Ricardo Fan – Analista de Defesa – Defesanet
A transformação militar em curso na Alemanha e no Japão não é um fenômeno isolado. Trata-se de uma reconfiguração sistêmica da ordem de segurança global. Ambas as potências econômicas — tradicionalmente contidas por legados históricos do pós-1945 — estão ampliando capacidades militares em resposta a um ambiente internacional marcado por competição entre grandes potências, erosão da previsibilidade estratégica e fortalecimento de atores revisionistas. Embora operem em teatros distintos — Europa Oriental e Indo-Pacífico — os vetores estruturais apresentam notável simetria.
1. Ambiente Estratégico: Rússia e China como Fatores de Pressão
Europa — Dissuasão Continental
A guerra na Ucrânia redefiniu a percepção de ameaça na Europa. A Alemanha, como centro econômico da União Europeia, compreendeu que sua tradicional moderação militar já não é suficiente diante de uma Rússia disposta a empregar força convencional em larga escala.
A expansão da Bundeswehr busca restaurar credibilidade dissuasória no flanco oriental da OTAN, fortalecendo o conceito de defesa coletiva e reduzindo dependência estrutural do poder militar norte-americano.
Indo-Pacífico — Dissuasão Marítima e A2/AD
No caso japonês, a pressão deriva sobretudo da expansão naval chinesa e da crescente assertividade no Mar da China Oriental e no entorno de Taiwan. O Japão responde com investimentos robustos em mísseis de longo alcance, defesa antimíssil e capacidades de contra-ataque.
As Forças de Autodefesa do Japão passam por uma transição doutrinária relevante: de postura essencialmente defensiva para um modelo de dissuasão ativa, capaz de atingir bases adversárias em caso de agressão iminente.
Comparação direta:
Alemanha prepara-se para guerra convencional terrestre de alta intensidade; Japão estrutura-se para conflito aero-naval em ambiente de negação de área (A2/AD).
2. Orçamento e Capacidade Industrial
Ambos os países anunciaram planos plurianuais de investimento sem precedentes no período pós-Guerra Fria.
Alemanha
- Fundo especial de €100 bilhões para modernização.
- Meta sustentada de 2%+ do PIB em defesa.
- Reforço da indústria terrestre, blindados, defesa aérea e sistemas integrados C4ISR.
Japão
- Plano de aproximadamente US$ 320 bilhões em cinco anos.
- Elevação gradual do orçamento para cerca de 2% do PIB.
- Ênfase em capacidades de mísseis, defesa espacial, guerra eletrônica e marinha de superfície/submarina.
Ponto convergente:
Ambos reconhecem que autonomia estratégica requer base industrial resiliente. A reindustrialização de defesa é parte essencial da estratégia.
3. Cultura Estratégica e Barreiras Históricas
Alemanha e Japão compartilham um fator crítico: memória histórica restritiva.
- A Alemanha carrega o peso do militarismo do século XX e estruturou sua identidade pós-1945 sobre contenção estratégica.
- O Japão adotou uma constituição pacifista que limitou formalmente o uso da força.
Hoje, ambos reinterpretam essas restrições à luz de ameaças contemporâneas. Não se trata de abandono do pacifismo normativo, mas de adaptação pragmática.
Essa transição é politicamente sensível e socialmente debatida — porém sustentada por crescente percepção de risco externo.
4. Alianças e Dependência dos EUA
Aqui reside uma diferença estrutural relevante:
- A Alemanha atua dentro de um arranjo multilateral consolidado — a OTAN — onde o poder é distribuído entre vários membros.
- O Japão opera em uma aliança bilateral centralizada com os Estados Unidos.
Entretanto, ambos os países ampliam capacidades precisamente porque existe incerteza quanto à previsibilidade estratégica americana no longo prazo. O objetivo não é substituir Washington, mas reduzir vulnerabilidade estratégica.

5. Projeção Global e Implicações Sistêmicas
A simultânea expansão militar alemã e japonesa indica uma tendência mais ampla:
- Potências econômicas liberais estão internalizando responsabilidades de segurança.
- A era da “terceirização estratégica” aos EUA parece estar sendo recalibrada.
- O equilíbrio regional em Europa e Indo-Pacífico tende a se tornar mais multipolar.
Se a Alemanha consolida-se como pilar terrestre da Europa, o Japão consolida-se como eixo marítimo do Indo-Pacífico democrático.
6. Conclusão Analítica
A transformação em curso em Berlim e Tóquio não é revanchismo histórico, mas resposta estrutural a um ambiente internacional mais competitivo e menos previsível.
Ambos os países:
- Reavaliam vulnerabilidades;
- Reinvestem em poder convencional;
- Ajustam doutrinas;
- Buscam maior autonomia dentro de alianças existentes.
Estamos diante de uma inflexão estratégica relevante: a segurança global do século XXI não será sustentada apenas pela hegemonia americana, mas por uma arquitetura distribuída, onde Alemanha e Japão emergem como pilares regionais de estabilidade — desde que consigam equilibrar poder militar com responsabilidade política.
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