COBERTURA ESPECIAL - Doutrina Militar - Terrestre

01 de Abril, 2021 - 09:00 ( Brasília )

Liderança: como desenvolver a visão necessária para liderar


General de Divisão R1 Joarez Alves Pereira Junior

“Grandes líderes têm visão e capacidade de convencer os outros a compartilhar dessa visão”. Essas são palavras do autor de vários livros sobre liderança, Warren Bennis. Agora, como adquirir a visão necessária para se tornar um grande líder? Seria essa capacidade um dom inato ou pode ser desenvolvida?

A vida em sociedade exige líderes. O líder é aquele que conduz, mostra a direção, dirige o grupo, define metas a serem alcançadas, impulsiona a equipe a produzir mais, influencia e motiva seus liderados. Para conduzir a melhores destinos e obter melhores resultados, o líder precisa de visão e de ver aquilo que ainda está obscuro para os demais.

BASES DA LIDERANÇA

Pode-se dizer, de maneira sintética, que a liderança se sustenta em três pilares: conhecimento, virtude e visão.

O conhecimento fundamenta-se em dois pontos. O primeiro é a capacitação técnica na área específica em que o líder irá atuar. Apesar de trabalhosa, é a mais fácil de ser adquirida, pois se baseia no desenvolvimento acadêmico, e é obtida por meio de livros e bons professores. Mas a capacitação técnica não basta, ela tem que ser complementada pelo segundo ponto, que é o que procurei definir em artigo anterior, de minha autoria, intitulado a “inteligência dos líderes”[1]. Essa inteligência refere-se à capacidade diferenciada do líder, acima da média da maioria das pessoas, de desenvolver suas inteligências intra e interpessoal. É o que permite, como ficou evidente no artigo já mencionado, liderar primeiro a si mesmo e depois administrar relacionamentos por meio de, entre outros aspectos, o uso correto da autoridade, a aplicação da justiça e o tato no trato com as pessoas.

O segundo pilar de sustentação da liderança está calcado no desenvolvimento de valores, virtudes e comportamentos atitudinais positivos. A base de tudo é a conquista da confiança. Não há como exercer liderança sem a conquista da confiança. Não se reconhece como líder alguém em quem não se confia. E conquistar a confiança exige do líder integridade, lealdade e disposição de ser exemplo.

Por fim, não bastam conhecimento e virtude. Essas qualidades também formam bons administradores, bons chefes. O líder precisa ser capaz de conduzir o grupo a melhores destinos e ser capaz de mirar o futuro e estabelecer novas conquistas. É preciso ter visão.

[1] Disponível no EBlog (eblog.eb.mil.br), publicação de 30 de dezembro de 2020.

VISÃO: OS PASSOS PARA DESENVOLVER ESSA CAPACIDADE

Talvez esteja aí, na visão, o verdadeiro diferencial dos grandes líderes. A boa notícia é que, respondendo a um dos questionamentos iniciais deste artigo, essa capacidade é possível de ser obtida e aperfeiçoada. Três passos importantes nos orientam nessa trilha de obtenção da visão necessária para liderar.

Primeiro Passo: entender o mundo atual, de mudanças rápidas

A mudança é uma constante na história da humanidade, e a inteligência humana é a sua mola propulsora. O diferencial dos tempos atuais é que ela ocorre de forma muito mais acelerada. E é preciso, ao líder, acompanhar essa transformação para não correr o risco de ser um líder de um tempo que não mais existe.

A grande responsável pela aceleração da mudança é a rápida evolução tecnológica dos tempos atuais. E ela altera significativamente a vida de todos, líderes e liderados. Os processos educacionais e industriais passam por revoluções sistemáticas. A inteligência artificial já supera a inteligência humana em algumas áreas, e esse é um processo crescente e irreversível. Portanto, é justamente aquilo que as máquinas não podem fazer, é justamente a consciência humana não adquirida pela máquina, que irá diferenciar nossos futuros líderes. E não para por aí, evoluções no campo da nano e biotecnologia serão portadoras de mudanças ainda mais expressivas.

O segundo aspecto para entender o mundo atual é perceber que a interdependência é cada vez mais acentuada. A globalização de empresas e pessoas ocorre em ritmo acelerado. O mundo do passado, desconectado e distante, hoje é cada vez mais próximo e interligado.

O acesso a tudo é instantâneo, as respostas são rápidas, a observação e a repercussão dos fatos são imediatas. A capacidade de comunicação do líder é posta à prova, tudo pode ser transmitido ao vivo, as gravações e difusões dos fatos são realizadas por qualquer cidadão comum. O líder deverá estar preparado para essa nova realidade.

E, como terceiro aspecto, e talvez, o mais sensível para desenvolver a visão do líder: os comportamentos sociais se transformam rapidamente; o individualismo é uma característica da nova geração; e alguns valores da formação do líder de antigamente podem não fazer parte do rol comportamental do futuro da nova classe de liderados.

Nesse mundo de rápidas mudanças, o líder que busca criar a visão prospectiva para melhor conduzir seu grupo deverá ser ágil e adaptativo, com o propósito de não desenvolver processos retrógrados, os quais não irão se ajustar às demandas do futuro.

Segundo passo: adquirir sabedoria

Em um primeiro momento, pode até parecer uma conversa sem nexo. Como adquirir sabedoria? Não seria a sabedoria um dom dos sábios, que por algum dom divino os fez nascer com esse diferencial? Não é bem assim.

Antes de mais nada, recordo que conhecimento é saber que as coisas são de determinada maneira; já a sabedoria vai além, é saber porque as coisas são de determinada maneira.

A sabedoria cresce com as experiências vividas, por si próprio ou por outrem. Vem de um aprendizado contínuo ao longo da vida; vem do estudo e da observação meditada dos acontecimentos. Em épocas longínquas da existência humana, particularmente em períodos anteriores à escrita, colocavam os mais idosos em posição elevadíssima na escala social. Eram respeitados pelo conhecimento adquirido e, particularmente, pela sabedoria no entendimento daquele mundo antigo.

Conhecimento e sabedoria crescem nem sempre na mesma proporção. É preciso que o líder não se limite ao crescimento do conhecimento técnico, mas que vivencie em profundidade os fatos, investindo na grandeza da sua sabedoria. É preciso que reflita sobre os fatos, sobre o conhecimento técnico, sobre as experiências vividas e sobre as experiências dos outros, de modo que possa, com robustez, desenvolver a capacidade de prever o futuro das ações que empreender, desenvolvendo a visão acurada do melhor desígnio.

Terceiro passo: entender as características do ambiente onde exercerá a liderança

Cada ambiente social ou profissional possui suas características peculiares. E essas peculiaridades influenciam as perspectivas de posicionamento do líder. A visão estratégica do líder deverá estar alinhada com pontos marcantes da trajetória e dos valores enraizados do grupo. A visão futura não deverá frustrar perspectivas sólidas e já arraigadas da cultura daquela comunidade. Ao fazer a análise das características do ambiente, faz-se necessário trabalhar os pontos fortes, de modo a maximizar os ganhos, e mitigar os pontos fracos, para evitar ou minimizar as perdas.

O líder deverá alinhar sua visão de futuro com os valores que regem aquela sociedade. Evoluções e ajustes de rumo são pontos importantes para serem estabelecidos pelo líder. No entanto, ir de encontro a contornos que dão personalidade própria ao grupo, contornos dos quais se orgulham e que definem o grupo, que lhes dão personalidade, não irá ajudar a construir a visão apropriada. O líder estará em dessintonia com a realidade e com a perspectiva daquela comunidade de liderados e será rejeitado. A sua visão estará distorcida.

PARA CONCLUIR

John Kotter, professor emérito da Harvard Business School, especialista em liderança, afirma que “o aspecto da definição de direção na liderança não produz planos, mas cria visões e estratégias”. Podemos ver, por este artigo, que é possível trabalhar as pessoas para que desenvolvam os aspectos fundamentais de obtenção da chamada visão do líder.

É um processo cujas ferramentas foram expostas, mas a construção dessa capacidade exige um envolvimento pessoal no uso das ferramentas, que passa pela disciplina de refletir sobre os aprendizados teóricos e práticos da vida, projetando-os para a sua aplicação no futuro, na busca das melhores estratégias para visualizar o efetivo destino para o qual o líder conduzirá os seus liderados.


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