COBERTURA ESPECIAL - Doutrina Militar - Terrestre

14 de Dezembro, 2021 - 09:09 ( Brasília )

A memória histórica coletiva: influência na identidade, no “ethos” e na cultura militar


Gen Bda Carlos Augusto Ramires Teixeira

Deparei-me, recentemente, em um seminário promovido pela Diretoria do Patrimônio Histórico e Cultural do Exército (DPHCEX), com uma abordagem acadêmica sobre a "memória coletiva", processo social de aceitação de uma narrativa histórica.

A curiosidade instigou-me a buscar as referências bibliográficas e ligar o conceito às práticas desenvolvidas no âmbito do Exército para o fortalecimento de suas crenças e de seus valores. A resenha abaixo é fruto desse contexto. Ao final, estabeleço relações entre essa teoria e as práticas castrenses.

O livro de Stuart Hall, “A Identidade Cultural na Pós-Modernidade” (DPSA Editora, 2005), aborda aspectos sobre a formação da cultura e sua influência na identificação do indivíduo, da sociedade e da nação.

O autor inglês identifica uma mudança significativa na sociedade pós-moderna, se comparada à iluminista, com reflexos na percepção do sujeito como pessoa humana. Nessa sociedade, esse sujeito era “centrado, unificado e soberano”, enquanto naquela há a “desarticulação das identidades estáveis do passado”.

O livro sugere que a “fragmentação” da identidade moderna teve o acompanhamento importante de cinco filosofias entre os séculos XIX e XX, resultando no “descentramento” do sujeito cartesiano racional, pensante e consciente.

Sobre Marx, o autor afirma que ele identifica o “sujeito real” e cada indivíduo como “singular”; sobre Freud, cita que as estruturas do desejo humano passam por processos simbólicos do inconsciente; citando Ferdinand de Saussure, lembra que a língua estabelece uma série de significados embutidos nos “sistemas culturais”; no trabalho de Foucault, identifica a “genealogia do sujeito moderno”, um ser humano dócil como produto de um “poder disciplinar” (oficinas, quartéis, hospitais, prisões etc); e finalmente refere-se à crítica teórica do “feminismo”, constituindo-se, nos anos 1960, como o nascimento na “política de identidade” de movimentos sociais dos mais diversos.

O “descentramento” do sujeito iluminista, até então fixo e estável, resultou em um sujeito pós-moderno, de identidade “aberta”, contraditória, inacabada e fragmentada.

Da mesma forma que trata do indivíduo, o livro aborda a desconstrução da “cultura nacional”. Na construção da nação, o autor identifica que suas histórias e memórias, conectando o passado ao presente, são parte da produção da “comunidade imaginada”.

Na narrativa da nação, os eventos históricos, os símbolos e os rituais nacionais dão sentido à existência. Nesse contexto, Hobsbawn é citado pelo conceito de "invenção da tradição", um conjunto de práticas que visam inculcar valores e normas de comportamento.

Além disso, o tempo “mítico” fundacional é estabelecido para tornar inteligível à nação os momentos de desordem ou desastre. Citando Ernest Renan, o autor destaca que a comunidade imaginada possui “memórias do passado”, o desejo de viver em conjunto e de perpetuação da herança. Sobre Gellner, diz que as identidades nacionais são formadas pela consequência da relação entre a cultura (identidade) e a esfera política.

Stuart Hall conclui que o “pós-modernismo global”, o hibridismo e o sincretismo estão conduzindo ao colapso todas as identidades culturais fortes e produzindo a fragmentação dos códigos culturais e a ênfase no efêmero, na diferença e no pluralismo cultural.

No fenômeno conhecido como “homogeneização cultural”, a identidade nacional tende a ser desvinculada dos tempos, dos lugares, das histórias e das tradições específicas, fortalecida pela expansão do mercado mundial e do sistema global.

Trazendo esses conceitos para os muros da caserna, avalio que temos adotado metodologias coerentes, tanto nas escolas militares quanto na tropa, para a preservação de nossas raízes e tradições, se considerada nossa condição de estrutura de Estado.

Nessa condição, em que a política pública exige a entrega do bem natural da vida, é lícito supor que não haja outro enquadramento para a identidade militar brasileira que não a de "iluminista".

No entanto, a leitura alerta para o movimento social que, inevitavelmente, adentra democraticamente, ano após ano, na Instituição, fruto do processo normal de recrutamento. Desde o estabelecimento da "Missão Francesa", a construção e a consolidação da narrativa dos feitos heroicos dos nossos patronos, por exemplo, têm colaborado para "blindar" o “ethos” militar brasileiro.

Rememorar os atos valorosos e suas circunstâncias, fortalecer o significado da simbologia castrense e enaltecer as virtudes morais e éticas de grandes vultos do Exército são medidas que colaboram para unificar a "memória coletiva" institucional. Assim, no nível tático, constrói-se o "espírito de corpo"; no nível estratégico, a "coesão".

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Sobre o autor:

O Gen Bda Carlos Augusto Ramires Teixeira foi Assessor do Conselheiro Militar do Brasil junto à ONU (Nova Iorque-EUA); Diretor de Inteligência da Intervenção Federal na Segurança Pública no Estado do Rio de Janeiro; Comandante do 6° Regimento de Cavalaria Blindado (Alegrete-RS); Comandante  do Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil (Rio de Janeiro-RJ); Comandante da 3a. Brigada de Cavalaria Mecanizada (Bagé-RS) e Comandante de Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (Rio de Janeiro-RJ). Atualmente, é Diretor do Patrimônio Histórico e Cultural do Exército (Rio de Janeiro-RJ).
 



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