Guerra, estratégia e segurança Europeia: a síntese de um confronto que reconfigura a Ordem Global

Por Ricardo Fan, DEFESANET

A guerra entre Rússia e Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022, já ultrapassou quatro anos e deixou de ser apenas um conflito regional para assumir contornos de crise sistêmica de segurança euro-atlântica.

Dois desenvolvimentos recentes — a declaração do presidente ucraniano Volodimir Zelensky classificando Vladimir Putin como “escravo da guerra”, e o apelo de chefes militares europeus por um rearmamento estratégico — revelam, com clareza crescente, a transformação profunda do ambiente de segurança global.

Mais do que manchetes, esses eventos expressam uma realidade duradoura: não existe, hoje, um caminho plausível para estabilizar a Europa sem um reconhecimento simultâneo da persistência da guerra e da necessidade de capacidades defensivas robustas.

1. A declaração de Zelensky: uma narrativa política com profundo conteúdo estratégico

Quando Zelensky afirma que “Putin é um escravo da guerra”, ele não está apenas lançando uma metáfora enfática contra o presidente russo — está materializando uma linha argumentativa cuidadosamente construída diante de aliados ocidentais.

1.1. Guerra como estrutural, não transitória

A expressão de que Putin estaria “prisioneiro” da guerra implica que Moscou não encontra espaço político interno para abandonar a campanha militar sem reconhecer derrota ou perder legitimidade diante de sua própria base de poder. Em outras palavras:

  • Putin teria internalizado a guerra como mecanismo de sustentação de consenso interno;
  • Qualquer sinal de recuo é percebido por sua liderança como risco político intolerável;
  • Isso relega a esperança de uma desescalada unilateral a um terreno incerto.

Ou seja, Zelensky restringe, politicamente, a margem de manobra diplomática russa, projetando uma perspectiva realista: se a Rússia não pode abandonar a guerra, então a Ucrânia e seus aliados precisam adaptar sua estratégia não para uma paz breve, mas para uma estabilização duradoura.

1.2. Pressão diplomática e narrativa moral

Além disso, essa retórica busca:

  • Reforçar a percepção de que o caminho para a paz não está nas concessões à Rússia, mas em uma solução que reconheça os custos impostos a Kiev;
  • Violentar a narrativa de Moscou, que procura apresentar sua agressão como “medida defensiva”;
  • Fortalecer a coesão política e o apoio continuado dos parceiros europeus e norte-americanos, que enfrentam debates domésticos sobre gastos e prioridades externas.

O fato de essa declaração ocorrer no palco diplomático de Munique — tradicional fórum de políticas de segurança europeias — reforça sua intenção estratégica: o conflito ucraniano ainda é o principal determinante da agenda de segurança global.

O presidente ucraniano, Volodimir Zelensky, discursa na 62ª Conferência de Segurança de Munique, em 14 de fevereiro de 2026

2. Rearmamento Europeu: a emergência de uma Estratégia de Defesa Autônoma

Os apelos recentes de chefes militares do Reino Unido e da Alemanha por um rearmamento europeu articulado e sustentado refletem um momento decisivo na percepção estratégica ocidental: a Europa não pode mais depender exclusivamente da proteção americana como garantia única de segurança.

2.1. O contexto da OTAN e o jardim das perspectivas divergentes

Desde o fim da Guerra Fria, as forças europeias viveram um dilema estrutural:

  • Ao mesmo tempo em que fazem parte da OTAN e da arquitetura transatlântica de segurança, elas tendem a delegar a dimensão militar mais pesada aos Estados Unidos;
  • Isso permitiu décadas de gastos militares modestos em comparação com os EUA, mas também gerou uma lacuna de capacidades em cenários de conflito convencional.

A guerra na Ucrânia expôs essa lacuna com brutal clareza:

  • O conflito convencional entre forças regulares exigiu logística, poder de fogo e sistemas de combate que muitos países europeus não mantinham em níveis adequados;
  • A Constituição e tradições pacifistas de alguns estados europeus limitaram investimentos e doutrinas voltadas para guerra convencional de alta intensidade.

2.2. A necessidade de capacidade de dissuasão real

O chamado pelo rearmamento não é um pedido por mais tanques isoladamente ou por exagero militar — é um reconhecimento de que:

  • A dissuasão eficaz exige presença material de capacidades;
  • Uma Europa incapaz de defender seus territórios ou projetar força corre o risco de depender sempre de decisões políticas de terceiros;
  • A coerência estratégica entre diplomacia e capacidades militares é essencial para credibilidade.

Assim, o discurso das lideranças militares europeias sinaliza três tendências fundamentais:

  1. Maior integração militar intra-europeia — interoperabilidade, logística conjunta, comando e controle coordenado;
  2. Elevação de gastos e priorização de setores críticos — defesa aérea, prontidão de forças terrestres e marítimas, cibersegurança e defesa espacial;
  3. Participação estratégica ampliada dentro da OTAN, mas com autonomia política europeia clara.

3. A convergência de narrativas: da utopia à Realidade Estratégica

O que une as duas narrativas — de Zelensky e dos chefes militares europeus — é a consciência de que não se pode separar política de segurança de capacidades materiais e de narrativas plausíveis de futuro.

3.1. A guerra como realidade estrutural

A posição ucraniana sugere que a guerra não é um evento transitório, mas um fator estruturante que molda:

  • a política externa dos países ocidentais;
  • a coesão dentro das alianças;
  • a definição de prioridades nacionais e transnacionais.

3.2. A defesa como pré-requisito estratégico

Simultaneamente, a defesa europeia é tratada não como um luxo, mas como um elemento essencial de soberania coletiva — porque:

  • Nenhuma ordem estratégica estável pode se sustentar sem credibilidade militar;
  • A dependência exclusiva de terceiros introduz vulnerabilidades políticas;
  • A Europa, em sua diversidade de interesses e políticas internas, precisa de uma base comum de segurança.
Chefes militares da Alemanha e do Reino Unido, general Carsten Breuer e marechal Richard Knighton, chamaram rearmamento de projeto moral

4. Implicações para o Brasil e para o Hemisfério Sul

Embora geograficamente distante, a reconfiguração da segurança europeia e a transformação da guerra na Ucrânia em um fator permanente de política externa e de defesa têm implicações globais:

  • Redução da margem de manobra diplomática para países que desejam permanecer neutros;
  • Pressão para que alianças regionais (como a OEA ou parcerias estratégicas sul-americanas) reavaliem abordagens de defesa coletiva;
  • Possível aceleração de programas de defesa autônoma em outras regiões.

Conclusão: nenhuma paz sem segurança, nenhuma segurança sem força

O debate contemporâneo — entre paz negociada, estratégia militar sustentável e dissuasão eficaz — não admite soluções simples. A análise conjunta dos discursos de Zelensky e dos líderes militares europeus revela uma linha de pensamento cada vez mais clara:

  • A guerra não está enterrada;
  • A paz sem capacidades defensivas é frágil;
  • A defesa europeia autônoma é condição para uma ordem atlântica sustentável.

Esse é o ponto nodal da política de segurança global em 2026, e entender sua lógica é essencial para qualquer análise séria sobre futuro estratégico nas relações internacionais.

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