Crise EUA–Europa, OTAN e iImplicações futuras

Nos primeiros meses de 2026, a relação transatlântica entrou em uma crise profunda em torno da Groenlândia — território autônomo do Reino da Dinamarca, situado estrategicamente no Ártico — após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, intensificar publicamente sua demanda de que os EUA “necessitam” da ilha por motivos de segurança nacional.

Isso incluiu a indicação de negociações imediatas sobre sua aquisição e ameaças de impor tarifas sobre aliados europeus que resistam à sua proposta.

Líderes europeus reagiram com forte retórica, defendendo a soberania dinamarquesa e a integridade do bloco transatlântico, e preparando respostas econômicas e diplomáticas de amplo espectro.

Essa escalada reconfigura o ambiente estratégico, levantando questões críticas sobre a coesão da OTAN, a natureza da aliança transatlântica e os rumos do comércio global.

Efeitos Diretos da Crise na OTAN e na Segurança Coletiva

A. Deterioração da Confiança Transatlântica

Historicamente, a OTAN se sustenta em princípios de solidariedade e respeito à soberania dos membros. A pressão americana sobre um território pertencente a um aliado e as ameaças tarifárias contra aliados que participaram de exercícios militares conjuntos — como a operação militar “Arctic Endurance” — representam um desafio direto a esses princípios.

Autoridades europeias alertaram que isso pode desencadear uma espiral descendente nas relações transatlânticas, prejudicando não apenas a OTAN, mas também a ordem internacional baseada em regras.

B. Redução de Cooperação Militar

Relatórios indicam que o Departamento de Defesa dos EUA planeja reduzir gradualmente a participação em grupos consultivos da OTAN, reduzindo cerca de 200 militares de funções especializadas em energia, inteligência e guerra naval — um movimento que poderia criar lacunas importantes na coordenação militar transatlântica.

Essa redução, ainda que gradual, sinaliza uma tendência de menor envolvimento americano nas estruturas colaborativas da OTAN, o que pode dificultar a resposta rápida a crises no flanco leste e no Ártico.

Impactos Econômicos e Comerciais Associados às Tarifas

A. Tarifa Americana Contra Aliados

A administração Trump anunciou a intenção de impor tarifas de 10% sobre importações de países europeus que se opuserem à tentativa americana de controlar a Groenlândia, com possibilidade de elevação para 25% ao longo do ano, caso a negociação pela ilha não avance conforme os EUA desejam.

Essa medida atingiria oito economias europeias importantes, incluindo Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Finlândia e Países Baixos.

Impactos imediatos e potenciais incluem:

  • Pressão inflacionária setorial na Europa: setores exportadores de bens industriais podem sofrer queda de competitividade nos EUA, pressionando margens e cadeias logísticas.
  • Desestímulo a investimentos transatlânticos: incerteza política e tarifária tende a atrasar decisões de investimento de longo prazo.
  • Risco de “guerra comercial” entre aliados: apesar de não ter ainda se configurado em grande escala, elementos para um ciclo de retaliação estão presentes com forte potencial de escalada.

B. Resposta Comercial da União Europeia

Em reação, a UE considera retaliação com um pacote de tarifas retaliatórias de cerca de €93 bilhões contra os EUA, buscando tanto compensar impacto econômico quanto demonstrar capacidade de resposta geopolítica robusta.

Além disso, mecanismos como o Anti-Coercion Instrument (ACI) — regulamento criado para proteger o bloco contra coerção econômica — estão sendo avaliados para uso contra os EUA, uma vez que esse instrumento foi inicialmente pensado para lidar com coerção econômica chinesa e agora pode ser direcionado a Washington.

C. Suspensão de Acordos Comerciais

O Parlamento Europeu suspendeu a ratificação de acordos comerciais pendentes com os EUA, refletindo a convicção de que as ameaças tarifárias violam compromissos prévios e prejudicam a cooperação economicamente equilibrada entre os dois mercados.

França pede exercício da OTAN na Groenlândia e está pronta para participar. Presidente francês Emmanuel Macron em Davos 20/1/2026 REUTERS/Denis Balibouse

Cenários Prospectivos (2026–2027)

A seguir, uma estrutura de cenários plausíveis, organizada por probabilidade e impacto estratégico:

Cenário 1 — Desescalada Diplomática Controlada (Moderado)

Evolução:
Diálogo intensificado na OTAN e no Fórum Econômico Mundial em Davos leva a um acordo intermediado: os EUA moderam as ameaças tarifárias e abandonam a pressão sobre a soberania da Groenlândia. A UE compromete-se a manter parte da cooperação militar e comercial.

Resultado:

  • Reforço de cláusulas de cooperação na OTAN para o Ártico.
  • Criação de grupos de trabalho bilaterais para tratar segurança e comércio.
  • Mercados reagem positivamente, reduzindo risco sistêmico.

Implicações:
Preserva a estrutura da aliança sem grandes rupturas, embora a desconfiança permaneça um fator de longo prazo.

Cenário 2 — Guerra Comercial Transatlântica (Probabilidade Moderada-Alta)

Evolução:
Tarifas americanas entram em vigor conforme o cronograma, a UE ativa o ACI e retalia com tarifas equivalentes sobre grandes exportações americanas. A tensão se estende por 12–18 meses.

Resultado:

  • Queda no volume de comércio transatlântico.
  • Redirecionamento de cadeias de suprimentos para Ásia e América Latina.
  • Maior volatilidade nos mercados de commodities e moedas.

Implicações:
Essa escalada consome capital político e econômico, além de pressionar países europeus que dependem fortemente do mercado norte-americano.

Cenário 3 — Fragmentação da OTAN e Novo Equilíbrio Estratégico (Impacto Alto)

Evolução:
As tensões persistem, e medidas como possíveis limitações ao uso de bases americanas na Europa ou redução significativa de cooperação militar criam um ambiente de divergência estratégica estrutural dentro da OTAN.

Resultado:

  • A UE acelera sua autonomia estratégica militar, potencialmente por meio de iniciativas europeias de defesa e pactos regionais.
  • A Rússia e a China buscam explorar brechas, ampliando sua presença diplomática e econômica no norte e leste da Europa.

Implicações:
Esse cenário representa um ponto de inflexão estratégico: a OTAN deixa de ser um eixo sólido de segurança para se tornar um arranjo múltiplo de acordos de defesa — com os EUA participando mais seletivamente.

Julgamento Estratégico

A crise atual expõe uma paradoxo central da aliança transatlântica: a dependência europeia em segurança americana versus a necessidade de defender soberania e instrumentos de governança soberanos da UE. As decisões estratégicas adotadas em 2026–2027 definirão não apenas a relação EUA–Europa, mas o tecido estratégico do mundo ocidental nas próximas décadas.

Os riscos incluem:

  • Erosão de confiança mútua, que é a base da OTAN.
  • Risco de proliferação de zonas de influência adversária, com Rússia e China buscando capitalizar divisões.
  • Crise de legitimidade da ordem internacional se aliados priorizarem coerção econômica em detrimento do consenso.

Por outro lado, a crise pode se tornar um ponto de inflexão construtivo, levando a reformas institucionais profundas na OTAN e a um novo equilíbrio de poder transatlântico — se for administrada com liderança e

pragmatismo político.

Nota Estratégica Final — Benefícios para a Rússia e o papel de Trump

A crise transatlântica em curso favorece objetivamente a estratégia russa, não por envolver forças da OTAN em combate na Ucrânia — o que não ocorre —, mas por enfraquecer a coesão política, a previsibilidade estratégica e a capacidade decisória do bloco euro-atlântico.

Esse enfraquecimento se traduz, de forma prática, em risco de redução, atraso ou fragmentação do fornecimento de armamentos, munições, inteligência e recursos financeiros à Ucrânia, elemento central para a sustentação do esforço defensivo ucraniano.

Do ponto de vista estratégico, Moscou sempre buscou dissociar os interesses europeus dos norte-americanos, apostando que divisões internas no Ocidente são mais eficazes do que confrontos diretos. A atual tensão entre Washington e capitais europeias desloca a atenção política, consome capital diplomático e dilui a prioridade dada ao apoio contínuo a Kiev, criando um ambiente mais favorável à Rússia no médio prazo.

No debate público e analítico, Donald Trump é frequentemente descrito por críticos não como um agente formal de inteligência, mas como um “agente de influência” ou “ativo de influência” — termo da literatura estratégica que designa atores cujas decisões e discursos produzem efeitos alinhados aos interesses de um adversário estratégico, ainda que sem comprovação de vínculo operacional direto. Nessa leitura, a retórica confrontacional com aliados, a instrumentalização de tarifas e a relativização de compromissos multilaterais contribuem para o enfraquecimento indireto da OTAN.

Para a Rússia e para Vladimir Putin, o ganho estratégico é claro: quanto menor a coesão política do Ocidente, menor a previsibilidade do apoio à Ucrânia e maior a margem de manobra russa no campo militar, econômico e informacional. O resultado não é a retirada de tropas inexistentes, mas sim a erosão gradual do fluxo de armas e recursos, fator que Moscou considera decisivo para prolongar o conflito em condições mais favoráveis.

Síntese estratégica: independentemente das intenções declaradas, o efeito sistêmico da crise EUA–Europa enfraquece o esforço coletivo de apoio à Ucrânia, beneficia a estratégia russa de desgaste prolongado e coloca em teste a resiliência política da OTAN como aliança, mais do que sua capacidade militar formal.

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