COBERTURA ESPECIAL - Doutrina Militar - SOF

08 de Junho, 2020 - 01:00 ( Brasília )

Cel Fernando Montenegro - RENATO VAZ e a Evolução dos Times Táticos do Brasil nos Anos 1990

Vaz inovou sobremaneira os processos e métodos de treinamento do tiro sob estresse, incluindo treinamento com máscara de gases, cães de guerra, tiro embarcado, proteção de dignitários, dentre outras atividades.


RENATO VAZ E A EVOLUÇÂO DOS

TIMES TÁTICOS DO BRASIL NOS ANOS 1990

 


Coronel (R1) Fernando Montenegro
Forças Especiais do Exército Brasileiro

Ainda não me lembro de ter visto nenhum registro confira algum reconhecimento a um personagem chamado Renato Vaz (in memoriam), falecido no início desse século num acidente aéreo, que eu e outros operadores tivemos o privilégio de conhecer e conviver ao longo da década de 1990, quando eu servia no 1ºBatalhão de Forças Especiais (1ºBFEsp).

Não tenho como dizer que ele fosse o único brasileiro a ter acesso ao conhecimento de times táticos com o grau de atualização que ele tinha naquela época, mas certamente ganhou grande notoriedade porque foi um grande entusiasta e difusor das Técnicas, Táticas e Procedimentos. É possível que tenha sido o principal responsável pela evolução e formação de vários times táticos nos anos 1990, provocando uma mudança de mentalidade nas Forças Armadas e Forças Policiais, influenciando vários profissionais e corporações a irem realizar treinamentos fora do Brasil em lugares como a SWAT dos Estados Unidos e Special Air Services-Reino Unido (SAS-UK) por exemplo. Em relação às atividades no 1ºBFEsp, sei que ele nunca cobrou nenhum centavo e fazia as coisas com o coração.

Renato Vaz conduzindo adestramento do BOPE-RJ, anos 1990


No início de 1992, o Capitão Forças Especiais Pedro Paranhos servia no 1º Batalhão de Forças Especiais e tinha o hábito de viajar para a cidade de Boituva, no interior de São Paulo, para praticar paraquedismo desportivo, onde acabou conhecendo Renato Vaz, saltador-livre, Diretor de Segurança do BANESPA (Banco do Estado de São Paulo), antigo oficial R/2 do Exército e entusiasta de tiro.

Decorrente dessa amizade, Vaz ofereceu ao 1º BFEsp três vagas para um curso de tiro para policiais de São Paulo que seria patrocinado pelo Banespa e ocorreria no mês de março. Ao frequentar o treinamento, os militares perceberam que era muito mais do que um curso de tiro e o treinamento envolvia várias atividades além do tiro e ligadas ao contraterrorismo, porque Vaz tinha realizado vários cursos em Israel, SWAT dos USA e outras empresas de armamento.

Como, no final de 1991, o 1ºBFEsp havia recebido a missão de constituir uma tropa de pronta resposta contra possíveis ações terroristas por ocasião da  ECO 92 (Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento), que ocorreria em junho de 1992, foi solicitado ao Sr Renato Vaz a condução, no mês de abril de dois cursos no 1º BFEsp: Curso Básico de Times Táticos e Curso avançado de Times Táticos.

A verdade é que o 1ºBFEsp praticamente só conseguiu a munição, porque não tínhamos muita coisa do material necessário para o adestramento, o próprio Vaz acabou fornecendo quase tudo através do Banespa. Na segunda quinzena de abril e início de maio, os treinamentos realizados no quartel do Camboatá tinham grande intensidade, iniciando logo após o café da manhã e muitas vezes indo até a madrugada; os militares que participaram chegaram a ter bolhas de sangue no dedo indicador do gatilho. O grau de exigência em tiro era tão grande que se um militar errasse o alvo em qualquer fase, aquele módulo de tiro era todo repetido, desde o início por todos integrantes da equipe.

Destacamento de Contraterror 1ºBFEsp, 1993


Além de apresentar uma percepção muito mais coerente sobre as alternativas táticas (Negociação, Uso de Agentes Químicos, Tiro de Comprometimento e Assalto), Vaz inovou sobremaneira os processos e métodos de treinamento do tiro sob estresse, incluindo treinamento com máscara de gases, cães de guerra, tiro embarcado, proteção de dignitários, dentre outras atividades.  A partir de então, uma nova mentalidade foi criada, passou-se a buscar intercâmbios com tropas especiais de outros países e promover simpósios com Forças de Operações Especiais das Forças Armadas e corporações policiais do Brasil.

A partir dos treinamentos com Renato Vaz, o 3º Destacamento Operacional de Forças Especiais (3ºDOFEsp) se tornou também o Destacamento de Contraterror (DCT),  passou a ser o encarregado de reter o conhecimento adquirido, manter atualização e ministrar os treinamentos e estágios referentes a essa matéria. Ainda no desenvolvimento dessa atividade Vaz apoiou o DCT nos primeiros adestramentos ministrados a várias Forças de Operações Especiais das Forças Armadas e Corporações Policiais, como o BOPE-RJ e depois viajou pelo Brasil difundindo o conhecimento que viabilizou o aperfeiçoamento e/ou a formação e do GATE-PMESP, Batalhão de Missões Especiais-PMMG, GATE-PMCE, dentre outros.

Também nessa época, visando aperfeiçoamento da atividade e intercâmbio de experiências, militares do DCT passaram a participar de incursões reais em favelas com o BOPE-RJ; algumas dessas atividades eram acompanhadas por Renato Vaz para avaliar a utilização das Técnicas, Táticas e Procedimentos em combate e depois ele contribuía com suas observações por ocasião do debriefing pós missão.

Outra relevante contribuição desse personagem foi na desmobilização de Cabos e Soldados Comandos do 1ºBFEsp, em que vários foram contratados para trabalhar na estrutura de segurança do BANESPA e do Banco Santander.


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