COBERTURA ESPECIAL - Guerras Híbridas Latinas - Pensamento

01 de Agosto, 2021 - 00:38 ( Brasília )

Relatório Otálvora: Pacto Cocalero promove Castro-Chavismo

A posse do presidente peruano Pedro Castillo mostra uma articulação da esquerda sem precedentes no continente


 

EDGAR C. OTÁLVORA
Publicado no Diario Las Americas
30 de julho de 2021
@ecotalvora




A exemplo do que aconteceu com Hugo Chávez em 1999, o novo presidente do Peru tomou posse, prometendo acabar com a Constituição que lhe permitiu chegar ao poder. Pedro Castillo é um militante de esquerda radical que atua na política há uma década e paralisou o sistema educacional público peruano em 2017. Ele chegou à presidência com as bandeiras do partido Peru Libre, organização criada por um operador político formado em Cuba.

Para a inauguração de Castillo, foram especialmente convidados Manuel López Obrador, Nicolás Maduro e Miguel Díaz-Canel, que preferiram ficar cuidando da casa e enviaram seus respectivos chanceleres. O rei da Espanha, os presidentes da Colômbia, Chile e Equador, bem como os vice-presidentes do Brasil e do Paraguai, foram a Lima para acompanhar a ascensão de Castillo, que fez esforços, não muito críveis, para se mostrar politicamente moderado.

Ainda no dia 26JUL2021, o Secretário de Estado dos Estados Unidos, Antony Blinken, fez uma ligação telefônica para Castillo no qual destacou "a aliança duradoura e a longa história de estreita cooperação" entre o Peru e os Estados Unidos. Curiosamente, Blinken "agradeceu ao Peru por seu apoio no tratamento da crise na Venezuela e expressou esperança de que o Peru continue a desempenhar um papel construtivo no tratamento da deterioração da situação em Cuba e na Nicarágua". Parece que, como em outras chancelarias da América e da Europa, ainda há dúvidas sobre a tendência política que nortearia o novo governo peruano.

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O presidente argentino, Alberto Fernández, também chegou a Lima, que se tornou parte singular da ofensiva Castro-Chavista pela retomada do poder em vários países sul-americanos. Mas enquanto a diplomacia oficial mostrava a presença de lideranças estrangeiras em Lima, houve uma diplomacia paralela com a chegada à capital peruana de vários aliados internacionais, operadores internacionais de esquerda, que viajaram como convidados especiais.

Entre os visitantes de Lima esteve o espanhol Juan Carlos Monedero, que esteve envolvido na elaboração das constituições promovidas por Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correa e que já aparece como um dos assessores da constituição que Pedro Castillo tentará impor. Aliás, em função do movimento para estabelecer uma nova Constituição no Peru, a aliança Castro-Chavista já vem desenvolvendo várias atividades com assessores internacionais, incluindo Monedero, e em que a ex-candidata Verónika Mendoza, um recorde de Castrochavismo no Peru, está ativo.

Entre os convocados para estar em Lima, em 28JUL2021, figura em particular o ex-presidente boliviano Evo Morales. O boliviano decidiu entrar no Peru por via terrestre, na passagem de fronteira de Desaguadero, em 26JUL2021. Vários eventos políticos foram liderados por Morales em seu caminho para a capital.
 

 

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Evo Morales, além dos seguranças e auxiliares, entrou no Peru acompanhado de uma delegação das "Seis Federações do Trópico de Cochabamba”, organização de produtores de coca que preside. Durante todos os seus governos, Evo Morales manteve a presidência da organização cocaleira que mantém estrito controle territorial de uma área. As “Organizações Sociais” Cocaleras responderam a um convite expresso de Pedro Castillo. Como o próprio Castillo revelou recentemente, seu primeiro encontro com Morales teria ocorrido em meados da década passada, precisamente em Cochabamba.

No dia 27JUL2021, quando ocorreu o encontro privado entre Morales e Castillo em Lima, o boliviano estava acompanhado pelos delegados da federação da coca e seu ex-chanceler Fernando Huanacuni. "De parceiro a parceiro" Morales propôs a Castillo uma aliança para "defender" nossas revoluções democráticas "e definir um plano binacional entre Castillo e o governo boliviano presidido por Luis Arce.

Depois do encontro entre Castillo e Morales, o boliviano se reuniu com "lideranças sociais" de áreas de produção de coca no Peru. O encontro com os cocaleiros peruanos foi convocado por Guillermo Bermejo Rojas, deputado da lista partidária de Castillo, ativista castrista-chavista, viajante a Caracas para participar de eventos “antiimperialistas” e líder das atividades de apoio a Nicolás Maduro, em Lima. No encontro organizado por Bermejo, Evo Morales apresentou abertamente sua proposta para que os governos da Bolívia e do Peru organizem um "conselho andino da coca". A legislação peruana homóloga com a da Bolívia sobre a produção de coca é a proposta que Morales maneja e que o peruano Bermejo anuncia como política do novo governo do Peru.

A propósito, antes de sua posse, Castillo visitou a Província de La Convencion, a maior área produtora de coca do Peru.

 

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Embora Luis Arce tenha participado dos atos de posse de Castillo com seu chanceler Rogelio Mayta e até mesmo realizado uma reunião privada, o novo governo do Peru conferiu a Evo Morales o status de chefe de estado virtual. A condição de duas cabeças que o poder atualmente tem na Bolívia e a especial estava em evidência.

Morales não foi um simples “convidado especial” no cerimonial desenhado pela equipe política, que rodeia Castillo e que decidiu mostrar a sua ligação clara com o Castro-Chavismo internacional através de Evo Morales. Na verdade, outros ex-presidentes Castro-Chavistas, como o ex-presidente hondurenho Manuel Zelaya, apareceram na lista de convidados, sem dar a ele a notoriedade que Morales tinha.

Morales teve encontro e jantar com Vladimir Cerrón fundador, dono e chefe do partido Peru Libre, em 26JUL2021. Cerrón levou Morales ao suntuoso restaurante Costanera 700, de onde publicou fotos que mostravam uma mesa onde ele sorria e conversava com Morales. Não foi apenas uma cortesia de Cerrón para Morales, mas sua forma de mostrar sua ligação especial com o boliviano. Cerrón estudou medicina em Cuba nos anos 1990 e desde então é agente público do governo cubano na política peruana. É o ideólogo da candidatura de Pedro Castillo e até agora atuou como elo de ligação de Castillo com a internacional Castro-Chavista.

Na noite de 26JUL2021 , Cerrón divulgou a notícia de seu encontro com Morales, dois dias após a inauguração de Castillo, que fez com que um grande grupo de repórteres esperasse na porta do restaurante quando os ilustres convidados saíram do local. Vários vídeos mostraram Cerrón dando declarações e elogiando a visita de Morales enquanto o boliviano deixava o local de lado com sinais visíveis de afetação, talvez pelos vinhos que acompanharam o jantar.


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Já nos eventos da ,em 28JUL2021, Morales foi colocado ao lado do vice-presidente do Brasil, Hamilton Mourão, no grupo de líderes estrangeiros que receberam homenagens militares a caminho da posse de Castillo. Após a cerimônia de posse, no almoço oferecido aos presidentes e delegações estrangeiras presentes, Morales sentou-se imediatamente à esquerda de Castillo, que à sua direita estava o Rei Felipe VI da Espanha. Em 29JUL2021, Morales embarcou em um helicóptero do Exército Peruano que transportava líderes estrangeiros, inclusive o chileno Sebastián Piñera, que acompanhou Castillo a uma “juramentação simbólica” no monumento à Batalha de Ayacucho (1824).

A construção de uma imagem para Castillo envolve apresentá-lo, como aconteceu com Chávez, como uma continuação da guerra de independência do século 19 e um defensor ardente dos direitos dos povos indígenas e camponeses. Além disso, a intenção política de identificar Castillo com o presidente “indígena” Morales chegou até ao nível do simbólico. O peruano jvestiu uma jaqueta preta com cores vivas da bandeira boliviana, no estilo qu
e Evo Morales usa desde sua chegada à presidência. A jaqueta de Morales é um projeto personalizado para o boliviano, feito pela estilista boliviana-nova-iorquina Beatriz Canedo Patiño, que criou seus produtos exclusivos com lã de camelídeo.

 

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Na noite de 29 de julho de 21, no Teatro Nacional de Lima e não no Palácio do Governo, Pedro Castillo deu a conhecer os membros do seu gabinete ministerial e os empossou .

As ilusões que alguns setores democráticos peruanos tinham sobre a possível amplitude ideológica do novo governo foram enterradas. Castillo optou por não nomear ministro da Fazenda, cargo para o qual havia sido mencionado o economista Pedro Francke, esquerdista com bom trânsito em vários setores peruanos. O cargo de Presidente do Conselho de Ministros, figura central na estrutura do governo peruano, foi atribuído a Guido Bellido, homem intimamente ligado a Vladimir Cerrón e que assegura a existência de um governo democrático em Cuba.



 
O cargo de chanceler foi atribuído a Héctor Béjar Rivera, sociólogo e professor universitário que, na década de 1960, integrou as brigadas internacionais criadas pelo governo cubano para promover movimentos guerrilheiros na América Latina. No currículo do novo chanceler do Peru, surge em 1964 a fundação da organização guerrilheira ELN.

A propósito, só há uma mulher no gabinete de Castillo. A campanha internacional, liderada por Dilma Rousseff em 2019, é lembrada para desacreditar o governo de Jair Bolsonaro pelo baixo número de mulheres em cargos ministeriais no Brasil.
 


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