Por Redação DefesaNet
O Exercise Hedgehog 2025 reuniu cerca de 16.000 militares de aproximadamente 12 países, configurando-se como uma das maiores manobras militares no flanco leste da OTAN. A Estônia, como nação anfitriã, desempenhou papel central por meio da Estonian Defence Forces, mobilizando tanto suas forças regulares quanto um grande contingente de reservistas e integrantes da defesa territorial.
Países e unidades participantes – Hedgehog 2025
A participação internacional incluiu potências-chave da OTAN, como Estados Unidos, Reino Unido, França e Alemanha, além de aliados europeus e nórdicos como Polônia, Finlândia, Suécia e Canadá. Essas forças atuaram de forma integrada com os battlegroups avançados da OTAN, particularmente no âmbito do NATO enhanced Forward Presence, reforçando a presença aliada na região.
Em termos operacionais, o exercício combinou unidades de infantaria mecanizada, blindados, artilharia, engenharia, defesa aérea e elementos de guerra eletrônica e reconhecimento, além de crescente emprego de drones. Essa composição multinacional e multidomínio evidenciou a capacidade — e os desafios — de integração de forças diversas em um cenário de combate de alta intensidade.
Em síntese, o Hedgehog 2025 funcionou como um teste realista de guerra de coalizão, no qual diferentes países, doutrinas e capacidades foram articulados sob um mesmo comando, refletindo o modelo operacional que a OTAN busca consolidar no teatro europeu contemporâneo.
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O laboratório da guerra contemporânea no flanco leste da OTAN
O Exercise Hedgehog 2025, realizado na Estônia, consolidou-se como um ponto de inflexão na adaptação doutrinária da OTAN. Inserido em um ambiente estratégico tensionado pela proximidade com a Rússia, o exercício foi além do treinamento convencional: funcionou como um ambiente de validação prática da guerra contemporânea, fortemente influenciado pelas lições do conflito na Ucrânia.
A grande particularidade desta edição foi a incorporação direta de know-how ucraniano, não apenas como observação, mas como agente ativo de teste doutrinário. O desempenho dessas tropas — moldadas por combate real de alta intensidade — expôs, de forma inequívoca, lacunas e assimetrias dentro da própria OTAN.
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1. O desempenho ucraniano: eficiência letal e ruptura de paradigma

O desempenho das tropas ucranianas no Exercise Hedgehog 2025 pode ser compreendido como a manifestação prática de uma transformação profunda na arte da guerra contemporânea. Mais do que resultados táticos pontuais, sua atuação evidenciou uma mudança estrutural na forma de produzir poder de combate, caracterizada por elevada eficiência letal e por uma ruptura clara com paradigmas operacionais tradicionais.
Essa eficiência letal decorre, antes de tudo, da otimização do ciclo de engajamento. Diferentemente do modelo clássico, ainda presente em muitas forças da OTAN, no qual a identificação, validação e autorização de alvos seguem uma cadeia hierárquica relativamente lenta, os ucranianos operam sob uma lógica de compressão extrema do tempo decisório.
A integração direta entre sensores — especialmente drones — e meios de ataque permite que o intervalo entre detecção e neutralização seja reduzido a poucos minutos, ou mesmo segundos. Nesse contexto, o fator decisivo deixa de ser exclusivamente o volume de fogo e passa a ser a capacidade de agir mais rapidamente que o adversário.
Além disso, o desempenho ucraniano revela uma alteração significativa na arquitetura operacional. Suas forças não atuam como unidades isoladas, mas como uma rede distribuída de sensores e atiradores, conectados por sistemas digitais flexíveis e adaptativos. Cada drone, cada equipe em campo, transforma-se simultaneamente em elemento de reconhecimento e potencial vetor de ataque. Essa lógica cria um ambiente no qual a informação circula em tempo real e o engajamento pode ocorrer a partir de múltiplos pontos, dificultando a previsibilidade e aumentando a pressão sobre o adversário.
Outro aspecto central dessa eficiência está na relação entre custo e efeito. A utilização de tecnologias relativamente simples e acessíveis, como drones comerciais adaptados, demonstra que a letalidade no campo de batalha moderno não depende necessariamente de sistemas complexos e de alto valor. Ao contrário, a capacidade de integrar meios de baixo custo em um sistema coeso e responsivo mostrou-se capaz de neutralizar plataformas tradicionais significativamente mais caras. Essa inversão econômica representa uma ruptura relevante na lógica clássica de superioridade militar.
A descentralização do comando constitui outro elemento-chave. As tropas ucranianas operam com elevado grau de autonomia no nível tático, reduzindo a dependência de cadeias decisórias longas e, consequentemente, aumentando a velocidade operacional. Essa flexibilidade permite adaptações contínuas às condições do campo de batalha, algo essencial em um ambiente marcado por elevada volatilidade e constante exposição.
De fato, a atuação ucraniana parte de uma premissa fundamental: o campo de batalha contemporâneo é essencialmente transparente. A presença contínua de sensores torna qualquer movimentação potencialmente detectável, eliminando, em grande medida, a opacidade que sustentava a manobra clássica. Em resposta, observa-se uma ênfase em dispersão, mobilidade e redução de assinatura, elementos que substituem a concentração de forças como princípio organizador das operações.
Nesse sentido, a chamada ruptura de paradigma não reside apenas na introdução de novas tecnologias, mas na adoção de uma nova lógica operacional. A guerra deixa de ser predominantemente centrada em plataformas e passa a ser estruturada em torno de sistemas integrados, nos quais informação, tempo e conectividade assumem papel central. A superioridade, portanto, não é mais definida apenas pela quantidade ou qualidade dos meios, mas pela capacidade de integrá-los de forma eficiente e de explorar a velocidade do ciclo decisório.
Em síntese, o desempenho ucraniano no Hedgehog 2025 demonstra que a eficácia no campo de batalha contemporâneo está diretamente associada à capacidade de operar como um sistema adaptativo, distribuído e orientado pela informação. Trata-se de uma mudança que desafia estruturas tradicionais e impõe às forças armadas a necessidade de revisão profunda de seus modelos doutrinários. Mais do que uma evolução incremental, observa-se uma verdadeira transformação na natureza do combate, na qual rapidez, integração e flexibilidade passam a ser os principais determinantes da superioridade operacional.
O elemento mais disruptivo do Hedgehog 2025 foi a atuação de operadores com experiência direta da guerra na Ucrânia.
Empregando:
- drones comerciais adaptados (FPV e ISR)
- integração digital de alvos
- lógica de engajamento descentralizada
essas equipes conseguiram simular efeitos devastadores sobre forças convencionais da OTAN.
Resultados observados (no cenário simulado):
- Neutralização acelerada de unidades mecanizadas
- Identificação e engajamento de alvos em tempo reduzido
- Saturação do espaço tático com sensores de baixo custo
Mais do que números, o que chamou atenção foi a eficiência sistêmica: os ucranianos operaram como uma rede distribuída, não como unidades isoladas.
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2. A superioridade do ciclo decisório: o modelo ucraniano

A superioridade do ciclo decisório no modelo ucraniano constitui um dos elementos centrais para compreender sua eficácia no campo de batalha contemporâneo. Trata-se, essencialmente, da capacidade de reduzir ao mínimo o intervalo entre perceber, decidir e agir, transformando o tempo em um fator decisivo de poder militar.
Tradicionalmente, forças armadas estruturadas em modelos hierárquicos operam por meio de cadeias decisórias sequenciais: a informação é coletada, transmitida a níveis superiores, validada e, somente então, convertida em ação. Esse processo, embora robusto e controlado, implica um tempo de resposta relativamente elevado, especialmente em ambientes dinâmicos. No contexto atual, marcado pela presença constante de sensores e pela rápida circulação de dados, essa latência torna-se uma vulnerabilidade crítica.
O modelo ucraniano rompe com essa lógica ao adotar uma estrutura decisória mais horizontal e descentralizada.
A integração direta entre sensores — particularmente drones — e os meios de engajamento permite que decisões sejam tomadas no próprio nível tático, muitas vezes pelo mesmo operador que identifica o alvo. Dessa forma, elimina-se a necessidade de múltiplas etapas intermediárias, comprimindo o ciclo decisório a segundos ou poucos minutos.
Essa compressão tem implicações profundas. Em primeiro lugar, permite explorar oportunidades efêmeras no campo de batalha, como a exposição momentânea de um alvo ou a detecção de um deslocamento inimigo. Em segundo, reduz a janela de reação do adversário, que passa a operar sob pressão constante e com menor capacidade de reorganização.
Em termos práticos, não se trata apenas de atacar mais rápido, mas de impor um ritmo operacional que o inimigo não consegue acompanhar.
Além disso, a superioridade do ciclo decisório ucraniano está diretamente ligada à sua arquitetura informacional. O uso de redes digitais flexíveis possibilita o compartilhamento quase instantâneo de dados entre diferentes elementos da força, criando uma consciência situacional distribuída.
Nesse ambiente, múltiplos agentes podem acessar a mesma informação e agir de forma coordenada, sem depender de um centro único de comando. Isso aumenta não apenas a velocidade, mas também a resiliência do sistema, que continua operando mesmo diante de perdas ou interferências.
Outro aspecto relevante é a relação entre velocidade e autonomia. Ao delegar autoridade decisória aos níveis mais baixos, o modelo ucraniano reduz a fricção organizacional e amplia a capacidade de adaptação. Operadores em campo, munidos de informação em tempo real, ajustam suas ações conforme a evolução da situação, sem necessidade de aguardar ordens superiores. Essa flexibilidade é particularmente eficaz em um ambiente caracterizado por incerteza, dispersão e constante mudança.
Nesse contexto, a superioridade não decorre necessariamente de maior poder de fogo ou de plataformas mais sofisticadas, mas da capacidade de converter informação em ação de forma mais rápida e eficiente. O ciclo decisório torna-se, assim, o verdadeiro centro de gravidade das operações. Quem observa primeiro, decide mais rápido e age antes, tende a dominar o espaço de batalha.
Em síntese, o modelo ucraniano evidencia uma mudança estrutural na condução da guerra: a primazia do tempo e da informação sobre a massa e a hierarquia. A superioridade do ciclo decisório não é apenas uma vantagem tática, mas um fator que redefine a lógica operacional, impondo às forças armadas contemporâneas a necessidade de revisar seus processos, estruturas e doutrinas para operar em um ambiente onde a velocidade da decisão é, cada vez mais, sinônimo de sobrevivência e eficácia.
O diferencial ucraniano não está apenas na tecnologia — mas na forma de operar.
Sua lógica é baseada em:
A atuação ucraniana no Hedgehog 2025 materializa, no nível tático, os princípios da guerra de 5ª geração:
- integração de domínios (físico, digital e informacional)
- aceleração do tempo decisório
- desorganização sistêmica do adversário
Não se trata apenas de destruir forças inimigas, mas de: quebrar sua capacidade de operar como sistema coerente
2.1 – A compressão da kill chain: tempo como fator decisivo
Outro aspecto crítico observado foi a drástica redução do ciclo sensor → decisão → engajamento.
No Hedgehog 2025:
- Alvos eram identificados por drones
- Dados transmitidos em tempo quase real
- Engajamentos simulados ocorrendo em minutos
Esse fenômeno caracteriza a chamada “kill chain comprimida”, onde o tempo entre detecção e destruição torna-se mínimo.
Implicação doutrinária:
- O fator decisivo deixa de ser apenas o poder de fogo
- Passa a ser o tempo de decisão operacional
Isso exige:
- Automação de processos
- Delegação de autoridade para níveis táticos
- Integração plena de sistemas C4ISR
2.2 – A vulnerabilidade dos sistemas pesados
O exercício também expôs uma realidade já observada na Ucrânia:
- Blindados e colunas mecanizadas permanecem essenciais
- Porém, tornaram-se altamente vulneráveis a drones e munições de precisão
A simulação indicou perdas significativas em cenários onde forças não adotaram:
- dispersão adequada
- camuflagem eficaz
- cobertura antidrone
Implicação doutrinária:
Não se trata do “fim do carro de combate”, mas da sua reconfiguração operacional:
- Emprego mais fragmentado
- Integração com defesa antiaérea de curto alcance (SHORAD)
- Operação em conjunto com guerra eletrônica
2.3 – A guerra como sistema integrado: do cinético ao informacional
O Hedgehog 2025 reforçou que o campo de batalha contemporâneo é um sistema multidimensional:
- cinético (combate convencional)
- cibernético (interferência em redes e comunicações)
- informacional (operações psicológicas e desinformação)
Essa convergência caracteriza o ambiente de guerra de 5ª geração, no qual a vitória não depende apenas da destruição física do inimigo, mas da sua desorganização sistêmica.
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A guerra de baixo custo com alto impacto

A noção de guerra de baixo custo com alto impacto representa uma das transformações mais significativas observadas nos conflitos contemporâneos, particularmente a partir da experiência ucraniana. Trata-se de uma mudança estrutural na relação entre investimento e efeito militar, na qual meios relativamente simples e acessíveis passam a produzir resultados desproporcionalmente elevados no campo de batalha.
Tradicionalmente, a superioridade militar esteve associada à posse de sistemas complexos, tecnologicamente avançados e de alto valor — como carros de combate, aeronaves e sistemas de mísseis. Essa lógica pressupunha que maior investimento financeiro resultaria, de forma quase direta, em maior capacidade de combate. No entanto, o cenário atual demonstra uma inflexão relevante: tecnologias de baixo custo, quando integradas de forma eficiente, são capazes de neutralizar ou degradar significativamente esses mesmos sistemas.
No centro dessa transformação está o uso adaptativo de tecnologias civis, especialmente drones comerciais. Convertidos em plataformas de reconhecimento ou ataque, esses sistemas permitem vigilância constante, aquisição de alvos em tempo real e engajamentos precisos a um custo marginal. O efeito prático é a ampliação exponencial da capacidade de observação e ataque, sem a necessidade de investimentos equivalentes aos exigidos por plataformas militares tradicionais.
Essa dinâmica produz uma inversão econômica da guerra. Sistemas caros, antes considerados decisivos, tornam-se vulneráveis diante de ameaças simples, numerosas e difíceis de neutralizar completamente. Um blindado, por exemplo, passa a operar sob risco permanente não apenas de armas sofisticadas, mas também de dispositivos improvisados e amplamente disponíveis. Isso altera profundamente a relação custo-benefício do emprego de meios militares, impondo novas restrições e exigindo adaptações doutrinárias.
Além disso, a guerra de baixo custo favorece a escala e a saturação. Por serem acessíveis, esses meios podem ser empregados em grande quantidade, criando um ambiente operacional denso, no qual o adversário é constantemente pressionado por múltiplos vetores de ameaça. Essa saturação dificulta a defesa, sobrecarrega sistemas de proteção e aumenta a probabilidade de sucesso dos ataques, mesmo que individualmente cada meio seja limitado.
Outro elemento central é a flexibilidade. Tecnologias simples podem ser rapidamente modificadas, adaptadas e redistribuídas conforme as necessidades do campo de batalha. Esse caráter modular e improvisado contrasta com a rigidez de sistemas mais complexos, cuja adaptação exige tempo, recursos e cadeias logísticas estruturadas. Assim, a capacidade de inovação contínua passa a ser um fator crítico de eficácia.
Importa destacar que essa lógica não elimina a relevância dos sistemas tradicionais, mas redefine seu papel. Plataformas de alto valor continuam essenciais, porém precisam operar em um ambiente mais hostil, no qual sua sobrevivência depende de integração com medidas de proteção, dispersão e consciência situacional ampliada.
Em termos mais amplos, a guerra de baixo custo com alto impacto desloca o foco da superioridade material para a superioridade na integração e no uso inteligente dos recursos disponíveis. A eficácia deixa de ser função exclusiva do investimento e passa a depender da capacidade de combinar simplicidade, escala e rapidez de adaptação.
Em síntese, essa transformação evidencia que o poder militar contemporâneo não se mede apenas pela sofisticação dos meios, mas pela habilidade de explorar assimetrias, reduzir custos operacionais e maximizar efeitos no campo de batalha. Trata-se de uma lógica que desafia paradigmas tradicionais e impõe às forças armadas a necessidade de repensar não apenas seus equipamentos, mas, sobretudo, sua forma de operar.
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Convergência com a guerra de 5ª geração

A convergência com a chamada guerra de 5ª geração representa uma mudança qualitativa na forma como os conflitos são concebidos e conduzidos. Diferentemente das gerações anteriores, centradas predominantemente no confronto físico entre forças militares, a 5ª geração caracteriza-se pela integração de múltiplos domínios – físico, digital, informacional e cognitivo – em um único ambiente operacional.
Nesse contexto, o campo de batalha deixa de ser um espaço delimitado geograficamente e passa a ser entendido como um sistema interconectado, no qual ações em um domínio produzem efeitos diretos nos demais. Operações militares convencionais são conduzidas simultaneamente a ações cibernéticas, guerra eletrônica e operações de informação, compondo um quadro em que a distinção entre frente e retaguarda torna-se cada vez menos clara.
A convergência observada em exercícios como o Exercise Hedgehog evidencia justamente essa fusão de dimensões. O emprego de drones integrados a redes digitais, por exemplo, não se limita à função de reconhecimento ou ataque: ele se insere em um ecossistema mais amplo de coleta, processamento e disseminação de dados. Esses dados, por sua vez, alimentam decisões operacionais, influenciam a percepção do inimigo e podem ser explorados em campanhas informacionais.
Um dos elementos centrais dessa convergência é a primazia da informação. Na guerra de 5ª geração, quem domina o fluxo informacional — seja por meio da coleta eficiente, da proteção de seus próprios sistemas ou da degradação dos sistemas adversários — obtém vantagem decisiva. Isso implica não apenas ver o campo de batalha com maior clareza, mas também controlar a forma como ele é percebido, tanto pelo inimigo quanto por atores externos.
Outro aspecto relevante é a atuação no espectro eletromagnético e no ciberespaço. Interferir em comunicações, degradar sistemas de navegação ou comprometer redes digitais pode produzir efeitos equivalentes — ou até superiores — aos de ações cinéticas. Nesse sentido, a destruição física deixa de ser o único objetivo; a desorganização sistêmica do adversário passa a ser igualmente, ou mais, relevante.
Além disso, a guerra de 5ª geração enfatiza a dimensão cognitiva do conflito. Narrativas, percepções e moral tornam-se alvos legítimos, sendo explorados por meio de campanhas de informação e desinformação. O objetivo não é apenas vencer no campo de batalha, mas influenciar decisões políticas, moldar a opinião pública e reduzir a coesão do adversário.
A convergência com esse modelo implica, portanto, uma transformação na própria noção de poder militar. Não se trata apenas de possuir meios de combate eficazes, mas de integrá-los em uma arquitetura capaz de operar simultaneamente em múltiplos domínios, com elevada velocidade e coordenação. A eficácia passa a depender da capacidade de sincronizar efeitos — físicos, digitais e informacionais — de modo a gerar impactos cumulativos sobre o adversário.
Em síntese, a guerra de 5ª geração não substitui completamente as formas tradicionais de combate, mas as incorpora em um sistema mais amplo e complexo. A convergência observada indica que os conflitos contemporâneos tendem a ser cada vez mais multidimensionais, nos quais a vitória não decorre apenas da destruição das forças inimigas, mas da capacidade de comprometer seu funcionamento como sistema integrado. Trata-se, portanto, de uma evolução que redefine os parâmetros da superioridade e exige das forças armadas uma adaptação profunda em termos doutrinários, tecnológicos e organizacionais.
A atuação ucraniana no Hedgehog 2025 materializa, no nível tático, os princípios da guerra de 5ª geração:
- integração de domínios (físico, digital e informacional)
- aceleração do tempo decisório
- desorganização sistêmica do adversário
Não se trata apenas de destruir forças inimigas, mas de: quebrar sua capacidade de operar como sistema coerente
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O choque doutrinário dentro da OTAN

O chamado choque doutrinário dentro da OTAN refere-se à tensão entre dois modelos distintos de condução da guerra que se tornaram evidentes em exercícios recentes, como o Exercise Hedgehog 2025. De um lado, está a doutrina tradicional da Aliança, moldada por décadas de operações expedicionárias e estruturada em torno de hierarquia, padronização e controle centralizado. De outro, emerge um modelo mais recente, influenciado pela experiência ucraniana, caracterizado por descentralização, velocidade decisória e adaptação contínua.
A doutrina clássica da OTAN foi concebida para garantir coordenação entre múltiplos países, sistemas e cadeias de comando. Nesse contexto, a padronização de procedimentos e a existência de níveis claros de autoridade são fundamentais para evitar fricções e assegurar a coerência das operações. Esse modelo privilegia a robustez, a previsibilidade e o controle, atributos essenciais em operações complexas envolvendo forças multinacionais.
Entretanto, o ambiente operacional contemporâneo — marcado por vigilância constante, ciclos decisórios acelerados e ameaças distribuídas — expõe limitações dessa abordagem. A necessidade de validação em múltiplos níveis e a dependência de estruturas centralizadas tendem a aumentar o tempo de resposta, criando uma defasagem entre a velocidade dos eventos no campo de batalha e a capacidade de reação das forças.
Em contraste, o modelo observado nas forças ucranianas introduz uma lógica distinta. A descentralização do comando, aliada ao uso intensivo de redes digitais e sensores distribuídos, permite que decisões sejam tomadas no nível tático com maior rapidez e flexibilidade. Esse arranjo reduz a fricção organizacional e possibilita uma adaptação mais ágil às condições mutáveis do combate.
O choque doutrinário emerge, portanto, da coexistência desses dois paradigmas. Por um lado, a OTAN precisa manter estruturas que garantam interoperabilidade entre diferentes nações, idiomas e sistemas. Por outro, enfrenta a necessidade de operar em um ambiente que exige rapidez decisória e autonomia tática. Essa dualidade cria uma tensão entre controle e velocidade, entre padronização e adaptação.
Além disso, a própria natureza multinacional da OTAN amplifica esse desafio. Diferenças culturais, tecnológicas e organizacionais entre os países membros podem dificultar a adoção uniforme de práticas mais descentralizadas. A transição para um modelo mais ágil implica não apenas mudanças técnicas, mas também uma transformação na cultura organizacional, incluindo maior confiança nos níveis inferiores de comando.
Outro ponto relevante é que esse choque não se resolve pela simples substituição de um modelo por outro. A doutrina tradicional ainda é necessária para operações de grande escala e coordenação estratégica, enquanto o modelo mais descentralizado mostra-se mais eficaz em ambientes dinâmicos e fragmentados. O desafio, portanto, reside em encontrar um equilíbrio que permita combinar a robustez estrutural da OTAN com a agilidade exigida pelo campo de batalha contemporâneo.
Em síntese, o choque doutrinário dentro da OTAN reflete um momento de transição. A Aliança encontra-se diante da necessidade de revisar seus princípios operacionais à luz de um ambiente em rápida transformação, no qual a superioridade depende cada vez mais da capacidade de integrar velocidade, informação e autonomia. Trata-se de um processo complexo, que envolve não apenas tecnologia e procedimentos, mas também a redefinição de conceitos fundamentais sobre comando, controle e condução da guerra.
O exercício revelou uma assimetria relevante:
| Aspecto | Modelo OTAN tradicional | Modelo ucraniano |
|---|---|---|
| Comando | Hierárquico | Descentralizado |
| Tempo de resposta | Moderado | Imediato |
| Uso de tecnologia | Complexa e centralizada | Simples e distribuída |
| Adaptação | Estruturada | Contínua e empírica |
Essa diferença gerou um verdadeiro choque de realidade.
Implicação doutrinária:
A OTAN enfrenta agora um dilema:
- adaptar-se rapidamente ao modelo emergente
- ou manter estruturas que podem se tornar vulneráveis em conflito real
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Integração do fator humano: experiência de combate real

A integração do fator humano, particularmente no que se refere à experiência de combate real, constitui um dos elementos mais decisivos — e frequentemente subestimados — na eficácia operacional das forças militares contemporâneas. Em exercícios como o Exercise Hedgehog 2025, a presença de militares com vivência direta em conflitos de alta intensidade introduz uma variável qualitativa que transcende a dimensão técnica ou tecnológica.
A experiência de combate real representa, прежде de tudo, a internalização prática de situações que não podem ser plenamente reproduzidas em ambientes de treinamento. O combate impõe níveis extremos de incerteza, pressão psicológica e risco, nos quais decisões precisam ser tomadas de forma rápida e, muitas vezes, com informações incompletas. Militares que já operaram sob essas condições desenvolvem uma capacidade diferenciada de julgamento, baseada não apenas em doutrina, mas em vivência concreta.
Essa experiência se traduz, em primeiro lugar, em uma maior eficiência no processo decisório. Combatentes experientes tendem a reconhecer padrões com mais rapidez, antecipar ações do adversário e reagir de forma mais intuitiva e eficaz. Trata-se de um conhecimento tácito, difícil de formalizar, mas essencial para operar em ambientes dinâmicos e altamente contestados.
Além disso, a experiência real contribui para uma melhor gestão do fator psicológico. O combate prolongado exige controle emocional, resiliência e capacidade de operar sob estresse contínuo. Tropas que já enfrentaram essas condições apresentam maior estabilidade em situações críticas, reduzindo a probabilidade de erros decorrentes de fadiga, medo ou desorganização.
Outro aspecto relevante é a capacidade de adaptação. A guerra real impõe desafios que frequentemente extrapolam os cenários previstos em doutrina. Nesse contexto, militares experientes desenvolvem uma mentalidade mais flexível, orientada à solução de problemas em tempo real. Essa adaptabilidade é fundamental em um ambiente caracterizado por rápida evolução tecnológica e tática.
A integração desse fator humano em exercícios multinacionais também gera um efeito de difusão de conhecimento. A interação entre tropas experientes e forças que não possuem vivência recente de combate permite a transferência de práticas, percepções e ajustes operacionais que dificilmente seriam incorporados apenas por meio de treinamento teórico. Dessa forma, a experiência individual torna-se um ativo coletivo, contribuindo para a elevação do nível geral de preparo.
Entretanto, essa integração também evidencia diferenças culturais e doutrinárias. Tropas com experiência real tendem a operar com maior pragmatismo e menor rigidez, enquanto forças treinadas predominantemente em ambiente controlado podem apresentar maior aderência a procedimentos formais. Essa interação pode gerar fricções, mas também constitui um catalisador para evolução doutrinária.
Em termos mais amplos, a valorização da experiência de combate real reforça a centralidade do elemento humano em um contexto cada vez mais tecnológico. Mesmo com o avanço de sistemas automatizados e redes digitais, a decisão final, a interpretação da situação e a adaptação às condições do terreno continuam dependentes do indivíduo.
Em síntese, a integração do fator humano, materializada na experiência de combate real, representa um multiplicador de eficácia operacional. Ela não substitui tecnologia ou doutrina, mas as potencializa, conferindo às forças militares a capacidade de operar com maior realismo, flexibilidade e resiliência. Em um ambiente de guerra cada vez mais complexo, o conhecimento adquirido no campo de batalha permanece como um dos ativos mais valiosos — e menos replicáveis — no preparo para conflitos futuros.
Talvez o elemento mais importante:
As tropas ucranianas trouxeram algo que nenhum exercício pode simular plenamente: experiência de combate real em larga escala contra um adversário peer (Rússia)
Isso se traduziu em:
- maior agressividade tática
- melhor leitura do campo de batalha
- capacidade de improvisação sob pressão
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Conclusão: a Ucrânia como catalisador da transformação doutrinária

A guerra na Ucrânia consolidou-se como um dos principais vetores de transformação doutrinária no cenário militar contemporâneo, atuando como um verdadeiro catalisador de mudanças na forma de conceber e conduzir operações. Diferentemente de conflitos anteriores, muitas vezes analisados em retrospecto, o caso ucraniano oferece um laboratório ativo, no qual novas práticas são testadas, ajustadas e validadas em tempo real, sob condições de alta intensidade e contra um adversário de capacidades comparáveis.
Nesse contexto, a Ucrânia deixou de ser apenas um ator em conflito e passou a desempenhar um papel central na produção empírica de doutrina. As soluções desenvolvidas no campo de batalha — especialmente no emprego de drones, na integração de sistemas digitais e na descentralização do comando — não são fruto de planejamento teórico prévio, mas de adaptação contínua às exigências impostas pela guerra. Essa característica confere às práticas ucranianas um elevado grau de pragmatismo e eficácia, tornando-as referências para outras forças armadas.
A principal contribuição ucraniana reside na demonstração de que a superioridade militar, no ambiente atual, depende menos da posse de sistemas sofisticados e mais da capacidade de integrar recursos, acelerar decisões e adaptar-se rapidamente. A compressão do ciclo decisório, a utilização de tecnologias acessíveis e a operação em rede evidenciam uma lógica na qual tempo e informação assumem papel central. Essa abordagem desafia diretamente modelos mais tradicionais, baseados em hierarquia rígida e concentração de meios.
Além disso, a experiência ucraniana reforça a ideia de que o campo de batalha contemporâneo é caracterizado por transparência, dispersão e constante contestação. Nesse ambiente, a sobrevivência e a eficácia operacional exigem mobilidade, redução de assinatura e capacidade de operar sob vigilância permanente. Tais condições impõem uma revisão profunda de conceitos clássicos, como manobra, massa e surpresa.
Outro aspecto relevante é a integração entre diferentes domínios de atuação. A Ucrânia tem demonstrado, na prática, a convergência entre operações cinéticas, cibernéticas e informacionais, antecipando características associadas à chamada guerra de 5ª geração. Essa abordagem amplia o escopo do conflito, no qual a desorganização do adversário como sistema torna-se tão importante quanto sua destruição física.
Para organizações como a OTAN, essa realidade impõe a necessidade de adaptação acelerada. A incorporação das lições ucranianas não se limita à adoção de novas tecnologias, mas envolve mudanças mais profundas em termos de cultura organizacional, processos decisórios e estrutura de comando. Trata-se de um processo complexo, que exige equilibrar a robustez de sistemas consolidados com a agilidade necessária para operar em um ambiente em constante transformação.
Em síntese, a Ucrânia atua como um catalisador ao expor, de forma concreta, as limitações de modelos tradicionais e ao oferecer alternativas operacionais testadas em combate real. Sua experiência não apenas informa, mas pressiona por mudanças, acelerando a evolução doutrinária em diversas forças armadas. Mais do que um caso específico, a guerra na Ucrânia representa um marco na transição para um novo paradigma, no qual a eficácia militar está diretamente associada à capacidade de integrar, adaptar e operar com velocidade em um sistema de combate cada vez mais complexo e interconectado.
O Exercise Hedgehog 2025 deixa uma conclusão inequívoca: a Ucrânia deixou de ser apenas um teatro de guerra — tornou-se um centro de produção doutrinária para o Ocidente.
O desempenho de suas tropas revelou que:
- a guerra moderna é rápida, transparente e descentralizada
- a superioridade depende de integração e tempo de resposta
- sistemas simples podem derrotar estruturas complexas
Em termos estratégicos, o Hedgehog evidencia que a OTAN está diante de uma transformação inevitável: incorporar a lógica operacional ucraniana ou correr o risco de operar com uma doutrina parcialmente obsoleta em um campo de batalha radicalmente novo

Mais do que um exercício, o Hedgehog 2025 foi um alerta: a guerra do futuro já está sendo travada — e suas regras já estão sendo escritas.
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Nota de relevância Redação DefesaNet: o desempenho ucraniano frente à OTAN no Hedgehog 2025
A atuação das tropas ucranianas no Exercise Hedgehog 2025 possui elevada relevância estratégica e doutrinária, sobretudo pelo fato de que, em cenários simulados, forças baseadas no modelo operacional ucraniano conseguiram superar unidades estruturadas segundo a doutrina tradicional da OTAN. É importante qualificar essa constatação: não se trata de uma “vitória” no sentido clássico, mas de um resultado analítico dentro de um ambiente controlado, cujo objetivo é justamente identificar vulnerabilidades e validar conceitos operacionais. Ainda assim, o desempenho observado possui implicações profundas.
Em primeiro lugar, evidencia-se que a experiência de combate real acumulada pela Ucrânia — especialmente contra um adversário de alta intensidade como a Rússia — gerou uma vantagem qualitativa concreta, difícil de ser replicada apenas por treinamento convencional. Essa vantagem se manifesta na velocidade de decisão, na adaptação tática e no uso eficiente de tecnologias acessíveis.
Em segundo lugar, o exercício demonstrou que modelos operacionais mais leves, descentralizados e orientados por rede podem, em determinadas condições, neutralizar ou degradar forças mais estruturadas, porém menos ágeis. Isso representa um sinal claro de que a superioridade militar contemporânea está cada vez mais vinculada à integração e à velocidade, e não apenas à massa ou sofisticação dos meios.
Além disso, o resultado reforça a centralidade da Ucrânia como referência empírica na evolução da doutrina militar ocidental. Ao expor limitações práticas de forças da OTAN em um ambiente simulado, o exercício atua como mecanismo de aprendizado acelerado, permitindo ajustes antes de um eventual conflito real.
Por fim, a relevância desse episódio reside no seu caráter de alerta. Ele indica que a adaptação doutrinária não é apenas desejável, mas necessária. A incorporação das lições ucranianas — especialmente no que se refere à compressão do ciclo decisório, ao uso de drones e à descentralização do comando — torna-se um fator crítico para manter a eficácia operacional em cenários futuros.
Em síntese, o desempenho ucraniano no Hedgehog 2025 não deve ser interpretado como uma simples superioridade circunstancial, mas como um indicador de transformação estrutural no modo de conduzir a guerra, com implicações diretas para o planejamento, a organização e o emprego das forças da OTAN.
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Sugestão de leitura da Redação DefesaNet:
A complexidade dos conflitos contemporâneos exige do leitor uma compreensão cada vez mais aprofundada das transformações doutrinárias em curso. Diante desse cenário, a Redação DefesaNet recomenda a leitura de artigos especializados que abordem temas como guerra multidomínio, integração de sistemas, compressão do ciclo decisório e o impacto das tecnologias emergentes no campo de batalha.
Textos que analisam a experiência recente de conflitos de alta intensidade — especialmente aqueles que tratam da adaptação operacional, do uso de drones e da descentralização do comando — oferecem uma base sólida para compreender a evolução da arte da guerra. Da mesma forma, estudos sobre interoperabilidade em coalizões, guerra eletrônica e resiliência de infraestruturas críticas contribuem para uma visão mais abrangente do ambiente estratégico atual.
Mais do que acompanhar eventos, é fundamental interpretar tendências. Por isso, a Redação sugere ao leitor buscar conteúdos que não apenas descrevam operações, mas que proponham reflexões sobre suas implicações doutrinárias. Em um contexto de rápida transformação, o domínio conceitual torna-se um diferencial essencial para entender os conflitos do presente e antecipar os desafios do futuro.




















