequívoco. O país entrou definitivamente no radar da disputa estratégica global — sem doutrina, sem instrumentos e sem consenso interno.

A omissão brasileira já não é apenas falha política. É risco direto à segurança nacional.

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