Por Ricardo Fan – Defesanet
A Embraer, a principal fabricante aeronáutica brasileira e uma das maiores do mundo, parece ter entrado — em 2026 — em uma nova fase de expansão estratégica e de consolidação internacional.
Ao mesmo tempo em que ajusta seu papel na indústria global de aviação comercial, a empresa vem reforçando sua posição no setor de defesa e ampliando sua presença industrial em mercados de alta demanda, como a Índia e a Europa Central.
Super Tucano no radar europeu: uma solução leve contra ameaças assimétricas
O avião turboélice A-29 Super Tucano, produzido pela Embraer Defesa & Segurança, vem sendo reposicionado como plataforma relevante não apenas para treinamento e ataque leve, mas também como parte de uma solução integrada contra ameaças modernas, como drones e ataques air-to-ground de baixa velocidade — evidenciando um reposicionamento de mercado.
Embora notícias mais recentes indiquem que a Embraer tenha perdido competitividade em algumas disputas específicas europeias frente a concorrentes como a Airbus na Polônia, o interesse por aeronaves leves com capacidades versáteis em defesa continua elevado, dada a crescente necessidade de soluções custo-efetivas em ambientes híbridos ou de guerra assimétrica.
Tal cenário reforça uma tendência global: sistemas de menor porte e menor custo, como o Super Tucano, são reavaliados para missões de vigilância, controle de espaço aéreo e resposta a ameaças de veículos aéreos não tripulados, buscando um equilíbrio entre eficácia e economia operacional, algo que plataformas de alto desempenho não conseguem entregar com a mesma eficiência em todos os teatros.
Assim, o potencial interesse de países europeus em plataformas como o A-29 realça duas dinâmicas:
- A importância crescente de capacidade anti-drones em conflitos contemporâneos;
- A necessidade de soluções que combinem baixo custo, versatilidade e interoperabilidade dentro dos padrões de defesa da OTAN.
Parceria com Adani na Índia: um divisor de águas industrial
No campo civil, a Embraer deu um passo significativo ao assinar um memorando de entendimento com o conglomerado indiano Adani Group para estabelecer uma linha de montagem final de aeronaves regionais na Índia — uma iniciativa com implicações industriais e geopolíticas profundas.
Esse acordo visa não apenas montar aeronaves de passageiros de 70 a 146 lugares diretamente em território indiano, mas também desenvolver toda uma cadeia de suprimentos, serviços pós-venda e potencial transferência de tecnologia ao longo do tempo. O projeto se encaixa na política indiana de fortalecer a indústria aeronáutica local, reduzindo a dependência de importações e fomentando a base industrial nacional.
O movimento representa:
- Uma entrada estratégica num dos mercados de aviação civil de mais rápido crescimento do mundo;
- Uma diversificação geográfica da produção da Embraer, tradicionalmente concentrada no Brasil;
- Uma possibilidade de posicionar a Índia como um polo global de montagem e, futuro, de produção completa de aeronaves, alinhado ao programa “Make in India”.
Além disso, esse tipo de parceria costuma criar efeitos multiplicadores: atração de fornecedores, desenvolvimento de competências técnicas locais e integração em cadeias globais de valor, potencialmente elevando a competitividade da Embraer frente aos grandes polos de aviação civil na América do Norte e Europa.

Produção em alta: resposta à demanda global turbinada
Paralelamente às iniciativas de defesa e à expansão industrial, a Embraer planeja elevar significativamente sua produção de aeronaves comerciais. De acordo com declarações dos executivos mais recentes, a empresa busca retomar níveis pré-pandemia de entrega — cerca de 100 aeronaves por ano — e possivelmente ultrapassar esse patamar, impulsionada por um forte aumento de pedidos.
Esse incremento de produção se dá em um contexto de forte demanda global por jatos regionais, especialmente à medida que companhias aéreas buscam renovar suas frotas com aeronaves mais eficientes em consumo de combustível e adequadas a rotas de curta e média distância — segmento no qual os jatos da Embraer (série E2) demonstram desempenho competitivo frente a alternativas de mercado.
Contudo, essa expansão produtiva enfrenta desafios logísticos e estruturais:
- A necessidade de coordenação de cadeias de suprimentos globais, que ainda se recuperam de perturbadores efeitos da pandemia;
- A concorrência por componentes críticos, como motores e eletrônicos aeronáuticos;
- A necessidade de manter a eficiência industrial sem comprometer qualidade e prazos.
Mesmo assim, o otimismo entre executivos indica confiança em que a Embraer está preparando sua capacidade produtiva para atender tanto a novos pedidos quanto a mercados emergentes, reforçando sua posição no segmento regional e em nichos que exigem flexibilidade industrial.

Rumo à consolidação global com múltiplas frentes
A análise dos fatos mais recentes aponta para um momento de forte dinamismo estratégico para a Embraer. A empresa não está apenas reagindo a ciclos de mercado, mas posicionando-se deliberadamente em frentes diversas:
- No setor de defesa, oferecendo plataformas com capacidade adaptativa a cenários modernos de ameaça;
- No setor civil, reforçando sua presença industrial em mercados de alta expansão, como a Índia;
- No campo de produção global, respondendo a demandas consistentes com incremento real de capacidade produtiva.
Esse conjunto de movimentos sugere que a Embraer está em processo de transição de fornecedora regional para um agente global cada vez mais relevante, com atuação que combina tecnologia, parcerias industriais e respostas às demandas estratégicas de seus parceiros e clientes.
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