COBERTURA ESPECIAL - Guerras Híbridas Latinas - Geopolítica

13 de Julho, 2021 - 08:00 ( Brasília )

Protestos colocam Cuba na lista de prioridades de Biden


Protestos históricos em Cuba colocaram na lista de prioridades do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, a situação social do país, um tema que ele pretendia fazer avançar lentamente e, segundo especialistas, provavelmente arruinará as perspectivas de uma nova abertura para a ilha a curto prazo.

Biden emitiu um comunicado expressando sua solidariedade " ao povo cubano e a seu grito por liberdade", enquanto a Casa Branca advertia as autoridades cubanas para não usarem a força depois que milhares de pessoas saíram às ruas no domingo em meio à pior crise econômica em décadas.

Os Estados Unidos mais uma vez endureceram sua política em relação a Cuba com o governo de Donald Trump (2017-2021), após a normalização das relações durante o mandato de Barack Obama (2009-2017), que considerou que os esforços realizados em mais de meio século por Washington para derrubar o regime de Havana falharam.

Biden, que foi vice-presidente de Obama, ordenou uma revisão da política sobre Cuba ao assumir o cargo, mas a Casa Branca disse claramente que não tem pressa e que a questão "não está atualmente entre as principais prioridades do presidente".

A postura em relação a Cuba segue em linha com a política interna dos Estados Unidos, com uma comunidade cubano-americana fervorosamente anticomunista com enorme peso eleitoral na Flórida, um estado-chave para se chegar à Casa Branca.

Ryan Berg, especialista em América Latina no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, disse que o governo Biden vê mais urgência em abordar a migração da América Central, outro assunto doméstico quente, do que a situação com Cuba.

"Isso naturalmente teve precedência sobre um país que está congelado no tempo há mais de 60 anos. É muito difícil avançar sobre Cuba e tentamos todos os tipos de coisas", disse Berg.

Prestar atenção

Como candidato, Biden estava disposto a restaurar os avanços obtidos durante o governo Obama, retirando as restrições às remessas e viagens a Cuba, que fica a apenas 90 milhas da Flórida. Mas ele ainda não cumpriu essa promessa e permaneceu em silêncio sobre uma decisão de última hora do Departamento de Estado de Trump de declarar Cuba um Estado patrocinador do terrorismo, algo que acarreta sanções severas.

Berg espera que Biden acelere a revisão da política para a ilha, mas disse que seria difícil para o democrata renovar a abertura se Cuba reprimir os protestos. "Isso poderia forçar o governo Biden a recuar, embora pelo menos o force a prestar atenção", explicou.

Da mesma forma, Biden mostrou pouco interesse em mudar a política em relação à Venezuela, onde Trump tentou sem sucesso destituir o presidente de esquerda Nicolás Maduro. Além disso, na semana passada, Biden foi forçado a enfrentar outra questão regional que estava em segundo plano: o assassinato do presidente haitiano, Jovenal Moise.

No entanto, Washington não respondeu favoravelmente ao pedido do país caribenho para enviar tropas. Os democratas controlam o Congresso com uma margem muito estreita e o chefe do Comitê de Relações

Exteriores do Senado, o cubano-americano Bob Menéndez -crucial para fazer avançar as indicações do governo- rompe com grande parte do partido ao favorecer uma linha dura em relação ao governo de Havana.

Motivação política

Outra questão que Biden provavelmente tenha em mente é o Irã. Obama se manteve cauteloso em seus comentários sobre a violenta repressão aos protestos no país do Oriente Médio, ciente de que o regime clerical - como o presidente cubano Miguel Díaz-Canel - estava ansioso para vincular os manifestantes aos Estados Unidos.

Em suas memórias pós-presidenciais, Obama disse que estava profundamente incomodado com a "abordagem passiva" recomendada por seus conselheiros, o que atraiu forte condenação do adversário Partido Republicano. E os republicanos já mostraram suas garras na resposta do governo Biden ao que aconteceu em Cuba, incluindo um tuíte de Julia Chung, diplomata encarregada da América Latina, que vinculou os protestos na ilha aos crescentes casos de covid-19.

O senador Marco Rubio, um republicano da Flórida e crítico ferrenho de Havana, chamou o comentário de "ridículo" e advertiu que as autoridades cubanas tentariam "chantagear" Biden ameaçando um êxodo de embarcações se ele não restaurasse a política de Obama. John Kavulich, presidente do Conselho Econômico e Comercial dos Estados Unidos-Cuba, que assessora empresas americanas na ilha, disse que os protestos vão gerar pressões para que se conclua a revisão de Cuba, embora duvide que Biden algum dia restabeleça as medidas de Obama, como permitir cruzeiros.

"Cada mícron da política americana que afeta a República de Cuba é visto pelo governo Biden através de um microscópio político: aprovando legislação, nomeações, orçamentos, teto de dívida e infraestrutura e outras medidas em 2021 e, em seguida, preparando-se para as eleições de 2022 e 2024,", concluiu.

Entenda o que motiva os protestos em Cuba

No último domingo (11), protestos contra o governo cubano eclodiram em diversas cidades da ilha e em Miami, nos Estados Unidos. Os manifestantes expressaram seu descontentamento com a atual situação econômica e social do país, muito agravada durante a pandemia de Covid-19. Em 2020, o PIB cubano caiu 11%.

Além disso, o país, que depende de importar 70% de tudo que consome, sofre com escassez, causada principalmente pelo fechamento das fronteiras por conta da pandemia e pelo bloqueio econômico norte-americano. Entre os problemas que atingem a população está a falta de comida.

A escassez levou o Estado a autorizar que camponeses matem vacas e bois para consumo próprio. No pedido ao governo pelo direito de abater o animal, é preciso declarar quanto leite a vaca já produziu e quantos quilos tem o boi.

Há também menos voos internacionais, o que diminuiu a entrada de dólares na ilha enviados por cubanos que vivem em outros países, em especial nos Estados Unidos. Segundo dados oficiais, 65% das famílias cubanas recebiam ajuda de parentes.

Outra perda econômica para o país foi na área do turismo, que é uma das principais fontes de recursos e responde por 10% do PIB do país, somando áreas relacionadas, como a gastronomia.

A produção de açúcar, outra atividade econômica essencial para Cuba, foi afetada por uma grande seca que se agrava há anos por conta de alterações climáticas.

O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, que também é líder do Partido Comunista Cubano, se pronunciou em rede nacional de televisão e rádio, junto com outros membros do governo, sobre os protestos.

Segundo o presidente, grande parte das dificuldades enfrentadas pelos cubanos são consequência do bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos. Este bloqueio, lembrou Díaz-Canel, ficou mais duro em 2019, depois de uma decisão do ex-presidente Donald Trump e que ainda não foi revista pelo atual presidente Joe Biden.

“Se querem ter um gesto com Cuba, se de verdade se preocupam, abram o bloqueio e vamos ver como tocamos”, declarou.

Pandemia

Além dos problemas econômicos, a população da ilha enfrenta dificuldades com a pandemia de coronavírus. Mesmo com um sistema de saúde público e universal, faltam hospitais para atender todos os doentes.

Mesmo com as dificuldades, Cuba também está desenvolvendo sua própria vacina, a Soberana, que apresentou bons resultados em testes clínicos.

Os protestos aconteceram um dia depois de o governo ter negado um pedido de dissidentes para criar um "corredor humanitário", viabilizando a chegada de remédios.

O Ministério das Relações Exteriores emitiu um comunicado que reconhece a crise sanitária do país, mas afirmou que já estão sendo realizados esforços receber auxílio externo.

Em uma publicação nas redes sociais, o chanceler Bruno Rodríguez afirmou que "Cuba recebeu doações de insumos médicos de 20 países, e outras 12 estão em processo de envio".

no domingo dos protestos, Cuba registrou um recorde de novos casos e mortes por Covid-19. Foram 6.923 casos e 47 mortes em 24 horas. No total, o país teve 238.491 casos e 1.537 mortes.


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