Rússia pode estar por trás da Guerra de Lixo entre Coreias

Eventos como o envio com balões de lixo para a Coreia do Sul, que disparou “tiros de advertência”, aumentam alerta de conflitos. Moscou dita o tom mais agressivo do ditador Kim Jong Un?

(DW) Tensões na fronteira são um fato da vida na península coreana, mas analistas alertam que a atual sequência de incidentes – tiroteios na zona desmilitarizada, balões transportando propaganda tanto para o Norte quanto para o Sul e uma retórica mais agressiva de Pyongyang – parece “diferente” e mais alarmante do que o normal.

Alguns interpretam o momento como um aviso do ditador norte-coreano, Kim Jong Un, de que abandonou qualquer pretensão de cooperar com o Sul. Outros dizem que ele está tocando o tambor da guerra para distrair seu povo faminto e insatisfeito.

Mas há outra explicação, muito mais preocupante: a mais recente escalada pode ser um sinal de que Kim finalmente conseguiu o apoio inacondicional da Rússia e está confiante de que o presidente russo, Vladimir Putin, o apoiaria militarmente caso fosse necessário.

Por isso, Kim se permitiria ultrapassar as linhas vermelhas que mantiveram os dois lados sob controle na fronteira desde o fim da Guerra da Coreia, em 1953. Além disso, analistas temem que até mesmo um pequeno confronto em terra, no mar ou no ar poderia aumentar rapidamente se nenhum dos lados recuar, transformando potencialmente um incidente localizado numa situação muito mais séria.

Uma Pyongyang nova e diferente

“Podemos ver claramente uma mudança recente no comportamento da Coreia do Norte, tornando-se mais agressiva”, observa Hyun Seung-soo, especialista em relações entre a Coreia do Norte e a Rússia no Korea Institute for National Unification, com sede em Seul.

“Isso se deve à mudança no relacionamento entre Moscou e Pyongyang, com Putin optando pela parceria com a Coreia do Norte, como parte de sua estratégia política global.”

De acordo com os Estados Unidos e outros governos ocidentais, no contexto desse acordo a Coreia do Norte forneceu à Rússia milhões de projéteis de artilharia e uma quantidade desconhecida de mísseis, empregados na guerra contra a Ucrânia. Tanto Moscou quanto Pyongyang negaram a transferência de armas.

Em troca, acredita-se que a Rússia tenha fornecido combustível para a Coreia do Norte, assim como alimentos urgentemente necessários, e que cientistas russos estejam colaborando no desenvolvimento do arsenal militar do Norte, inclusive com mísseis, satélites e armas nucleares. Se confirmada, essa assistência violaria as resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas, das quais a Rússia é signatária.

“Concordo plenamente que Kim está mais perigoso agora, por estar confiante de que tem um amigo grande e poderoso na Rússia”, estima Hyun. “Ele poderia ver isso como uma chance de tomar ações militares contra o Sul; esse recente comportamento grosseiro é muito perigoso.”

Balões transportando lixo e dejetos humanos

O súbito aumento da agressão transfronteiriça pode ser atribuído à tentativa fracassada do Norte de lançar um foguete com um satélite em órbita em 27 de maio. O lançamento foi amplamente condenado, inclusive na Coreia do Sul, como uma violação das resoluções do Conselho de Segurança da ONU.

Pyongyang dobrou a aposta, lançando uma barragem de mísseis balísticos de curto alcance no Mar do Japão e, mais recentemente, milhares de balões de hélio transportando lixo e dejetos humanos através da fronteira com o Sul. Os balões provocaram poucos danos, mas foram tachados de “asquerosos”.

Por sua vez, Seul ordenou a reinstalação de vastos sistemas de alto-falantes na fronteira, transmitindo para o Norte mensagens de propaganda anti-Kim.

A escalada do “olho por olho” continuou, com Pyongyang também instalando sistemas de alto-falantes na fronteira e reforçando que não reconhece a fronteira marítima ao largo da costa oeste da península.

A irmã do ditador norte-coreano, Kim Yo Jong, também alertou que o Sul será alvo de uma “nova contra-ação” não especificada, se continuar a transmitir propaganda pela fronteira. No passado, o Norte ameaçou usar artilharia de longo alcance para destruir os alto-falantes. Analistas também sugeriram que ele poderia recorrer a ataques com drones.

Norte “parece muito irritado”

No domingo (09/06), a tropa sul-coreana estacionada na zona desmilitarizada (DMZ), que divide a península, disse ter disparado “tiros de advertência” em reação a uma unidade de cerca de 50 soldados do Norte que cruzou a fronteira intercoreana. O Sul minimizou o incidente, sugerindo que os soldados teriam cruzado inadvertidamente a linha divisória mal demarcada.

No entanto, relatos de tiroteios na fronteira geraram preocupação. “Esse confronto parece diferente, mais perigoso do que das vezes anteriores”, comenta o ex-diplomata Rah Jong-yil, alto oficial da inteligência sul-coreana: “A tensão parece maior, assim como a possibilidade de conflito.”

EUA dobram apoio a Seul

Principal aliado do Sul, os Estados Unidos empreenderam uma série de medidas e declarações de alto nível nas últimas semanas para reiterar seu comprometimento com a Coreia do Sul.

Um submarino da Marinha americana esteve atracado num porto local; um bombardeiro B-1, com capacidade nuclear, voou em missão perto da fronteira, acompanhado por caças sul-coreanos, e os EUA estão mantendo vigilância bastante ostensiva dos movimentos no Norte.

Na segunda semana de junho, o embaixador dos EUA em Seul, Philip Goldberg, alertou que os EUA estavam “prontos para qualquer coisa que acontecesse”.

Com o aumento das tensões, os analistas estão observando os dois próximos aniversários que, no passado, foram ocasião de reivindicações e contra-reivindicações transfronteiriças.

O 29 de junho marca o aniversário da Segunda Batalha de Yeonpyeong em 2002, quando dois barcos de patrulha norte-coreanos violaram a fronteira do Mar do Oeste, entrando em confronto com navios de guerra do Sul. Seis militares sul-coreanos foram mortos e 18 ficaram feridos, cerca de 13 norte-coreanos foram mortos.

Ainda mais significativo, 25 de junho marca 74 anos desde a eclosão da Guerra da Coreia, que custou cerca de 3 milhões de vidas de combatentes e civis, e de que Seul e Pyongyang ainda se culpam mutuamente.

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